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Perda de urina não deve ser normalizada, alerta urologista

Virgínia Müller explica os principais tipos de incontinência urinária, fatores associados e formas de prevenção.

8 min

04/09/2026 15:20 • Atualizado há 20 horas

Perda de urina não deve ser normalizada, alerta urologista

A incontinência urinária ainda é tratada por muitas mulheres como uma consequência inevitável da idade, da gestação, do parto ou da menopausa. No entanto, a perda involuntária de urina pode estar associada a diferentes alterações e merece investigação quando passa a interferir na rotina, no sono, na prática de exercícios, na vida social ou na autonomia.

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A urologista Virgínia Müller chama atenção para um comportamento recorrente entre pacientes que convivem com o problema por longos períodos: em vez de procurar ajuda, elas passam a reorganizar a própria vida em torno dos sintomas.

“Muitas mulheres começam a mapear banheiros, evitam viagens, deixam de participar de atividades e passam a se limitar por medo de perder urina. Isso mostra que a incontinência não deve ser analisada apenas pelo número de episódios, mas também pelo impacto que provoca na qualidade de vida.”

Outro obstáculo está na própria percepção sobre a Urologia. Ainda existe a associação da especialidade ao atendimento masculino e às doenças da próstata, o que pode retardar a procura das mulheres por avaliação de sintomas urinários.

“A mulher muitas vezes passa por outros profissionais antes de chegar ao urologista porque não relaciona a especialidade às disfunções miccionais, à incontinência, às infecções urinárias ou aos sintomas geniturinários da menopausa. Essa visão ainda precisa mudar.”

Incontinência não é uma condição única

Existem diferentes formas de incontinência urinária, e essa distinção é importante porque a investigação e o tratamento dependem do mecanismo envolvido.

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Na incontinência urinária de esforço, a perda costuma ocorrer durante situações que aumentam a pressão abdominal, como tossir, espirrar, correr, pular ou levantar peso. Já na incontinência de urgência, o principal sintoma é uma vontade súbita e difícil de adiar, que pode impedir a pessoa de chegar ao banheiro a tempo.

Também é possível apresentar os dois tipos simultaneamente, situação conhecida como incontinência mista.

“O diagnóstico precisa entender qual é o comportamento da bexiga e do assoalho pélvico naquele paciente. Há pessoas que perdem urina apenas aos esforços, outras apresentam urgência e muitas têm uma combinação dos dois quadros. Essa diferença muda completamente a maneira como conduzimos o tratamento.”

Virgínia também destaca uma confusão frequente: incontinência urinária e a popularmente chamada “bexiga caída” não são a mesma condição.

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A chamada “bexiga caída” está relacionada ao prolapso dos órgãos pélvicos, em que estruturas da pelve perdem sustentação e podem provocar sensação de peso, abaulamento ou exteriorização pela vagina. O prolapso pode coexistir com a incontinência, mas exige avaliação própria.

“Quando a paciente relata que sente uma estrutura descendo pela vagina, precisamos pensar em prolapso. Ele pode envolver a bexiga, o útero, o reto ou a região onde ficava o útero após uma cirurgia. É possível ter prolapso e incontinência ao mesmo tempo, mas são problemas diferentes.”

Peso, menopausa e hábitos também influenciam

Gestação e parto são fatores frequentemente associados às alterações do assoalho pélvico, mas não são os únicos.

Segundo Virgínia, excesso de peso, tabagismo, constipação intestinal e histórico familiar podem contribuir para o desenvolvimento ou a piora dos sintomas. Doenças sistêmicas ou neurológicas, como diabetes, esclerose múltipla, Parkinson e alterações decorrentes de um AVC, também podem comprometer o funcionamento urinário e tornar a investigação mais complexa.

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A menopausa merece atenção especial porque a redução hormonal pode provocar mudanças na região genital e no trato urinário, com sintomas como aumento da frequência, urgência para urinar e necessidade de acordar durante a noite.

