A ex-ministra Marina Silva (Rede), pré-candidata ao Senado pelo estado de São Paulo, foi sabatinada nesta quarta-feira (27) pela BandNews e afirmou que as preocupações com economia e com ambiente devem caminhar juntas.
Esse é o debate desse século, não tem como sair dele, mas eu posso te dizer, toda a minha trajetória tem sido fazer com que tenhamos uma política ambiental que assegure prosperidade, combata a desigualdade, com democracia e sustentabilidade. --Marina Silva
Marina Silva é conhecida por seu ativismo ambiental. De origem humilde, ela cresceu no Acre, onde trabalhou como seringueira e empregada doméstica, aprendendo a ler e escrever apenas aos 16 anos. Apesar das barreiras iniciais, se formou em história e foi uma das fundadoras da Central Única dos Trabalhadores (CUT) no estado.
Foi eleita ao Senado em 1999 e foi reeleita em 2002. Como ministra do Meio Ambiente entre 2003 e 2008, no primeiro governo Lula, liderou políticas que se tornaram marcos na redução do desmatamento da Amazônia, embora sua gestão tenha sido marcada por divergências com alas desenvolvimentistas do governo, levando à sua saída.
Em 2010, foi candidatura à Presidência pelo PV e teve quase 20 milhões de votos. Fundadora do partido Rede Sustentabilidade, ela voltou à Esplanada dos Ministérios em 2023, sob o atual governo Lula, reassumindo o desafio de liderar a política climática global do país.
Ambiente x crescimento econômico
"O primeiro desafio é não fazer essa separação entre o interesse econômico e o interesse ambiental. As duas coisas fazem parte da mesma equação. E sempre que eu estou na agenda ambiental, é assim que tenho trabalhado. Já em 2003 eu disse, não basta dizer o que não pode, é preciso criar o como pode.
Foi assim que nós viabilizamos os investimentos das hidrelétricas de Santo Antônio em geral, foi assim que nós concedemos a licença para a BR-163, foi assim que nós fizemos o licenciamento mais complexo de toda a história do Brasil até hoje, que foi a transposição do Rio São Francisco. Agora, para isso, é preciso você entender que é uma equação em três níveis, viabilidade econômica, viabilidade social e viabilidade ambiental.
Quem faz a dicotomia entre as duas coisas acaba fazendo esse tipo de crítica, mas ela não tem base na realidade. O problema da mudança do clima exige cada vez mais que façamos uma integração entre economia e ecologia, por isso que eu falei muito dos instrumentos econômicos que criamos para a transição energética, infraestrutura verde, adensamento tecnológico.
E São Paulo já é uma cidade com alto adensamento tecnológico, com uma agricultura tecnológica que não precisa destruir para poder ser potente, que é inclusive grande produtor de biocombustível. Esse é o debate desse século, não tem como sair dele, mas eu posso te dizer, toda a minha experiência tem sido de fazer com que tenhamos uma política ambiental que assegure prosperidade, combata a desigualdade, com democracia e sustentabilidade."
Preservação da Mata Atlântica
"A Mata Atlântica já foi 1 milhão e 300 mil hectares, mas hoje tem apenas algo em torno de 10 a 12% disso. Graças aos movimentos ambientais e à comunidade científica, tivemos um processo de recuperação da Mata Atlântica, mas o grande desafio é continuar restaurando, preservando.
Aliás, a Mata Atlântica é fundamental para o equilíbrio hídrico do estado de São Paulo, que está vivendo mais uma ameaça de crise hídrica, em função do El Niño e de não terem feito investimentos adequados para evitar o que aconteceu em 2014.
Então, preservar a Mata Atlântica é a certeza de que nós vamos manter o nosso regime hidrológico, que nós vamos manter reservatórios e vamos equilibrar o microclima. Sem ela, a situação das ondas de calor fica bem pior.
Os que desmatam e que são contra a lei é algo em torno de 1%. Os 99% já entenderam que têm que fazer certo. O problema é que os que fazem errado eles têm uma capacidade de vocalização, de generalizar como se fossem todos. São Paulo, por exemplo, como eu disse, é um estado de uma agricultura altamente tecnológica.
Não é aumento de produção por expansão predatória da fronteira agrícola, é aumento de produção por ganho de produtividade. Isso ficou comprovado agora. Nessa minha terceira gestão, onde tivemos uma queda do desmatamento de 32% em todo o país, de 40% na Mata Atlântica, os últimos dados que nós temos, e uma queda de 50%."
