A desistência de Ratinho Jr. (PSD) de disputar a Presidência da República não foi surpresa para o comentarista e cientista político Fernando Schüller. Durante participação na BandNews TV, o analista disse que governador do Paraná demonstrava pouca disposição real para encarar uma disputa nacional neste momento.
“Dentro do PSD, dentro do chamado campo da terceira via, o Ratinho claramente não mostrava disponibilidade para ser candidato. Ele na reta final parecia que tinha mudado de ideia. E em duas vezes, pessoalmente fiz a mesma pergunta a ele. A pergunta era a seguinte: se o próprio PSD não acredita na candidatura, porque ela tem oito estados, oito regionais dentro do partido que já manifestaram apoio ao Lula, você imagina o candidato ser candidato? Então você vai deixar o Paraná um pouco órfão dessa liderança, pondo em risco o projeto do PSD ali do Ratinho lá no Paraná, para entrar numa disputa nacional super polarizada, quando nem o partido mesmo acredita”, disse.
Um partido que "não acredita"
Para Schüller, um dos grandes entraves para a viabilidade do projeto era a falta de união interna no PSD em torno de um nome próprio para o Planalto. O analista questiona a lógica de um candidato se lançar em uma disputa polarizada sem o respaldo total de sua própria legenda.
“Quando eu digo que nem o partido acredita, não é o Kassab (Gilberto, presidente do PSD) que não acredita, não são as regionais do Centro-Sul. É o partido como um todo. Você tem que acreditar naqueles estados que são os mais difíceis. Quais são os estados mais difíceis? Nordeste. E todos, literalmente todos os estados do Nordeste estão com Lula, do próprio partido. Porque você entraria sozinho”, afirmou o analista.
O comentarista destacou ainda que a tese de Kassab de que as redes sociais diminuem a dependência da "máquina" partidária, não se sustenta na realidade atual. “O dirigente partidário precisa dizer isso, mas não é bem a realidade. Porque nas redes sociais o país também está polarizado. Quem comanda a rede social é, de um lado a direita, a família Bolsonaro. Se a gente pegar quem tem mais influência no Brasil em rede social, primeiro é o Flávio, daí vem o Lula, depois vem Carlos Bolsonaro, Michelle Bolsonaro, Eduardo Bolsonaro, daí tem Nikolas Ferreira, aí tem a Janja. Não tem PSD. Não tem centro político. Não tem terceira via militância digital. Então não tem partido", afirmou.
“Os partidos do Centrão, os deputados, senadores, eles percebem a polarização e cada um corre para um lado: o Centro-Sul corre mais para a direita, Norte e Nordeste, lá especialmente, mais para a esquerda. E é isso. Então acaba sendo uma coisa chamada efeito Alckmin, síndrome geral do Alckmin. Tem uma superestrutura, super partido, muito dinheiro para campanha, muito tempo de televisão, faz 4% dos votos. Então o Ratinho pensou bem e disse: 'vou ficar aqui no Paraná, que eu ganho mais, pelo menos eu tenho mais chance de eleger meu sucessor por aqui”, afirmou Schüler.
Caiado e Leite: Projetos Distintos
Com a saída de Ratinho Jr. do páreo, as atenções se voltam para Ronaldo Caiado e Eduardo Leite. Schüller vê Caiado como o nome mais provável para assumir a dianteira no PSD, dada a sua postura mais independente e decidida.
"O Caiado é um candidato por conta própria, é um projeto pessoal do Caiado... Ele quer ser candidato, ele mostra claramente disposição para ser candidato... O Caiado não está se importando muito com a base do PSD, ele não é do PSD, entrou agora, se filiou agora. O Caiado é um político muito independente e fará campanha por conta própria".
Já sobre Eduardo Leite, o analista nota uma postura menos urgente e mais centrada em críticas bilaterais, o que pode dificultar sua penetração no eleitorado de direita. "O Eduardo Leite se posicionou desde o início da pré-campanha muito ao centro e fazendo críticas simétricas, impressionante, à direita e à esquerda", analisou.
Schüller conclui que Caiado leva vantagem por falar diretamente ao campo que está em disputa real no primeiro turno: a centro-direita. Enquanto Leite faz "críticas contundentes ao bolsonarismo", Caiado se posiciona como um conservador disposto a "anistiar todo mundo do 8 de janeiro, inclusive o Bolsonaro". "Por aí ele já ganhou um pedaço do coração desse campo da direita", finalizou o comentarista.
