Da internação à alta, acompanhamento nutricional integra recuperação
Tábita Lopes analisa a avaliação individualizada e o acompanhamento alimentar contribuem para o cuidado na internação

Arquivo pessoal
A perda de apetite pode parecer uma consequência esperada de estar doente, mas, dentro de um hospital, precisa ser investigada. Quando o paciente consome menos alimentos do que necessita, identificar as causas e acompanhar a evolução desse consumo tornam-se parte do tratamento nutricional, com decisões que envolvem desde ajustes na alimentação até a avaliação de outras formas de suporte nutricional.
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Para a nutricionista Tábita Silva Dias Lopes, especialista em nutrição clínica e esportiva, uma das questões centrais desse trabalho é distinguir a alimentação oferecida daquela que a pessoa efetivamente consegue consumir. “Saber que a refeição chegou ao leito não é suficiente. Precisamos entender quanto o paciente comeu, se apresentou algum desconforto e o que dificultou a aceitação. Essas informações ajudam a definir e orientar a conduta nutricional”, explica.
A importância desse acompanhamento foi demonstrada em pesquisas sobre pacientes hospitalizados com risco nutricional. Publicado em 2019 na revista científica The Lancet, o estudo EFFORT analisou 2.028 participantes de hospitais suíços e identificou um resultado favorável ao suporte nutricional individualizado: em 30 dias, o conjunto de eventos que incluía óbito, internação em terapia intensiva, reinternação não planejada, complicações importantes ou perda funcional ocorreu em 23% desse grupo, ante 27% entre aqueles que receberam alimentação hospitalar padrão.
Na avaliação de Tábita, transformar esse conhecimento em assistência exige observar o paciente ao longo da internação de forma individualizada, reunindo histórico alimentar, medidas antropométricas, o exame físico, os exames laboratoriais e a evolução clínica do paciente. Essa abordagem fez parte de sua rotina no Hospital Regional Deputado Luís Eduardo Magalhães, em Porto Seguro, onde atuou em dois períodos, entre 2018 e 2020 e de 2023 a 2025, acompanhando pacientes de diferentes setores, incluindo clínica médica, cirurgia e terapia intensiva.
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“Duas pessoas com o mesmo diagnóstico podem apresentar condições nutricionais diferentes. Uma pode manter a alimentação adequada, enquanto a outra já dar entrada no hospital com perda de peso ou redução da ingestão alimentar antes mesmo de ser internada. Por isso, a avaliação precisa considerar as particularidades de cada paciente”, observa a especialista.
Essa abordagem também está alinhada às recomendações da Sociedade Europeia de Nutrição Clínica e Metabolismo, conhecida pela sigla ESPEN. Em sua diretriz prática de 2024 para pacientes clínicos hospitalizados com múltiplas doenças, a entidade recomenda identificar precocemente o risco nutricional e definir intervenções individualizadas, com acompanhamento da ingestão e da resposta ao tratamento.
Nos atendimentos hospitalares, Tábita também acompanhou pacientes que necessitavam de nutrição enteral, administrada por sonda, e nutrição parenteral, fornecida por via intravenosa. Essa atuação envolvia cálculo das necessidades energéticas e proteicas, o acompanhamento da oferta nutricional e a observação da tolerância à terapia. O trabalho exigia articulação com a equipe multiprofissional, para que mudanças no quadro clínico e dificuldades na administração da dieta fossem consideradas nas decisões.
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“O cálculo das necessidades nutricionais é uma referência importante, mas também precisamos acompanhar o que realmente foi administrado e como o paciente responde. A troca de informações com a equipe ajuda a identificar problemas que precisam ser avaliados antes de manter ou modificar uma conduta”, afirma.
A atenção nutricional, entretanto, não termina necessariamente com a alta hospitalar. A continuidade desse cuidado depois da internação também tem sido investigada. Uma revisão publicada em 2022 na revista Clinical Nutrition reuniu 14 ensaios clínicos, com 2.438 participantes, e encontrou maior ingestão de energia e proteínas entre pacientes desnutridos que receberam suporte nutricional após a alta, além de menor mortalidade na análise desse desfecho. Os estudos, em sua maioria de qualidade moderada, não demonstraram diferença nas reinternações, indicando que os benefícios precisam ser examinados conforme o resultado avaliado.
Nesse contexto, a continuidade do cuidado também depende de compreender as condições de vida do paciente e sua capacidade de seguir as orientações fora do hospital. A experiência de Tábita no atendimento clínico incluiu pacientes com diabetes, hipertensão, doenças renais e alterações gastrointestinais, condições que exigem atenção às necessidades clínicas e aos hábitos alimentares.
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“Na consulta, é importante entender como o paciente organiza as refeições e o que consegue ou conseguiu colocar em prática. Quando alguma orientação não funciona na rotina, precisamos compreender as dificuldades e avaliar os ajustes no plano alimentar quando se faz necessário”, explica.
Essa atenção aproxima o cuidado hospitalar da nutrição clínica, preservando a avaliação individual mesmo quando o ambiente muda. Na leitura da especialista, acompanhar significa verificar se a alimentação proposta atende às necessidades identificadas e se existem condições para realizá-la, mantendo as dificuldades do paciente no centro das decisões.
Para Tábita o acompanhamento nutricional exige avaliação contínua, atenção à resposta às intervenções e adaptação das orientações, contribuindo para um cuidado que não se limita à internação, mas pode continuar após a alta.
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Escrito por: Fernando David
