Saúde

Pesquisa da Fiocruz detecta cocaína em rios do Rio de Janeiro

Investigação incluiu os rios Irajá e Carioca e os canais do Cunha e do Mangue, na capital, e o Rio Meriti, em Duque de Caxias, na Baixada Fluminense

3 min

07/10/2026 10:11 • Atualizado há 9 horas

Pesquisa da Fiocruz detecta cocaína em rios do Rio de Janeiro

Pesquisa detecta cocaína em rios do RJ

Divulgação/Fiocruz

Uma pesquisa liderada pela Fundação Oswaldo Cruz detectou a presença de cocaína em cinco rios da capital e Região Metropolitana do Rio de Janeiro. Também foi encontrado o principal derivado da cocaína, chamado de benzoilecgonina, que é excretado na urina após metabolização da droga no organismo dos usuários.

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A investigação incluiu os rios Irajá e Carioca e os canais do Cunha e do Mangue, na capital, e o Rio Meriti, em Duque de Caxias, na Baixada Fluminense. Todos deságuam na Baía de Guanabara.

As análises revelaram altos níveis de contaminação, superiores aos encontrados em estudos semelhantes em países como Bélgica, Espanha e Estados Unidos. Ensaios em laboratório apontaram que as substâncias – nas concentrações detectadas no ambiente – têm efeitos tóxicos para organismos aquáticos.

Para investigar a contaminação, os cientistas realizaram coletas mensais de água nos cinco rios durante um ano, entre julho de 2022 e junho de 2023. Das 60 amostras coletadas, somente uma não apresentou cocaína. Todas foram positivas para a benzoilecgonina, principal derivado da droga.

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A contaminação foi maior na estação chuvosa, de outubro a março, com pico no mês de janeiro, o que se alinha com estudos nacionais e internacionais, que apontam aumento da presença de drogas ilícitas no ambiente em períodos de férias e festas.

Em quase todas as amostras, a concentração de benzoilecgonina foi maior que a de cocaína, o que é compatível com a contaminação a partir de esgotos que carregam dejetos de usuários da droga. O padrão foi inverso em apenas uma amostra, na qual a concentração de cocaína foi quatro vezes maior que a do metabólito, indicando possível descarte da droga.

Efeitos tóxicos

O efeito das substâncias em organismos aquáticos foi avaliado por meio de ensaios em laboratório, realizados com embriões de zebrafish, um peixe amplamente utilizado em análises de ecotoxicologia. A exposição destes peixes às concentrações dos contaminantes detectadas nos rios do Rio de Janeiro causou aumento de mortalidade, deformações, alterações cardiovasculares e neurológicas, entre outros impactos.

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O efeito do metabólito foi ainda mais nocivo que o da cocaína, com danos aos peixes observados em ensaios com 13% da concentração de benzoilecgonina encontrada no ambiente. Considerando os dados observados, os autores destacam, na conclusão do artigo, a importância de incluir a cocaína e o seu metabólito em programas de monitoramento e avaliações de risco ecológico para proteger melhor os ecossistemas aquáticos em regiões altamente urbanizadas.

Tendo em vista os resultados da pesquisa, os cientistas ampliaram a investigação para 13 rios do Rio de Janeiro, em uma segunda etapa do estudo. Novas coletas foram realizadas entre dezembro de 2023 e novembro de 2024. As análises estão em andamento, com previsão de conclusão no primeiro semestre de 2027.

Pesquisa

Coordenado pelo Instituto Oswaldo Cruz (IOC/Fiocruz), o estudo foi realizado em parceria com Escola Nacional de Saúde Pública Sergio Arouca (Ensp/Fiocruz), Instituto Nacional de Controle de Qualidade em Saúde (INCQS/Fiocruz), Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ), Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro (Unirio). O estudo teve financiamento da Fundação Carlos Chagas Filho de Amparo à Pesquisa do Estado do Rio de Janeiro (Faperj).

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Os dados foram publicados na revista científica internacional Aquatic Toxicology. A pesquisa integrou a tese de doutorado de Gabriel de Farias Araujo, desenvolvida no Programa de Pós-graduação em Saúde Pública e Meio Ambiente, da Ensp/Fiocruz, sob orientação de Enrico Saggioro, pesquisador do Laboratório de Avaliação e Promoção da Saúde Ambiental do IOC.

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