
A prisão de Nicolás Maduro pelos Estados Unidos abriu um impasse institucional na Venezuela e levou à assunção provisória de Delcy Rodríguez à presidência do país. O cenário levanta dúvidas sobre a legalidade do processo, a aplicação da Constituição venezuelana e a possibilidade de convocação de novas eleições.
A Constituição da Venezuela não prevê explicitamente a prisão do presidente por uma potência estrangeira. Os dispositivos legais tratam apenas de ausência por morte, renúncia ou destituição decretada pelo Tribunal Supremo. Diante disso, caberá à Assembleia Nacional e ao Judiciário venezuelano decidir se haverá eleições ou manutenção do governo interino.
Delcy Rodríguez é uma das figuras mais longevas e influentes do projeto bolivariano iniciado por Hugo Chávez. Sua trajetória política começou nos primeiros anos dos anos 2000, quando integrou a Assembleia Nacional. Desde então, acumulou cargos estratégicos e ganhou protagonismo dentro do núcleo duro do chavismo, mantendo relação direta tanto com Chávez quanto, posteriormente, com Nicolás Maduro.
Ao longo dos anos, Delcy ocupou ministérios centrais do governo. Foi ministra da Comunicação e Informação e, mais tarde, tornou-se a primeira mulher a comandar o Ministério das Relações Exteriores da Venezuela. Nesse período, ganhou projeção internacional e passou a ser conhecida por discursos duros contra os Estados Unidos e organismos multilaterais. Muitos dos atuais diplomatas que acompanham a crise venezuelana já tiveram contato direto com Delcy em reuniões da Organização das Nações Unidas.
Desde 2020, além da vice-presidência, Delcy Rodríguez passou a controlar a pasta do Petróleo e dos Combustíveis, assumindo influência direta sobre a PDVSA, estatal responsável pelas maiores reservas comprovadas de petróleo do mundo. O cargo ampliou ainda mais seu poder político e econômico, especialmente em um país fortemente dependente da exportação de energia e submetido a sanções internacionais que limitam a venda formal do petróleo venezuelano.
A atuação de Delcy também está ligada ao peso das Forças Armadas na estrutura de poder do país. Militares ocupam postos estratégicos no governo e na administração da PDVSA, o que torna a governabilidade diretamente dependente do apoio do alto comando. Analistas avaliam que, mesmo ocupando formalmente a presidência, Delcy divide decisões com o setor militar, que exerce influência determinante sobre a economia e a segurança interna.
A trajetória pessoal da nova presidente interina também ajuda a compreender sua inserção política. O pai de Delcy Rodríguez morreu sob custódia policial após envolvimento em um sequestro de um empresário americano, episódio que, segundo a própria vice-presidente, foi decisivo para sua entrada na política. O irmão, Jorge Rodríguez, é atualmente presidente da Assembleia Nacional, o que reforça a concentração de poder dentro do círculo familiar e do regime.
Delcy Rodríguez mantém relação próxima com Nicolás Maduro e sua família. A esposa do ex-presidente, Cilia Flores, também exerceu cargos de destaque no Legislativo e aparece citada em parte das acusações apresentadas pela Justiça americana contra Maduro. Esse histórico reforça a percepção de continuidade política e administrativa, mesmo após a prisão do ex-chefe de Estado.