“A bexiga também responde às alterações hormonais. Por isso, algumas mulheres percebem mudanças urinárias importantes durante a menopausa. É preciso avaliar o conjunto de sintomas, porque nem sempre a queixa é decorrente do envelhecimento ou de uma única causa.”

Entre as medidas preventivas, a especialista cita o controle do peso, o tratamento da constipação, a interrupção do tabagismo e os cuidados com a musculatura do assoalho pélvico, principalmente quando já existem fatores de risco ou sintomas.

A fisioterapia pélvica pode fazer parte tanto da prevenção quanto do tratamento, mas não deve ser reduzida à ideia de simplesmente contrair a musculatura.

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“O assoalho pélvico precisa ter força, mas também precisa relaxar adequadamente. Quando a pessoa faz exercícios sem orientação e contrai a musculatura de maneira incorreta, pode acabar piorando o esvaziamento da bexiga e aumentando sintomas como urgência e frequência urinária. Por isso, a avaliação fisioterapêutica é importante.”

Diagnóstico e tratamento precisam ser individualizados

Em alguns casos, a investigação pode incluir o estudo urodinâmico, exame utilizado para avaliar o comportamento da bexiga e da uretra durante as fases de armazenamento e esvaziamento da urina.

O teste mede pressões e ajuda a compreender alterações que nem sempre são identificadas apenas pela descrição dos sintomas ou por exames de imagem.

“O estudo urodinâmico é uma avaliação funcional da bexiga. Ele permite observar as pressões durante o enchimento e a micção e entender como o órgão está armazenando e eliminando a urina. Em determinados casos, isso ajuda a esclarecer a origem de sintomas como perda urinária, urgência ou dificuldade de esvaziamento.”

Por envolver sondas e uma situação íntima, o exame pode provocar apreensão. Virgínia afirma que explicar cada etapa e preservar a privacidade são partes essenciais do atendimento.

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“Muitos pacientes chegam com medo porque imaginam uma situação constrangedora. Quando explicamos o que será feito, qual é o objetivo de cada etapa e garantimos um ambiente reservado, o exame se torna mais compreensível e menos assustador.”

O tratamento também varia conforme o tipo de incontinência, a intensidade dos sintomas, as condições clínicas e o impacto na vida do paciente.

Entre as possibilidades estão fisioterapia do assoalho pélvico, medicamentos e, em casos selecionados, procedimentos como aplicação de toxina botulínica na bexiga, neuromodulação sacral ou cirurgia.

A neuromodulação sacral atua por meio de estímulos em nervos relacionados ao controle da bexiga. Já a toxina botulínica pode ser considerada em determinados quadros de hiperatividade vesical. Quando há indicação cirúrgica, a escolha da técnica depende da alteração diagnosticada.

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“Hoje existem diferentes recursos, mas nenhum tratamento deve ser escolhido antes de entender o mecanismo do problema. Algumas pessoas melhoram com fisioterapia, outras precisam de medicamentos ou procedimentos. O ponto central é não tratar sintomas diferentes como se fossem a mesma doença.”

O impacto da incontinência vai além do banheiro

Apesar de ser uma condição física, a incontinência pode provocar consequências emocionais e sociais importantes.

Virgínia relata que algumas pacientes evitam encontrar amigos, viajar ou manter determinadas atividades por vergonha ou medo de perder urina em público. Em outros casos, a rotina familiar contribui para que a mulher deixe a saúde em segundo plano.

“Muitas mulheres cuidam dos filhos, dos pais, do parceiro, da casa e acabam se acostumando a não se priorizar. Algumas pensam que precisam aceitar a perda urinária porque a mãe ou a avó também tinham o mesmo problema. Mas cada caso tem uma história própria e merece ser avaliado individualmente.”

A mesma resistência pode aparecer entre os homens. A incontinência urinária masculina pode estar associada a doenças da próstata, condições neurológicas, diabetes e, em alguns casos, ao tratamento do câncer de próstata.

