Canal Livre: Lula fala em mudança no STF e se diz contra o fundo partidário
Presidente foi o convidado do programa da Band transmitido na noite deste domingo (27); veja os principais trechos
Luiz Inácio Lula da Silva (PT) foi o convidado do programa Canal Livre, transmitido na noite deste domingo (27), onde abordou temas cruciais da conjuntura política, econômica e internacional do país. A uma semana do primeiro turno das eleições, Lula falou sobre suas estratégias de controle fiscal, propôs mudanças nos critérios de escolha de ministros do Supremo Tribunal Federal (STF) e defendeu a reformulação do sistema partidário.
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O chefe do Executivo também comentou o andamento de investigações de grande repercussão no país, como o Caso Master e as suspeitas de tráfico de influência contra o filho mais velho do presidente, Fábio Luís Lula da Silva, o Lulinha, que ele afirmou que será investigado sem qualquer interferência da Presidência, apesar de Lula destacar que confia na inocência do filho. Veja abaixo trechos da entrevista:
Dívida Pública
Ao analisar o cenário econômico, o presidente afirmou que o patamar atual da dívida pública não lhe causa pânico, classificando as preocupações de setores do mercado como irreais. Lula destacou as reservas internacionais de US$ 370 bilhões --constituídas em seus mandatos anteriores-- como o principal colchão de sustentação financeira do país.
Nós temos uma reserva de US$ 370 bilhões de dólares feita por quem? Por mim. Quando eu tomei a decisão, em 2005, de que pra gente poder ter garantia era preciso mostrar ao mundo que o Brasil era sério, eu resolvi fazer uma reserva e ela até hoje é o colchão de sustentação da economia brasileira. --Lula
Para Lula, o caminho sustentável para reduzir a relação dívida pública passa necessariamente pelo crescimento da economia e por investimentos estratégicos em infraestrutura através do PAC, garantindo ao mesmo tempo a valorização do salário mínimo acima da inflação e a preservação dos benefícios sociais.
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Além disso, o presidente ressaltou que a constituição de um fundo de R$ 47 bilhões decorrente da tributação sobre exportação de petróleo para proteger os preços dos combustíveis no mercado interno contra choques internacionais.
Crise no STF
Diante das tensões e controvérsias recentes envolvendo a Suprema Corte, Lula defendeu a necessidade de reformular o modelo de escolha dos magistrados, além da implementação de mandatos por período determinado.
O presidente sugeriu a criação de um conselho ou colegiado de notáveis com a participação de entidades representativas da sociedade civil --como a OAB, CNBB, organizações sindicais e empresariais-- para avaliar o perfil dos nomes e submeter listas ao Senado. Enfatizou que o cargo exige sólida biografia prévia e seriedade, sendo incompatível com pretensões de enriquecimento pessoal.
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Lula defendeu a apuração rigorosa de todas as denúncias sobre membros do Judiciário ou de qualquer outro poder, declarando que todos estão sujeitos às leis, e fez duras críticas à superexposição de ministros na imprensa e às transmissões ao vivo dos julgamentos da corte.
Os ministros aqui no Brasil falam demais, dão entrevista demais. Ou seja, o ministro tem que falar nos autos do processo e na sentença dele, acabou. --Lula
Vorcaro e Caso Master
Ao comentar o caso envolvendo o Banco Master, Lula relatou que recebeu em seu gabinete o empresário Daniel Vorcaro, acompanhado de terceiros, em uma audiência em que o banqueiro alegava ser vítima de perseguição política. O presidente afirmou ter deixado claro que o governo não promoveria perseguições, mas que os fatos seriam devidamente apurados --o que resultou na posterior prisão do empresário.
Ao classificar o episódio como um golpe financeiro de R$ 60 bilhões, que afetou quadros da política e do Judiciário, o presidente negou ter recebido qualquer presente ou pedido de intermediação irregular. O presidente rebateu a cultura do "denuncismo" sem provas conclusivas e relembrou os abusos que aponta terem ocorrido na Operação Lava Jato por parte de Sergio Moro e Deltan Dallagnol.
