Saúde

Recuperação pós-parto pode levar meses, aponta especialista

Quando um bebê nasce, os holofotes da família se voltam inteiramente para ele. Consultas pediátricas, vacinação, amamentação, sono e ganho de peso passam a

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20/09/2026 08:00 • Atualizado há 13 horas

Recuperação pós-parto pode levar meses, aponta especialista

Quando um bebê nasce, os holofotes da família se voltam inteiramente para ele. Consultas pediátricas, vacinação, amamentação, sono e ganho de peso passam a dominar a rotina. No meio dessa grande transformação, no entanto, há uma paciente que muitas vezes é deixada de lado: a mulher que acabou de dar à luz.

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A ilusão de que o corpo materno "volta ao normal" no momento em que o parto termina esbarra na realidade científica e clínica.

Problemas como perda involuntária de urina, dor pélvica, desconforto sexual, ressecamento vaginal e alterações no assoalho pélvico podem acompanhar as mulheres por meses — ou até anos — após o nascimento.

A dimensão do problema

Dados internacionais ajudam a ilustrar a dimensão dessa conta que muitas vezes fica oculta. Uma revisão sistemática com mais de 11,4 mil mulheres estimou uma prevalência geral de 35% de dispareunia (dor durante as relações sexuais) no pós-parto.

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  • Entre 2 e 6 meses após o nascimento, o índice salta para 43%.
  • Mesmo entre 6 e 12 meses, cerca de 22% das mulheres continuavam relatando dor.

Para a fisioterapeuta pélvica Regiane Migliorini, especialista em disfunções do assoalho pélvico, os números mostram por que o acompanhamento precisa ir muito além das primeiras semanas. "Durante a gestação, a mulher é acompanhada constantemente. Depois que o bebê nasce, praticamente todas as perguntas passam a ser sobre ele. Tudo isso é fundamental, mas precisamos continuar perguntando: como está essa mulher? Ela sente dor? Está perdendo urina? Como está o corpo dela?", aponta.

A própria Organização Mundial da Saúde (OMS) orienta que os profissionais investiguem nos contatos pós-natais não apenas o bem-estar geral, mas questões como micção, incontinência, função intestinal, cicatrização e dor perineal.

Amamentação e saúde íntima: o que pouca gente fala

Um dos mitos mais comuns é associar o desconforto sexual exclusivamente ao parto vaginal. Mulheres que passaram por cesariana também enfrentam mudanças profundas, especialmente durante o período de amamentação.

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Uma revisão científica publicada em 2025 avaliou 65 estudos sobre sintomas geniturinários na lactação:

  • A prevalência estimada de ressecamento vaginal chegou a 53,6%.
  • Alterações atróficas vaginais foram identificadas em 63,9% das lactantes.
  • A prevalência combinada de disfunção sexual alcançou 73,5%.

O motivo é hormonal: durante a amamentação, os níveis elevados de prolactina reduzem os estímulos estrogênicos, diminuindo a lubrificação natural.

Para Regiane, dialogar sobre isso antes da retomada da vida sexual evita que a mulher encare a dor como um fardo inevitável. "A via de parto é apenas parte da história. Relação sexual não deveria funcionar como uma prova de que o corpo 'voltou ao normal'."

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O olhar integrado: a pediatria que também enxerga a mãe

Essa teia de relações entre amamentação, hormônios e recuperação física exige um olhar multidisciplinar. A pediatra Gigliola Peláez, especialista em amamentação com certificação internacional (IBCLC), destaca que a amamentação nunca acontece de forma isolada.

"O bebê está inserido em uma dupla. A mãe também atravessa um período de enormes transformações hormonais, privação de sono e reorganização profunda. Cuidar da mulher não concorre com o cuidado do bebê; faz parte dele", reforça Gigliola.

Perder urina não é "normal"

Outra queixa negligenciada é a incontinência urinária pós-parto. Pequenos escapes ao tossir, espirrar ou pegar peso costumam ser normalizados por pacientes e familiares. "Existe uma diferença muito importante entre um sintoma ser frequente e ele ser normal. A perda urinária pode acontecer, mas isso não significa que a mulher tenha que aprender a conviver com ela", adverte Regiane.

A especialista reforça que a fisioterapia pélvica não funciona com receitas prontas: o tratamento exige uma avaliação individualizada da força, resistência, coordenação e histórico da paciente.

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O mito de que a cesariana blinda o assoalho pélvico também precisa cair. A gravidez por si só — com o peso do útero e a pressão sobre os órgãos — altera as estruturas pélvicas independentemente de como o bebê nasce.

E quando chega a volta ao trabalho?

O teste definitivo para muitas mulheres acontece quando a licença-maternidade chega ao fim, mas a recuperação física ainda está incompleta.

Um estudo sueco publicado em 2026 avaliou mulheres que sofreram trauma perineal grave e identificou capacidade de trabalho prejudicada em quase um terço das participantes, diretamente associada aos distúrbios do assoalho pélvico. "Essa mulher pode estar tentando passar oito horas fora de casa enquanto perde urina, sente dor ou se adapta às mudanças do próprio corpo", observa Regiane.

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Para Gigliola, a transição exige suporte coletivo. "O importante é que a mulher tenha informação e condições para que a volta ao trabalho não signifique acumular novas pressões sobre um corpo ainda em reabilitação."

No fim das contas, a mensagem dos especialistas é um convite para mudar a lente com que a sociedade enxerga o pós-parto: o sucesso não se resume a um bebê saudável e uma alta hospitalar.

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