Band Política

'Para botar o país nos trilhos, precisamos de mudanças', diz Armínio Fraga

Economista afirmou que Banco Central é equipado, mas destacou problemas estruturais

Da redação
DA REDAÇÃO

27/07/2026 • 19:13 • Atualizado em 27/07/2026 • 19:53

O economista e ex-presidente do Banco Central (BC) Armínio Fraga traçou um diagnóstico preocupante sobre a atual situação econômica do Brasil. Em entrevista à BandNews TV, ele apontou o Banco Central brasileiro como equipado tecnicamente e autônomo, mas destacou que o país precisa de mudanças para voltar aos trilhos.

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Para botar esse país nos trilhos, com juros mais normais, com crescimento sustentado, vai ser preciso mudanças importantes nos rumos da política econômica, diria até de natureza estrutural, como Previdência, reforma do Estado e questões ligadas ao regime de imposto de renda. Tem vários espaços para se trabalhar. --Armínio Fraga

Convidado recentemente para integrar um grupo de revisão da comunicação do Federal Reserve (Fed), o Banco Central dos Estados Unidos, Fraga destacou que a transparência é fundamental para que a sociedade ajuste seus planos de negócios e pessoais. No entanto, ao analisar o cenário doméstico, ele alertou para o que chamou de "cabo de guerra" entre o Banco Central brasileiro e o governo federal.

Segundo Fraga, existe uma inconsistência clara na política econômica atual: enquanto o Banco Central tenta "segurar" a economia para controlar a inflação, outras áreas do governo buscam expandir gastos. "Isso dificulta a vida do Banco Central e é um fator que pressiona as taxas de juros que, historicamente, têm sido altas no Brasil", afirmou.

Críticas ao cenário fiscal

O ex-presidente do BC foi enfático ao avaliar o arcabouço fiscal, classificando-o como "modesto" e "insuficiente" para criar um ambiente de juros baixos. Fraga pontuou que a meta definida no início do mandato não será cumprida e criticou o uso de ajustes contábeis para mascarar o resultado real, que estaria dois pontos do PIB abaixo do prometido.

Ao comentar a dívida pública, que já ultrapassa 80% do PIB, Fraga utilizou uma metáfora médica para descrever a gravidade da situação: "Se eu fosse um médico, diria: 'Olha, esse paciente aí não está bem'". Ele destacou que o governo é, hoje, o maior devedor da economia, competindo por recursos com famílias e empresas em um cenário onde o varejo foi "dizimado" pelas altas taxas.

Reformas e histórico econômico

Para "colocar o país nos trilhos", Fraga defende que o Brasil precisa de mudanças de natureza estrutural, citando a necessidade de novas reformas na Previdência, na máquina do Estado e no Imposto de Renda.

Ele refutou o argumento de que ajustes fiscais geram necessariamente recessão, citando o exemplo de 1999, quando um ajuste de quatro pontos do PIB permitiu que a economia voltasse a crescer.

Por outro lado, lembrou que a expansão fiscal excessiva vista no governo Dilma (2011-2016) resultou em uma das maiores recessões da história recente do país.

Posicionamento político

Questionado sobre ter declarado voto em Lula no segundo turno de 2022, Armínio Fraga esclareceu que sua decisão foi baseada em valores e não em propostas econômicas.

Meu voto não foi um voto econômico. Naquele momento eu tinha sérias preocupações com o futuro da nossa democracia. --Armínio Fraga

Para o futuro, ele disse estar aguardando o desenrolar do debate político para definir novos posicionamentos, comparando o momento atual à "semifinal de uma Copa do Mundo".

Fraga concluiu reforçando que não existem atalhos "voluntaristas" para a queda dos juros; sem um ajuste convincente, a inflação tende a retornar, tornando a "cura" futura ainda mais dolorosa para a sociedade.