O ex-embaixador do Brasil em Washington Rubens Barbosa afirmou nesta segunda-feira (20), em entrevista ao programa Meio do Dia, da BandNews TV, que a adoção de medidas de reciprocidade contra os Estados Unidos não representa um caminho viável para o governo brasileiro.
O diplomata analisou os desdobramentos do novo tarifaço promovido pelo governo de Donald Trump, apontando a necessidade de negociações diretas após o período eleitoral, o avanço da diversificação das exportações com parceiros da Ásia e da Europa e o cenário geopolítico enfrentado pelo país no comércio internacional.
Diplomata defende negociação diante de tarifaço
De acordo com o diplomata, aplicar retaliações tarifárias afetaria diretamente a entrada de produtos norte-americanos essenciais para a indústria nacional, como insumos, máquinas e tecnologia. Ele alertou que leis dos Estados Unidos permitem escalar contra-ataques para outros setores, incluindo as áreas financeira e de meio ambiente, causando prejuízos à economia brasileira.
O ex-embaixador indicou que nenhum dos quase 200 países afetados adotou medidas de reciprocidade. "Para mim, retaliação e reciprocidade são a mesma coisa. Você vai punir produtos americanos e nós temos interesse em recebê-los. Pela lei dos Estados Unidos, eles podem contra-atacar escalando a guerra tarifária para outras áreas, como financeira ou meio ambiente, [e resultando em] grande prejuízo para a economia nacional", explica.
"Acho que nós não temos alternativa, temos que negociar. Passado o período eleitoral, no começo de 2027, o Brasil tem que propor uma negociação real com os americanos para tentar reduzir as tarifas e aumentar a lista de exceção", acrescentou.
"Trump usa tarifa como arma contra o mundo"
Na avaliação de Rubens Barbosa, o presidente Donald Trump passou a utilizar a tarifa como uma ferramenta de pressão global. O objetivo dessa postura abrange a redução do déficit da balança comercial dos Estados Unidos, a atração de investimentos e a implementação de uma política industrial fundamentada no poder e na força.
O diplomata ressaltou que organizações multilaterais, como a Organização das Nações Unidas (ONU), foram esvaziadas pelo governo norte-americano, enfraquecendo os canais tradicionais de negociação. Na visão dele, as tratativas anteriores se desenrolaram como um diálogo sem convergência real, no qual os Estados Unidos presented exigências e o Brasil não ofereceu concessões em troca.
Apesar de considerar o mercado norte-americano relevante, o ex-embaixador enfatizou que as exportações para os Estados Unidos representam menos de 10% do comércio exterior global brasileiro. Esse cenário confere ao país uma posição de menor dependência em comparação com outras nações da América Latina.
Brasil precisa diversificar exportações
Por fim, o especialista ressaltou a importância de expandir a presença nacional no mercado global e lembrou que acordos e tratativas em andamento com a União Europeia, a área de livre comércio europeia, o Canadá, o Japão, a Indonésia e o Vietnã fortalecem a inserção do comércio brasileiro.
Para enfrentar o cenário atual e a postura adotada por Washington em relação ao Brasil, o diplomata defendeu a consolidação de uma política externa autônoma. Segundo ele, o país deve adotar diretrizes que "prevejam mecanismos para defesa do interesse nacional, respaldando a nossa autonomia, a nossa soberania, mas não confrontando nem desafiando os EUA".
"Dentro da lei de segurança americana e da área de influência dos Estados Unidos, o Brasil é visto como um país que resiste e que cria problemas para os americanos. Por isso insisto na negociação. Temos que definir os nossos interesses e negociar, porque a tendência de diversificação das exportações é um fato", afirma, citando acordos de livre comércio com a União Europeia e negociações pendentes com Canadá, Japão, Indonésia e Vietnã.
"Isso é muito bom. Agora, os Estados Unidos são muito importantes para o Brasil sobretudo por causa dessa atitude antagônica. Nós temos que ter uma política externa que leve isso em consideração e preveja mecanismos para a defesa do interesse nacional. Isso é o que os outros países estão fazendo", diz.
Newsletter Notícias
Inscreva-se na nossa newsletter e receba as notícias mais importantes do dia direto no seu e-mail.
Selecione os seus temas favoritos:

