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Eleições: quando voto de protesto tinha nome, pelo e quatro patas no Brasil

Em tempos de urnas eletrônicas, biometria e telas sensíveis ao toque, o ato de votar no Brasil tornou-se um processo digital e rigorosamente padronizado. Mas

4 min

24/10/2026 05:00 • Atualizado há 1 dia

Eleições: quando voto de protesto tinha nome, pelo e quatro patas no Brasil

Divulgação

Em tempos de urnas eletrônicas, biometria e telas sensíveis ao toque, o ato de votar no Brasil tornou-se um processo digital e rigorosamente padronizado. Mas nem sempre foi assim. Na era do voto em papel, a cédula era um pedaço de folha em branco onde o eleitor podia escrever o que quisesse. E, quando a insatisfação popular transbordava, o resultado não era apenas o voto nulo tradicional: era a eleição de rinocerontes, macacos e bodes.

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Antes da consolidação da informática no processo eleitoral nos anos 1990, o eleitorado brasileiro encontrou no humor ácido e no surrealismo uma forma inusitada de protestar contra a classe política. Relembre os casos mais icônicos de "candidatos folclóricos" que viraram lendas da política nacional.

Bode Ioiô: o pioneiro de Fortaleza (1922)

Muito antes de qualquer outro bicho virar febre nas urnas, a capital cearense já escrevia a história do voto de protesto. Em 1922, durante um período de profundas mudanças sociais e políticas, o famoso Bode Ioiô foi eleito vereador em Fortaleza.

Ioiô chegou à capital em 1915, trazido por retirantes do sertão castigado pela seca, segundo o jornal Diário do Nordeste. Adotado e mascote da cidade, ele perambulava livremente pela Praça do Ferreira e pelo Centro, frequentando cafés e recebendo o carinho (e comida) da população.

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Cansados do descaso e da política tradicional, intelectuais e boêmios liderados pelo poeta Quintino Cunha decidiram lançar o nome do bode nas cédulas de papel. O resultado foi surpreendente: Ioiô teve votos suficientes para garantir uma cadeira na Câmara Municipal.

Embora nunca tenha sido empossado, o caprino virou símbolo máximo do "Ceará Moleque", ganhou homenagens centenárias e até hoje sua história é cultuada como o berço dos protestos bem-humorados nas urnas brasileiras. Hoje, ele tem um museu com seu nome.

Bode Ioiô foi empalhado e ganhou um museu com seu nome no CE

Bode Ioiô foi empalhado e ganhou um museu com seu nome no CE

Crédito: Divulgação/Governo do CE

O rinoceronte que parou São Paulo (1959)

O caso mais famoso e emblemático desse fenômeno ocorreu nas eleições municipais de São Paulo, em 1959. Cansados da inflação, da falta de infraestrutura e das promessas não cumpridas dos políticos locais, um grupo de estudantes universitários decidiu lançar a candidatura de Cacareco.

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O detalhe? Cacareco era uma fêmea de rinoceronte-preto de cinco anos, emprestada pelo Zoológico do Rio de Janeiro para a inauguração do Zoo de São Paulo.

O resultado nas urnas foi avassalador: Cacareco recebeu cerca de 100 mil votos para o cargo de vereador. Ela superou com folga todos os candidatos humanos e se tornou o nome mais votado do pleito.

"É preferível eleger um rinoceronte do que um vereador que não faz nada", dizia o bordão popular da época nas ruas da capital paulista.

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Como a candidatura não era oficializada pelo Tribunal Regional Eleitoral, os votos foram anulados. Cacareco devolveu a "posse" voltando para o Rio de Janeiro, mas o episódio ganhou repercussão internacional e até hoje é citado como o maior símbolo do voto de protesto no país.

Rinoceronte Cacareco recebeu cerca de 100 mil votos nas eleições de 1959

Rinoceronte Cacareco recebeu cerca de 100 mil votos nas eleições de 1959

Crédito: Divulgação/ Alesp

Macaco Tião, o fenômeno do córrego (1988)

Três décadas após o feito de Cacareco, o Rio de Janeiro vivia um momento de forte polarização e desilusão política nas eleições para a prefeitura em 1988. A equipe do prestigiado jornal de humor Casseta Popular decidiu resgatar a tradição e lançar o Macaco Tião, um chimpanzé famoso por seu temperamento ranzinza no Zoológico do Rio.

Com a campanha "Vote Tião para prefeito", a brincadeira tomou proporções gigantescas. Camisetas, broches e santinhos se espalharam pela cidade maravilhosa.

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Na apuração, a surpresa: Tião conquistou cerca de 400 mil votos, alcançando o equivalente ao 3º lugar no pleito carioca. Ele ficou à frente de dezenas de políticos tradicionais e consagrados. O feito rendeu a Tião uma entrada no Guinness Book (o Livro dos Recordes) como o chimpanzé mais votado do mundo. Recentemente, ele ganhou um documentário.

Macaco Tião tem estátua em zoológico do Rio e ganhou documentário

Macaco Tião tem estátua em zoológico do Rio e ganhou documentário

Crédito: Divulgação/Prefeitura do Rio de Janeiro

Da cédula ao chip: o fim de uma era

Com a introdução gradativa da urna eletrônica a partir de 1996 e sua total consolidação nos anos 2000, o "voto no rinoceronte" tornou-se impossível. A impossibilidade de escrever nomes livres na cédula fez com que o protesto migrara para o voto nulo/branco ou, posteriormente, para candidaturas humanas intencionalmente caricatas.

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