Eleições: quando voto de protesto tinha nome, pelo e quatro patas no Brasil
Em tempos de urnas eletrônicas, biometria e telas sensíveis ao toque, o ato de votar no Brasil tornou-se um processo digital e rigorosamente padronizado. Mas

Divulgação
Em tempos de urnas eletrônicas, biometria e telas sensíveis ao toque, o ato de votar no Brasil tornou-se um processo digital e rigorosamente padronizado. Mas nem sempre foi assim. Na era do voto em papel, a cédula era um pedaço de folha em branco onde o eleitor podia escrever o que quisesse. E, quando a insatisfação popular transbordava, o resultado não era apenas o voto nulo tradicional: era a eleição de rinocerontes, macacos e bodes.
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Antes da consolidação da informática no processo eleitoral nos anos 1990, o eleitorado brasileiro encontrou no humor ácido e no surrealismo uma forma inusitada de protestar contra a classe política. Relembre os casos mais icônicos de "candidatos folclóricos" que viraram lendas da política nacional.
Bode Ioiô: o pioneiro de Fortaleza (1922)
Muito antes de qualquer outro bicho virar febre nas urnas, a capital cearense já escrevia a história do voto de protesto. Em 1922, durante um período de profundas mudanças sociais e políticas, o famoso Bode Ioiô foi eleito vereador em Fortaleza.
Ioiô chegou à capital em 1915, trazido por retirantes do sertão castigado pela seca, segundo o jornal Diário do Nordeste. Adotado e mascote da cidade, ele perambulava livremente pela Praça do Ferreira e pelo Centro, frequentando cafés e recebendo o carinho (e comida) da população.
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Cansados do descaso e da política tradicional, intelectuais e boêmios liderados pelo poeta Quintino Cunha decidiram lançar o nome do bode nas cédulas de papel. O resultado foi surpreendente: Ioiô teve votos suficientes para garantir uma cadeira na Câmara Municipal.
Embora nunca tenha sido empossado, o caprino virou símbolo máximo do "Ceará Moleque", ganhou homenagens centenárias e até hoje sua história é cultuada como o berço dos protestos bem-humorados nas urnas brasileiras. Hoje, ele tem um museu com seu nome.

Bode Ioiô foi empalhado e ganhou um museu com seu nome no CE
Crédito: Divulgação/Governo do CE
O rinoceronte que parou São Paulo (1959)
O caso mais famoso e emblemático desse fenômeno ocorreu nas eleições municipais de São Paulo, em 1959. Cansados da inflação, da falta de infraestrutura e das promessas não cumpridas dos políticos locais, um grupo de estudantes universitários decidiu lançar a candidatura de Cacareco.
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O detalhe? Cacareco era uma fêmea de rinoceronte-preto de cinco anos, emprestada pelo Zoológico do Rio de Janeiro para a inauguração do Zoo de São Paulo.
O resultado nas urnas foi avassalador: Cacareco recebeu cerca de 100 mil votos para o cargo de vereador. Ela superou com folga todos os candidatos humanos e se tornou o nome mais votado do pleito.
"É preferível eleger um rinoceronte do que um vereador que não faz nada", dizia o bordão popular da época nas ruas da capital paulista.
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Como a candidatura não era oficializada pelo Tribunal Regional Eleitoral, os votos foram anulados. Cacareco devolveu a "posse" voltando para o Rio de Janeiro, mas o episódio ganhou repercussão internacional e até hoje é citado como o maior símbolo do voto de protesto no país.

Rinoceronte Cacareco recebeu cerca de 100 mil votos nas eleições de 1959
Crédito: Divulgação/ Alesp
Macaco Tião, o fenômeno do córrego (1988)
Três décadas após o feito de Cacareco, o Rio de Janeiro vivia um momento de forte polarização e desilusão política nas eleições para a prefeitura em 1988. A equipe do prestigiado jornal de humor Casseta Popular decidiu resgatar a tradição e lançar o Macaco Tião, um chimpanzé famoso por seu temperamento ranzinza no Zoológico do Rio.
Com a campanha "Vote Tião para prefeito", a brincadeira tomou proporções gigantescas. Camisetas, broches e santinhos se espalharam pela cidade maravilhosa.
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Na apuração, a surpresa: Tião conquistou cerca de 400 mil votos, alcançando o equivalente ao 3º lugar no pleito carioca. Ele ficou à frente de dezenas de políticos tradicionais e consagrados. O feito rendeu a Tião uma entrada no Guinness Book (o Livro dos Recordes) como o chimpanzé mais votado do mundo. Recentemente, ele ganhou um documentário.

Macaco Tião tem estátua em zoológico do Rio e ganhou documentário
Crédito: Divulgação/Prefeitura do Rio de Janeiro
Da cédula ao chip: o fim de uma era
Com a introdução gradativa da urna eletrônica a partir de 1996 e sua total consolidação nos anos 2000, o "voto no rinoceronte" tornou-se impossível. A impossibilidade de escrever nomes livres na cédula fez com que o protesto migrara para o voto nulo/branco ou, posteriormente, para candidaturas humanas intencionalmente caricatas.
