Eleições

Lula tem chance de ouro de fazer ajuste e preservar direitos, diz economista

Economista do Banco BV avalia cenário para 4º mandato e afirma que credibilidade é chave para cortar juros sem recessão

5 min

26/10/2026 19:57 • Atualizado há 4 horas

O quarto mandato do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) traz uma oportunidade histórica para reestruturar as contas públicas sem penalizar programas sociais ou a população mais vulnerável. Em análise exibida no BandNews TV nesta segunda-feira (26), o economista-chefe do Banco BV, Roberto Padovani, afirmou que o governo recém-eleito reúne capital político e capacidade de diálogo para liderar uma revisão dos gastos do Estado, assegurando estabilidade e crescimento do emprego.

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A avaliação do especialista aponta que a vitória eleitoral abre espaço para o pragmatismo econômico. Segundo ele, a consolidação fiscal não exige medidas drásticas e pode funcionar como motor para o avanço da atividade.

Credibilidade e equilíbrio social

Para o economista-chefe do Banco BV, o equilíbrio entre a contenção de despesas e a preservação da rede de proteção aos mais vulneráveis depende diretamente da confiança transmitida aos agentes econômicos. Ele afasta a tese de que o controle orçamentário provoque retração da economia ou aumente a disparidade na distribuição de renda.

"A gente tem que lembrar que ao fazer ajuste fiscal isso não necessariamente é uma medida que traga impactos negativos para a distribuição de renda, porque você vai estar no final do dia reduzindo taxa de juros, controlando inflação, preservando empregos. A impressão que se dá de que se você controlar gasto público isso pode gerar uma crise não é verdade. A gente tem ajustes fiscais que são expansionistas justamente porque agem nesse sentido: reduzem o custo de capital e permitem crescimento e manutenção do emprego", destacou Padovani.

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Conforme aponta o especialista, a antecipação positiva do mercado reduz o peso financeiro para a própria gestão pública: "Se você convence os agentes econômicos de que o ajuste será feito — e tecnicamente existe um consenso claro do que precisa ser feito —, os mercados financeiros antecipam esses ajustes com juros mais baixos e crescimento econômico maior. Por ter essa capacidade de antecipação dos efeitos, a gente faz com que o governo tenha mais capacidade de arrecadar impostos e um custo de rolagem de sua dívida menor. A variável-chave aqui é credibilidade."

Comunicação e liderança do debate público

Ao comentar o pós-eleição, Padovani ressaltou que a força política de Lula e sua interlocução com a sociedade tornam o momento propício para coordenar as reformas necessárias de forma didática.

"Superada a eleição e com uma vitória maiúscula do governo, você tem espaço para um pragmatismo. Acho fundamental a figura do estadista. O papel do Executivo é coordenar a agenda da sociedade, coordenar o debate público. E acho que a gente tem um presidente que tem capacidade de comunicação. Não tem ninguém melhor que um partido de esquerda para justamente ter a reputação e a credibilidade de que está fazendo os ajustes preservando os direitos. A gente tem uma oportunidade de ouro de coordenar o debate público e mostrar o que precisa ser feito", analisou.

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O economista listou pontos específicos em que as despesas governamentais podem ser revistas com foco em eficiência, sem prejuízo à população atendida: "A gente tem que deixar claro que, por exemplo, mudar a indexação de saúde e educação não necessariamente vai atrapalhar os gastos sociais. A gente tem que ter um foco hoje em melhorar a qualidade dos serviços prestados. A mesma história com a indexação dos salários mínimos à Previdência: tem que ter um cuidado com a Previdência, mas você pode fazer uma reforma que torne esse sistema sustentável ao longo do tempo. Gastos tributários é o melhor exemplo: duvido que todos esses gastos tenham retorno social, então é preciso rever também esses gastos."

Ele frisou ainda os benefícios diretos dessa agenda: "Quando se faz esse ajuste, o que a gente está colhendo no final do dia é mais emprego, porque a gente está cortando taxa de juros, mantendo a solvência das empresas e mantendo o ambiente de crescimento econômico. A gente está controlando a inflação, portanto preservando o poder aquisitivo da sociedade. É preciso um líder histórico de esquerda como o presidente Lula que consiga realmente convencer a sociedade de que essa é a agenda deste momento."

Diferenças em relação à crise de 2014

Questionado sobre comparações com períodos anteriores de recessão, como os enfrentados na década passada, Padovani afirmou integrar a "turma otimista" e apontou que os fundamentos estruturais atuais do País são muito mais sólidos e resilientes.

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"O ponto de partida é muito diferente. Lá em 2014, quando a gente começou a recessão, estávamos saindo de um período de oito anos de desequilíbrios que vinham se acumulando. Tivemos o azar de um choque externo e aquilo jogou a economia para baixo. Com baixo crescimento e desemprego em alta, politicamente ficou muito difícil fazer o ajuste. Nesse momento a história é totalmente diferente: passamos por reformas importantes ao longo dos últimos dez anos, o setor exportador hoje é um destaque não só pelo agro, mas também porque nos tornamos produtores relevantes de petróleo no mundo", explicou.

O especialista ressaltou também a proteção do mercado formal e o fôlego da renda interna: "O mercado de trabalho segue apertado, a taxa de desemprego hoje depois da pandemia é estruturalmente mais baixa e herdamos programas sociais bastante generosos. Tudo isso dá sustentabilidade para a renda. Portanto, por mais estresse que a gente tenha no mundo financeiro, dificilmente isso vai nos conduzir à maior recessão da história como foi a recessão de 2014."

Por fim, o analista do Banco BV avaliou que o cenário econômico sem previsão de crise aguda protege o poder de manobra do Palácio do Planalto: "A economia brasileira consegue enfrentar choques e tem demonstrado isso, mantendo o crescimento a despeito de pandemia, guerra na Ucrânia, tarifas, tragédias climáticas e conflito no Oriente Médio. O país segue crescendo. A gente não está vendo um quadro de recessão no próximo ano. Se você não tem um quadro de recessão, o ativo político do presidente é preservado, e isso dá a ele força para fazer o ajuste. É uma chance de ouro para a sociedade brasileira e para o próprio presidente Lula, que pode sair muito fortalecido caso a gente realmente consiga repensar a estrutura de gastos do Estado brasileiro."

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