Saúde

Equipe de 37 mil agentes de IA é usada para buscar novos medicamentos

Uma empresa de biotecnologia com 37 mil funcionários pode funcionar sem escritórios, salários ou uma única pessoa trabalhando em seu quadro. A estrutura

3 min

20/10/2026 12:00 • Atualizado há 7 horas

Equipe de 37 mil agentes de IA é usada para buscar novos medicamentos

Uma empresa de biotecnologia com 37 mil funcionários pode funcionar sem escritórios, salários ou uma única pessoa trabalhando em seu quadro. A estrutura criada por pesquisadores da Stanford Medicine é inteiramente formada por agentes de inteligência artificial, organizados para executar tarefas que fazem parte do desenvolvimento de medicamentos, da análise de alvos biológicos ao planejamento de ensaios clínicos.

Continua depois da publicidade

O projeto foi liderado por James Zou, professor associado de ciência de dados biomédicos, e pelo pesquisador Harrison Zhang. A ideia foi reproduzir digitalmente a organização de uma companhia do setor, com agentes especializados distribuídos em divisões e um agente ocupando até a função de diretor científico. Em vez de concentrar o trabalho em um único modelo, milhares de sistemas recebem funções específicas e trabalham paralelamente.

Uma das primeiras missões mostra a escala dessa abordagem. Os agentes analisaram aproximadamente 50 mil ensaios clínicos em menos de uma semana, reunindo informações sobre segurança, eficácia e características moleculares. Segundo Stanford, uma investigação desse tamanho exigiria anos se fosse realizada manualmente. O objetivo não era apenas resumir documentos, mas procurar características capazes de indicar quais candidatos a medicamento teriam melhores possibilidades de avançar nos testes.

A análise encontrou dois sinais ligados ao comportamento dos genes e à capacidade de um medicamento atingir tipos celulares específicos. Nos dados avaliados, fármacos direcionados a genes com atividade semelhante a um interruptor apresentaram probabilidade 40% maior de avançar da fase 1 para a fase 2. Também registraram probabilidade 48% maior de chegar ao mercado e 32% menos eventos adversos quando comparados aos tratamentos com atuação mais ampla. Os padrões apareceram em diferentes doenças, incluindo câncer e condições neurológicas, cardíacas, renais e pulmonares.

Continua depois da publicidade

Os pesquisadores deram então aos agentes um desafio mais próximo da criação de uma terapia. O alvo escolhido foi a proteína B7 H3, estudada em câncer de pulmão. A equipe virtual cruzou informações sobre expressão celular, comunicação entre células e dados espaciais dos tumores. A partir desse material, propôs um conjugado de anticorpo e medicamento capaz de reconhecer células com grande presença da proteína e levar até elas uma carga de quimioterapia.

Para testar se a proposta poderia antecipar decisões tomadas por pesquisadores humanos, o sistema recebeu somente informações disponíveis antes de janeiro de 2025. Meses depois, uma farmacêutica chegou de maneira independente a uma estratégia semelhante contra B7 H3. O tratamento desenvolvido pela companhia recebeu posteriormente da agência reguladora americana FDA a designação de terapia inovadora, mecanismo usado para acelerar o desenvolvimento de tratamentos promissores.

A experiência não significa que 37 mil agentes digitais possam colocar sozinhos um medicamento nas farmácias. Os próprios autores mantêm experimentação física e validação humana como etapas necessárias. O trabalho mostra algo mais específico: tarefas que envolvem leitura de enormes conjuntos de dados, comparação de resultados e formulação de hipóteses podem ser divididas entre milhares de agentes especializados.

Continua depois da publicidade

O estudo foi publicado em 17 de setembro na revista Science. A estrutura de uma empresa virtual de biotecnologia amplia uma experiência anterior do grupo de Stanford, que já vinha testando laboratórios compostos por cientistas de IA. O próximo desafio será levar os novos alvos encontrados pelos agentes para laboratórios físicos e descobrir quantas dessas hipóteses sobrevivem aos testes experimentais.