Por que em SP, e não Acre
"Eu fui eleita duas vezes pelo estado do Acre. Eu fui vereadora, fui deputada estadual e duas vezes senadora. Mas sempre que eu eu tive os meus mandatos de senadora, eu sempre trabalhei pelo Acre e pelo Brasil. Se você olhar durante o governo do presidente Fernando Henrique, mesmo sendo de um partido de oposição, eu contribuía para para que a agenda ambiental avançasse no Brasil inteiro.
E eu tenho uma relação, digamos assim, orgânica, em termos da minha história pessoal de vida com o estado de São Paulo, seja porque quando eu fui desenganada pela primeira vez, em função de uma hepatite que quase, enfim, me levou a óbito, foi no estado de São Paulo que eu encontrei o abrigo para salvar a minha vida, seja pelo meu marido que é paulista.
Isso é a beleza da democracia, independente da minha condição social, de tantas diferenças que nós temos, a democracia possibilita que as pessoas possam exercitar sua generosidade e agora tudo que eu faço é também retribuir porque a minha causa é do Brasil. Quando a gente já foi candidato por três vezes à Presidência da República, pode ter certeza, o domicílio da gente é o lugar que chegamos no país."
Preocupação com Segurança Pública
"Com certeza, eu tenho uma aterrissagem profunda nos problemas sociais e nas necessidades de saúde, de segurança, de educação de um estado como São Paulo. Aliás, quando você vive o extremo da escassez e chega num estado com a quantidade de recursos financeiros, tecnológicos e humanos de São Paulo, fica até difícil entender como é que determinadas questões ainda não foram resolvidas. E eu tenho o compromisso de ajudar a encontrar soluções para esses problemas.
Por exemplo, no caso da Segurança Pública, você não pode ter uma avaliação seletiva da segurança, porque diminuiu a questão do crime contra o patrimônio, de determinadas formas de letalidade e, ao mesmo tempo, aumentou a violência em relação às mulheres, o feminicídio, casos de estupro com vulnerável. Precisamos combinar ações que nos levem a ter uma segurança pública que faz o enfrentamento da criminalidade, do crime organizado, mas também vai prover meios necessários para que uma política transversal viabilize condições de vida melhor para a população, principalmente as pessoas que mais pagam o preço dessa falta de segurança.
Porque segurança é ter uma polícia bem treinada, com formação continuada, equipada com todos os meios necessários, mas é também prover transporte de qualidade, iluminação na rua, segurança para a mulher que vai trabalhar e tem que passar num beco escuro, para a juventude que vai estudar, trabalhar ou se divertir e, de repente, é abordada violentamente só em função da cor da pele ou da indumentária que usa. Então, pensar segurança pública é estratégico."
PEC do fim da 6x1
"Eu sou favorável e acho interessante quando vejo alguns políticos dizendo que essa é uma agenda eleitoral. Eu ajudei a fundar a Central Única dos Trabalhadores (CUT) lá no Acre na década de 1980, em 1984, e ali nós já colocávamos a redução da jornada de trabalho exatamente nos termos em que está sendo proposta. Isso não é nenhuma pauta, digamos, de revolução radical, isso é uma pauta da social democracia.
Quando você dá pelo menos dois dias de descanso, obviamente que se puder ser três dias de descanso, é muito melhor para o trabalhador e para o empregador, você eleva o índice de produtividade dentro das empresas, reduz os pedidos de licença por questão de saúde, aumenta capacidade de interação, deixa a criatividade mais aguçada."
Mulheres no Supremo
"A escassez de mulheres em processos de tomada de decisão é lastreada em toda a sociedade, dentro das empresas, na própria Academia, no Congresso Nacional, tanto na Câmara como no Senado. Na verdade, é 18%.
Com certeza, as mulheres estão capacitadas para ocupar qualquer função. Nós temos quantidade e qualidade, e nós lutamos muito para que as mulheres possam estar nesses espaços, porque ninguém pode falar por nós, dizer por nós, sentir por nós. Então, é legítima a defesa de que tenhamos mulheres em todos os espaços.
A indicação [ao Supremo Tribunal Federal, STF] cabe ao presidente Lula. Ele indicou o ministro Messias, que é uma pessoa comprometida. Infelizmente, essa visão de polarizar tudo, rejeitou o nome do ministro Messias, numa forma de negar o direito do presidente Lula de fazer essa indicação.
Todas nós, principalmente as pioneiras —pessoas como eu, Marta Suplicy, Benedita da Silva, Jandira Feghali—, e as mulheres que estão nessa luta, Erundina, de segunda geração, trabalhamos e dedicamos as nossas vidas para aumentar a representação das mulheres nos lugares de tomada de decisão. No Judiciário, no Legislativo, no Executivo, dentro das empresas, em todos os lugares."