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Lulinha investigado
Sobre os inquéritos e citações que envolvem seu filho, Fábio Luís Lula da Silva, o Lulinha, o chefe do Executivo garantiu que jamais fará qualquer interferência ou pedido de proteção junto às autoridades. Afirmou que seu filho está inteiramente à disposição da Justiça e que, caso seja comprovado algum erro, ele deverá pagar por ele, mantendo, contudo, a convicção pessoal em sua inocência.
Ao abordar menções feitas em interceptações de lobistas, Lula ponderou que diálogos telefônicos costumam conter bravatas e declarações sem respaldo prático, duvidando que o filho tenha mantido conversas com ministros ou diretores da Petrobrás.
A proteção é a investigação. Se ele [Lulinha] for inocente, ele é inocente. Eu digo para todo mundo: 'Só você sabe a verdade'. Se você fez ou não fez, não é o telefone que está dizendo, é se você colocou em prática aquilo que está no telefone, porque no telefone se fala muita bobagem. --Lula
Na mesma linha, ao comentar apurações envolvendo seu ex-chefe de gabinete, Marco Aurélio Santana Ribeiro, o Marcola, sustentou que empréstimos pessoais quitados não configuram atos de corrupção, mas reiterou que todas as condutas devem ser checadas pela Polícia Federal.
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Segurança Pública
O presidente também comentou o problema de segurança público como um dos mais importantes ao eleitor e destacou a Proposta de Emenda à Constituição (PEC) desenvolvida pelo governo federal com o objetivo de redefinir o papel da União e criar o Ministério da Segurança Pública. Segundo ele, seria o primeiro passo para combater a expansão das organizações criminosas e o domínio territorial do crime.
O plano abrange a ampliação de contingente e inteligência da Polícia Federal, Polícia Rodoviária Federal e Polícia Penal, a estruturação de uma força nacional permanente de intervenção rápida e a conversão de 138 unidades prisionais em presídios de segurança máxima para isolar lideranças do crime.
Nós queremos asfixiar economicamente o crime organizado, porque ele virou uma indústria multinacional, uma indústria que está na Justiça, que está na polícia, que está no futebol, que está na política, que está no empresariado. Ou seja, ela está espraiada no mundo inteiro. Então, nós queremos asfixiá-la economicamente primeiro e, depois, atacar o andar de cima, não apenas atacar o povo de baixo, atacar o andar de cima. --Lula
Lula contrapôs sua estratégia à flexibilização de armas realizada na gestão anterior, defendendo a presença do Estado nas comunidades por meio de escolas em tempo integral, cultura e lazer. O presidente diferenciou o conceito internacional de terrorismo de Estado da opressão exercida pelas facções nas periferias, destacando ainda o fortalecimento de redes de proteção às mulheres e de combate ao feminicídio.
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Trump e EUA
Na esfera das relações diplomáticas com os Estados Unidos, Lula apontou manter um diálogo fluído e respeitoso em conversas diretas com o ex-presidente Donald Trump, embora tenha feito restrições à atuação de assessores do seu entorno diplomático.
O problema é que o pessoal que trabalha com o Trump consegue ser muito ruim. Eu digo para ele que [o secretário de Estado, Marco] Rubio não gosta do Brasil, não gosta da América Latina, ou seja, ele é um anti-latino-americano doente. --Lula
O brasileiro revelou ter mantido contatos telefônicos diretos com os líderes de Washington, Pequim e Moscou cobrando responsabilidade pelo fim dos conflitos e pela restauração do papel do Conselho de Segurança da ONU.
Em relação às trocas comerciais, reafirmou que o Brasil poderá aplicar a lei da reciprocidade caso sanções injustificadas sejam impostas, pontuando que os EUA dependem do nióbio brasileiro em 67% de seu consumo e mencionando a expansão do comércio do Brasil com novos mercados mundiais, como China, Alemanha e Vietnã.
