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Lisset Gonzalez: cirurgia de endometriose exige indicação e acompanhamento

Ginecologista com atuação em endometriose explica quando a dor deixa de ser habitual

8 min

15/09/2026 17:22 • Atualizado há 23 horas

Lisset Gonzalez: cirurgia de endometriose exige indicação e acompanhamento

A endometriose pode se manifestar de maneiras que vão além da cólica menstrual. Dor pélvica persistente, desconforto durante as relações sexuais, alterações intestinais e dificuldades relacionadas à fertilidade estão entre as manifestações que podem fazer parte do quadro. O diagnóstico da doença, porém, não significa que toda paciente precisará passar por uma cirurgia.

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A escolha do tratamento depende dos sintomas, da resposta às medidas clínicas, da extensão da doença, das estruturas comprometidas e dos objetivos reprodutivos de cada mulher. Em muitos casos, medicamentos e acompanhamento médico permitem controlar as manifestações sem necessidade de intervenção cirúrgica.

Para a ginecologista com atuação em endometriose Lisset Caridad Gonzalez Pérez, um dos desafios ainda está na maneira como a dor feminina foi culturalmente naturalizada.

“Aprendemos durante muito tempo que a dor menstrual era algo habitual e que a mulher deveria conviver com ela. Esse entendimento vem mudando, mas essa normalização ainda faz com que muitas pacientes demorem a perceber que determinados sintomas merecem investigação.”

Quando a dor pode ser um sinal de alerta

A intensidade da cólica não deve ser analisada isoladamente. Um dos aspectos mais importantes é perceber quanto a dor interfere na rotina.

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Quando o desconforto exige medicamentos repetidamente, faz com que a mulher permaneça acamada, leva à procura por atendimento de urgência ou aparece também fora do período menstrual, é recomendável investigar sua origem.

Outros sintomas podem parecer pouco relacionados à ginecologia. Constipação, dor para evacuar, sangramento nas fezes e dor durante a relação sexual foram citados pela especialista como manifestações que podem estar presentes em pacientes com endometriose. Isso não significa que esses sinais indiquem, necessariamente, a doença, já que podem ter outras causas e precisam de avaliação individual.

Entre eles, a dor durante a relação ocupa um lugar particularmente delicado porque pode ser incorporada à vida da paciente sem que seja reconhecida como um problema de saúde.

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“A mulher pode começar a adaptar a própria relação sexual porque já sabe de que forma sente dor e passa a evitar determinadas situações. Com o tempo, aquele desconforto acaba sendo tratado como normal. Esse impacto sobre a sexualidade é um aspecto da doença que, muitas vezes, quem está de fora não percebe.”

O relato da paciente, por isso, tem papel importante na investigação. Exames auxiliam o diagnóstico, mas os sintomas, sua duração e a maneira como interferem na qualidade de vida também precisam ser considerados.

Quando a cirurgia entra no tratamento da endometriose

A maioria das pacientes com endometriose não precisa, necessariamente, de cirurgia. A possibilidade de operar passa a ganhar maior relevância quando o tratamento clínico não consegue controlar os sintomas, há progressão da doença ou surgem alterações anatômicas que comprometem estruturas próximas.

Lesões que envolvem intestino ou bexiga, por exemplo, podem tornar o planejamento terapêutico mais complexo. A decisão deve considerar não apenas onde está a doença, mas também os sintomas e as características de cada paciente.

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“É importante desconstruir a ideia de que a cirurgia será, sozinha, a solução de todos os problemas. A endometriose envolve diferentes fatores e, mesmo quando há indicação de operar, o procedimento precisa fazer parte de uma estratégia mais ampla de acompanhamento e tratamento.”

Essa avaliação se torna ainda mais sensível quando a mulher deseja engravidar no futuro. Idade, reserva ovariana, extensão da doença e possíveis alterações nas trompas ou nos ovários podem influenciar a conduta.

Ter endometriose, entretanto, não significa ser infértil. De acordo com Lisset, existe maior preocupação principalmente quando a doença compromete estruturas envolvidas no processo reprodutivo.

“Nem todas as mulheres com endometriose terão dificuldade para engravidar. O risco pode ser maior em determinados quadros, principalmente quando existe comprometimento de trompas e ovários. Por isso, desejo de gestação, idade e extensão da doença precisam entrar nessa avaliação antes de se definir uma abordagem.”

Entre as pacientes mais jovens, esse planejamento também envolve uma preocupação que aparece com frequência antes de uma cirurgia: o medo de perder o útero e, consequentemente, a possibilidade de uma futura gestação.

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Preservar órgãos e função reprodutiva, quando isso é clinicamente possível e adequado ao caso, torna-se parte da conversa sobre tratamento.

Cirurgia minimamente invasiva não significa cirurgia simples

A videolaparoscopia modificou a abordagem de diferentes procedimentos ginecológicos. A técnica utiliza pequenas incisões e uma câmera para permitir a visualização da região operada, evitando a abertura abdominal característica de uma cirurgia convencional.

Entre os aspectos apontados por Lisset estão menor trauma da parede abdominal e a possibilidade de uma recuperação mais confortável em determinados procedimentos, além de retorno mais precoce às atividades quando as condições clínicas permitem.

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As pequenas incisões, contudo, não revelam necessariamente o grau de complexidade da cirurgia realizada internamente.

“Em uma cirurgia de endometriose, podemos precisar realizar uma dissecção extensa, mobilizar estruturas e trabalhar próximo ao intestino ou à bexiga. Por isso, não é apenas o tamanho do corte que determina a recuperação. A complexidade do que foi feito internamente influencia diretamente o pós-operatório.”

