Magreza extrema volta à moda e acende alerta para transtornos alimentares
Pressão estética, redes sociais e popularização das canetas para a obesidade recolocam o corpo supermagro no centro

Divulgação
Depois de alguns anos em que diferentes corpos ganharam mais espaço na moda, na publicidade e nas redes sociais, o movimento começa a dar sinais de recuo. Corpos cada vez mais magros voltam às passarelas e às referências de beleza justamente em um momento em que medicamentos capazes de promover grandes perdas de peso se popularizaram.
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Um levantamento da Vogue Business ajuda a dimensionar essa mudança. Na temporada de outono/inverno de 2026, 97,6% dos looks analisados nas principais semanas de moda foram apresentados por modelos consideradas straight-size, equivalentes aos menores tamanhos da grade americana. Apenas 0,3% foram exibidos por modelos plus-size, o menor percentual registrado pelo levantamento desde sua criação. (vogue.com)
O problema não está apenas nas passarelas. Hoje, esse padrão circula diariamente pelos celulares e se mistura a conteúdos sobre alimentação, exercício, emagrecimento e estética.
Uma meta-análise publicada em 2025 na revista científica Body Image, que reuniu 83 estudos, somando mais de 55 mil participantes, encontrou associação entre a comparação da própria aparência nas redes sociais, maior insatisfação corporal e sintomas relacionados a transtornos alimentares. (Bonfanti RC et al. 2025. The association between social comparison in social media, body image concerns and eating disorder symptoms: A systematic review and meta-analysis. Body Image. 2025. doi: 10.1016)
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Quando emagrecer passa a render elogios, sensação de controle e aprovação social, a perda de peso pode ganhar um valor que ultrapassa a aparência. O resultado que antes parecia suficiente deixa de satisfazer, enquanto pequenas oscilações naturais do corpo passam a gerar ansiedade e frustração.
Segundo a psiquiatra Dra. Maria Amália Pedrosa, especialista em Saúde Coletiva, Transtornos Alimentares e Adicções, esse processo envolve o sistema de recompensa do cérebro. “A perda de peso rápida gera uma sensação de controle e de conquista, como se fosse um prêmio imediato e mensurável. Depois vêm os elogios e a validação do outro, uma das recompensas mais poderosas para o ser humano. Muitas vezes, o peso que antes parecia suficiente deixa de satisfazer e a exposição constante a corpos muito magros nas redes sociais desloca o que consideramos adequado.”
Segundo a endocrinologista Dra. Paula Waki, especialista em Obesidade, Diabetes e Transtornos Alimentares, essa pressão já aparece na prática clínica.
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“Mulheres jovens e adultas, saudáveis e sem obesidade chegam ao consultório convencidas de que ainda precisam emagrecer. Muitas vezes, não existe uma indicação clínica, mas uma pressão estética que faz com que o corpo nunca pareça suficientemente magro”, afirma.
Canetas de tratamento para a obesidade entram na mira da pressão estética
A volta desse ideal de corpo coincide com a popularização de medicamentos como semaglutida e tirzepatida, desenvolvidos para o tratamento da obesidade e de determinadas condições metabólicas.
Esses medicamentos representam um avanço importante da medicina, mas há um alerta quando passam a ser usados por pessoas sem indicação clínica, com o objetivo exclusivo de perder alguns quilos para se aproximar de um padrão estético.
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“O problema não são as canetas. Elas têm indicações e benefícios bem estabelecidos. O risco está em transformar um tratamento médico em uma ferramenta para adequar pessoas saudáveis ao corpo que está em evidência naquele momento”, explica Dra. Paula.
Esse cenário exige atenção especial entre pessoas que já mantêm uma relação conflituosa com comida, peso ou imagem corporal. Nesses casos, o acesso a medicamentos capazes de acelerar o emagrecimento pode ser incorporado a comportamentos de restrição já existentes e dificultar a percepção de que a busca pela perda de peso está se tornando prejudicial.
A preocupação levou a Agência Nacional de Vigilância Sanitária, a Anvisa, a endurecer as regras de venda desses medicamentos em 2025. A compra passou a exigir retenção da receita, medida adotada também diante do número de eventos adversos relacionados ao uso fora das indicações aprovadas. (gov.br)
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Quando emagrecer deixa de ser sinônimo de saúde
Outro ponto pouco discutido é que perder peso não significa perder apenas gordura. Estudos realizados com pacientes com sobrepeso ou obesidade mostram que parte da redução também ocorre na massa magra, o que reforça a necessidade de indicação e acompanhamento médico durante o tratamento.
A busca persistente pela magreza também pode afetar a relação com a alimentação e com o próprio corpo. Transtornos alimentares são doenças complexas, com múltiplas causas, mas a pressão estética, insatisfação com o corpo e comportamentos restritivos estão entre os fatores associados ao desenvolvimento desses quadros.
“Quando uma pessoa saudável passa a perseguir continuamente a perda de peso e nunca considera o próprio corpo suficientemente magro, a avaliação precisa considerar outras camadas além da balança. A relação com a comida e com a própria imagem também faz parte da saúde”, afirma a endocrinologista.
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A volta da magreza extrema ganha uma dimensão ainda mais preocupante quando o emagrecimento passa a ser associado a disciplina, sucesso e aprovação, enquanto oscilações de peso são recebidas como fracasso. O corpo pode se tornar objeto de vigilância constante, e alimentação, balança e aparência começam a ocupar um espaço desproporcional na rotina.
A medicina avançou muito no tratamento da obesidade e de suas complicações. Preservar esse avanço também exige reconhecer os limites entre cuidado e pressão estética. Quando peso e aparência passam a determinar o humor, as escolhas, a alimentação e a vida social, já existe um sinal de que a relação com o corpo precisa de atenção.

Contribuição Dra. Paula Waki é médica Endocrinologista, especialista em Obesidade, Diabetes e Transtornos Alimentares e Dra. Maria Amália Pedrosa é médica Psiquiatra, Especialista em Saúde Coletiva, Transtornos Alimentares e adicções
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A VOX5 é uma agência de influência médica que conecta especialistas a marcas e projetos de saúde, com foco em ética, ciência e credibilidade. Liderada por Elaine Rezende, desenvolve iniciativas de comunicação com médicos como protagonistas.
Referências