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Eleições
De olho no pleito presidencial de 2026, Lula expressou confiança na possibilidade de vitória no primeiro turno, avaliando que o eleitorado fará uma comparação direta de biografias e entregas de sua chapa com Geraldo Alckmin (PSB) frente aos adversários da oposição.
Acho que na comparação de um vice-presidente que foi 16 anos governador de São Paulo e um presidente que já ocupou esse cargo por 12 anos, com as coisas que nós entregamos nesse país, não tem comparação. Por isso que eu acho que nós vamos ganhar as eleições no primeiro turno --Lula
Ao analisar o ambiente de polarização política no país, comparou-o a uma rivalidade histórica esportiva e sustentou que o país só superará esse quadro por meio de uma reforma política estrutural.
O presidente defendeu que as legendas tenham ideários éticos e programáticos claros, posicionando-se contrário ao atual modelo de fundo partidário eleitoral e criticando as distorções causadas pela proliferação de emendas parlamentares conhecidas como "orçamento secreto".
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Inteligência Artificial
No campo científico e tecnológico, Lula defendeu a necessidade de assegurar a soberania digital do Brasil, de modo a evitar a dependência tecnológica em relação aos ecossistemas norte-americano ou chinês. Revelou ter desafiado o Conselho Nacional de Ciência e Tecnologia a desenvolver um modelo próprio de Inteligência Artificial em língua portuguesa.
Eu quero saber se é possível a gente criar uma. Eu desafiei, há dois anos, o Conselho Nacional de Ciência e Tecnologia: 'vamos construir uma inteligência artificial que fale em português para que a gente não fique devendo nada ao mundo'. --Lula
O presidente associou o avanço digital e tecnológico aos investimentos na base educacional, citando a meta de alcançar 1.000 Institutos Federais no país e a continuidade do programa Pé-de-Meia para erradicar a evasão escolar no ensino médio.
Bolsa Família
Sobre a ampliação e os reajustes aplicados ao Bolsa Família em períodos próximos ao calendário eleitoral, Lula esclareceu que os aumentos [de 15% anunciado no último dia 17] ocorreram em virtude do surgimento de espaço fiscal legal e da prioridade em repor as perdas decorrentes da inflação.
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O presidente negou qualquer caráter eleitoreiro, defendendo que o atendimento à população vulnerável não pode ser paralisado por disputas políticas. Lula destacou ainda que, em paralelo, tratou da necessidade de regulamentar e aplicar restrições severas às plataformas de apostas online ("bets"), alertando para o impacto da ludopatia sobre o orçamento das famílias e garantindo que atuará para proteger a renda do povo.
Eu não vou permitir que as mulheres e os homens gastem o dinheiro da comida das crianças jogando, porque é uma doença provada pelo Ministério da Saúde. A ludopatia é uma doença séria. Eu resolvi acabar porque senão a bet acaba com o Brasil e eu não vou permitir que o povo pobre seja responsável por segurar a luxúria dos clubes. --Lula
Oriente Médio
Em relação ao conflito na Faixa de Gaza, Lula reiterou sua forte condenação às operações militares no território, classificando os acontecimentos na região como um "genocídio contra mulheres e crianças".
O chefe do Executivo criticou a paralisia e omissão das grandes potências que integram o Conselho de Segurança da ONU diante do massacre humanitário e apontou a urgência de refundar as instâncias multilaterais.
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Por fim, repudiou a escalada global de gastos armamentistas de trilhões de dólares em contraste com a escassez de recursos para combater a fome e o analfabetismo no mundo.
O mundo está acéfalo, o mundo está sem liderança. Esse é o dado concreto. Não funciona mais a ONU, não funciona mais a OMC. Se gastou US$ 3 trilhões em arma. A Europa voltou a gastar agora 700 bilhões de euros para mais armas, o Japão botou mais armas, a Inglaterra mais armas e a fome continua, o analfabetismo continua, o empobrecimento continua. --Lula