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“Alguns homens demoram para admitir que estão perdendo urina. Existe vergonha e, muitas vezes, uma dificuldade maior de procurar ajuda. Quando sabemos previamente que determinado tratamento pode afetar a continência, é possível preparar esse paciente antes, inclusive com fisioterapia pélvica.”

Nos quadros de incontinência urinária de esforço masculina mais importante, especialmente após tratamentos da próstata, uma das possibilidades cirúrgicas é o esfíncter urinário artificial. O dispositivo busca substituir mecanicamente parte da função do esfíncter responsável por manter a uretra fechada e impedir a perda involuntária de urina.

“O esfíncter urinário artificial possui diferentes componentes. Há um anel ao redor da uretra, um mecanismo de controle que fica no escroto e um reservatório. Quando o homem precisa urinar, ele aciona o sistema para liberar temporariamente a uretra; depois, o mecanismo volta a fechá-la. É uma alternativa importante para casos selecionados de incontinência masculina de esforço.”

Em 2023, Virgínia realizou em Caxias do Sul a implantação de um modelo de esfíncter urinário artificial que, naquele momento, foi apresentado como inédito no Rio Grande do Sul pelo dispositivo utilizado. A tecnologia empregada era pré-conectada, uma característica que diferenciava aquele sistema de modelos anteriores.

Para a especialista, o principal alerta é não incorporar a limitação como parte inevitável da rotina. Sintomas persistentes ou que reduzem a autonomia devem ser investigados, e a conduta precisa considerar tanto a causa quanto o impacto individual.

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“Nada que esteja modificando a vida da pessoa deve ser considerado pequeno demais para ser discutido. O mais importante é entender o que está acontecendo e avaliar, com critério, quais possibilidades fazem sentido para aquele paciente.”

Quem é Virgínia Müller

Virgínia Müller é médica urologista formada pela então Fundação Faculdade Federal de Ciências Médicas de Porto Alegre, atual Universidade Federal de Ciências da Saúde de Porto Alegre. Após a graduação, fez residência em Cirurgia Geral no Grupo Hospitalar Conceição e seguiu a formação em Urologia na Santa Casa de Porto Alegre, onde teve como chefes o Prof. Dr. Carlos Ary Vargas Souto e o Prof. Dr. Cláudio Telöken.

O contato com a urodinâmica começou ainda durante a formação médica. Em 1999, auxiliou a Dra. Cristine Froemming na etapa prática de sua tese de doutorado, realizando estudos urodinâmicos em crianças com mielomeningocele. A médica, que na época era a única mulher do serviço de Uropediatria, tornou-se uma das referências femininas de Virgínia dentro da especialidade.

Em 2002, quando prestou a prova para Urologia, Virgínia era a única mulher entre os candidatos.Depois da residência, ampliou a formação com passagem pela Urologia em Nancy, na França, e posteriormente pela Urologia Feminina na Unicamp.

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Sua atuação, no entanto, não se restringe à incontinência urinária ou à Urologia Feminina. Atualmente, em Caxias do Sul, trabalha também com Urologia Geral, uro-oncologia, cirurgia robótica, disfunções miccionais, estudo urodinâmico e outras condições do trato urinário masculino e feminino.

A diversidade de áreas acompanha uma característica que Virgínia considera essencial no consultório: combinar os recursos técnicos disponíveis com espaço para escuta. Em uma especialidade que frequentemente envolve intimidade, sexualidade, alterações urinárias e situações que ainda provocam vergonha, a médica defende que compreender o impacto dos sintomas na vida do paciente faz parte da própria investigação clínica.

Instagram: @virginiamuller.uro

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Site: https://virginiamuller.com

CRM: 24804/RS | RQE Nº: 16552, 16942

Foto em sala cirúrgica:Gabriela Pegorini

Foto em sala cirúrgica:Gabriela Pegorini

Crédito: TV NOTÍCIAS ASSESSORIA DE IMPRENSA- BRASIL NEWS

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