Em casos mais extensos, Lisset relata que uma cirurgia pode se prolongar por várias horas. A duração varia de acordo com o comprometimento encontrado e com os procedimentos necessários durante a intervenção.

Esse é um ponto importante para ajustar expectativas. O termo “minimamente invasiva” descreve a forma de acesso cirúrgico, mas não significa que todos os procedimentos tenham a mesma dimensão ou o mesmo tempo de recuperação.

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A cirurgia robótica é outra tecnologia que vem ganhando espaço na ginecologia e pode ser utilizada em procedimentos de maior complexidade. Segundo a especialista, os recursos tecnológicos ampliam possibilidades técnicas, mas a escolha da abordagem precisa continuar vinculada às necessidades de cada caso.

Endometriose é uma condição crônica

Outro aspecto que exige esclarecimento é a expectativa de cura definitiva após a cirurgia.

A endometriose é uma condição crônica. Quando existe indicação cirúrgica, o procedimento pode ser utilizado para retirar lesões ou nódulos relacionados aos sintomas e para abordar alterações provocadas pela doença. Isso, entretanto, não elimina a necessidade de acompanhamento posterior.

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“A cirurgia permite retirar os focos que estão causando sintomas naquele momento, mas não significa retirar a doença em si. A endometriose continua sendo uma condição crônica e pode haver recorrência. Por isso, mesmo depois de uma cirurgia, o acompanhamento clínico permanece importante.”

O tratamento também pode envolver profissionais de diferentes áreas, sobretudo quando a paciente apresenta dor crônica. Fisioterapia pélvica, acompanhamento psicológico, orientação nutricional e atividade física podem integrar o cuidado conforme as necessidades clínicas individuais.

Para a ginecologista, olhar para esses diferentes aspectos é importante porque a repercussão da doença nem sempre permanece restrita ao sintoma físico.

“Sentir dor de forma persistente interfere na saúde física e emocional e pode afetar trabalho, rotina, relacionamentos e sexualidade. Em determinados casos, psicologia, fisioterapia pélvica, alimentação e outros cuidados precisam caminhar junto com o tratamento médico.”

Tecnologia avança, mas ouvir a paciente continua essencial

Os recursos disponíveis para diagnóstico e tratamento avançaram, mas Lisset considera que a primeira etapa do atendimento permanece essencialmente humana: entender por que aquela mulher procurou ajuda.

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Ela conta que é comum receber pacientes que chegam ao consultório prontas para apresentar exames antes mesmo de descrever os sintomas.

“Muitas pacientes chegam mostrando o exame, e eu prefiro colocá-lo de lado por um momento e perguntar: ‘O que você está sentindo? Por que precisou fazer esse exame?’. Antes de olhar apenas para um resultado, precisamos ouvir aquela mulher. É a partir da história dela que conseguimos direcionar uma estratégia de acompanhamento e tratamento.”

A escuta também ajuda a identificar sintomas que foram normalizados durante anos. Dor persistente, sangramento fora do período menstrual, sangramento durante a relação sexual e mudanças importantes no padrão ginecológico merecem avaliação, especialmente quando representam algo novo ou interferem na qualidade de vida.

A orientação central é não transformar sofrimento em parte inevitável da rotina feminina.

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“Se existe um sintoma que está incomodando ou modificando a sua vida, procure avaliação. A mulher não precisa simplesmente se acostumar com aquilo que sente. Entender o que está acontecendo é o primeiro passo para definir a melhor forma de cuidado.”

Quem é Lisset Caridad Gonzalez Pérez

Nascida em Cuba, Lisset Caridad Gonzalez Pérez chegou ao Brasil aos 13 anos, em 2001, acompanhando a família. Filha de médico, cresceu próxima à profissão e conta que a decisão de seguir a medicina esteve presente desde a infância.

Sua formação médica aconteceu em Manaus (AM). Durante a graduação, chegou a imaginar uma carreira na cirurgia geral, mas encontrou na ginecologia a possibilidade de unir o interesse pela área cirúrgica ao acompanhamento da mulher em diferentes fases da vida.

Depois de concluir a graduação, seguiu para São Paulo para a residência em Ginecologia e Obstetrícia. Em 2015, sua trajetória acadêmica já se aproximava de um dos temas que marcariam sua prática anos depois: há registro de trabalho realizado no Hospital do Servidor Público Municipal sobre o uso de dienogeste no tratamento da dor pélvica crônica em pacientes com endometriose.

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Após esse período de formação, retornou a Manaus, onde passou a desenvolver sua atuação profissional. Embora tenha trabalhado também com obstetrícia e tenha tido experiência na área oncológica, atualmente direciona sua prática principalmente à cirurgia ginecológica benigna, incluindo o tratamento de endometriose e miomas e procedimentos minimamente invasivos, com atenção à preservação da fertilidade quando esse é um objetivo da paciente e existe possibilidade clínica.

Ao longo desse percurso, a cirurgia permaneceu como uma das bases de sua atuação, mas a experiência com as pacientes acrescentou outra dimensão ao cuidado. Para Lisset, compreender sintomas, receios, projetos reprodutivos e expectativas antes de definir uma conduta é tão importante quanto interpretar exames e escolher a técnica adequada.

CRM 7472 / RQE 4578

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Instagram:@dralissettgonzalezfoto:Jammes Aguiar fotografia

Crédito: DIVULGAÇÃO

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