
Confira história do "Quem Ama Não Esquece
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Jéssica, ex-acompanhante de luxo, conta como abandonou a profissão por amor, ao se envolver com Antônio, um cliente rico e controlador.
A princípio apaixonada, ela abriu mão da liberdade e da própria identidade para se encaixar no ideal dele, que a moldava e escondia seu passado.
Após um jantar em que rompe com a farsa imposta, ela reencontra sua autonomia e volta à vida que escolheu com orgulho, entendendo que ser fiel a si mesma vale mais do que qualquer aprovação social. Confira mais uma história do "Quem Ama Não Esquece", da Band FM:
Amar a si mesma vem em primeiro lugar
Eu abri mão de tudo por amor. Até entender que, sozinha, eu valia muito mais. Eu sei: ao contar minha história, muita gente vai me julgar. Eu sei o que dizem sobre mulheres como eu — mulheres que vendem o corpo para viver.
Sim, eu era garota de programa. Mas nunca fui dessas que se escondem, que vivem pedindo desculpas para a sociedade ou que inventam outro nome para justificar a profissão que têm.
Não. Eu era acompanhante de luxo — e ganhava muito bem para isso. E digo mais: eu escolhi essa vida. Não foi por passar fome, não foi porque não tive outras oportunidades. Eu escolhi porque, saindo com homens, eu ganhava mais do que você pode imaginar.
Eu tinha carro importado, um apartamento de dois quartos, roupas de marca, bolsas caras... Eu escolhi isso. Escolhi sair com homens ricos, bem-sucedidos, oferecer minha companhia em troca de dinheiro. Presentes caros, viagens internacionais, restaurantes sofisticados, hotéis cinco estrelas... Essa era a minha vida, enquanto a maioria, por aí, tem que vender o almoço para comprar o jantar.
Eu nunca me senti suja. Sentia-me esperta — e feliz — pelo padrão de vida que eu tinha. Eu vendia companhia, mas ninguém comprava a minha dignidade. De muitos clientes, cheguei a virar amiga. Outros passaram apenas uma vez pela minha cama.
Até conhecer o Antônio. Ele me encontrou por meio de um site e era exatamente o tipo de homem que eu gostava de atender: bonito, rico, jovem... o tipo de homem que poderia ter a mulher que quisesse, mas que, por algum motivo, preferia pagar por uma acompanhante.
— Posso te contar uma coisa? Eu nunca fiz isso... nunca contratei mulher assim.— Sempre tem uma primeira vez.— Sinceramente, a noite foi tão boa que já tô pensando numa segunda.— Por que você tá fazendo isso? Você poderia ter qualquer uma...— Porque tô cansado de mulher interesseira. É cansativo tentar descobrir se elas estão comigo por dinheiro ou porque gostam de mim. Você, pelo menos, eu sei que é só pelo dinheiro mesmo. E tá tudo bem.
O Antônio voltou. Voltou muitas vezes. Às vezes, aparecia só querendo algumas horas comigo; outras, até para passar o fim de semana em sua casa de praia ou no interior. Isso era normal — com alguns clientes, eu viajava com frequência. Mas com ele... com ele foi diferente. E, quando percebi, já não era só um programa. Era uma espécie de amizade, carinho e, depois... depois, o conto de fadas aconteceu: eu me apaixonei por ele. E ele por mim.
Aos poucos, ele foi me tirando da agenda. Primeiro, parei de cobrar qualquer coisa dele. Eu não queria mais que ele se sentisse como um cliente. Mas também não podia deixar de trabalhar — era assim que eu pagava minhas contas. Até que, depois de uns seis meses, ele pediu. Pediu para eu parar e disse que me bancaria. Eu aceitei. Não porque quisesse deixar de trabalhar, mas porque, por ele, eu faria.
Eu não tinha problema nenhum em ganhar a vida do jeito que ganhava. Mas eu amava o Antônio — e não queria mais me deitar com nenhum homem que não fosse ele. Saí dos sites, troquei o número do meu celular e pensei que era hora de realmente mudar de vida. Para qualquer um, aquele seria o final feliz do meu conto de fadas. Mas a minha história com o Antônio só estava começando.
— Que isso, Jéssica? Que roupa é essa? Que coisa sem classe!— Sem classe? Você sabe o preço desse vestido? É de marca, viu?— Ai, ai! Por isso que eu sempre digo: dinheiro não quer dizer nada mesmo. Elegância não tem nada a ver com o preço de uma roupa, e sim com como você usa essa roupa. Você não pode ir com um vestido desses conhecer os meus pais.— Qual o problema do vestido, Antônio?— O problema é o tamanho, o decote, o conjunto... vestido curto demais, salto alto demais, maquiagem pesada demais... o problema é você estar vestida como uma...— Como uma o quê, Antônio? Vai, fala.— Você entendeu o que eu quis dizer. Meus pais são mais velhos, tradicionais, têm outra cabeça. Eu não quero que tenham uma impressão errada de você. Não esquece que, agora, você é outra.
"Outra"...
A Jéssica de quem ele tinha gostado e se apaixonado agora dava vergonha. E essa foi só a primeira vez que senti isso. Claro que ele já tinha me pedido para não contar o que eu fazia da vida, mas, além disso, ele me cortava toda vez que eu tentava falar alguma coisa. Dava para ver que ele morria de medo de eu dizer alguma besteira.
O Antônio inventou um personagem completo — criado nos mínimos detalhes. Eu era filha de um homem rico, morador de outro estado, e tinha vindo fazer faculdade de Odontologia.
— Que cara é essa, meu amor?— Filha de fazendeiro? Faculdade de Odontologia? Que isso, Antônio? Quando você ia me contar tudo isso?— Foi só uma mentirinha que criei ali, na hora. É só para evitar mais perguntas...— Antônio, só faltou você me dar outro nome.— Você queria o quê? Que eu falasse que você trabalha na rua? Que vai pra cama com qualquer um? Eu te amo, mas preciso que você entenda que o seu passado tem que ficar para trás. Aliás, não... ele tem que ser definitivamente apagado.
Eu entendia, sabe? Entendia o fato de ele não querer que os pais e os amigos soubessem no que eu trabalhava antes, ou quem eu era. Mas não era mais só sobre a minha profissão. O Antônio queria uma mulher totalmente diferente. Ele vivia tenso ao meu lado — com medo de que eu fizesse algo que ele não achasse certo. Me pediu para mudar o jeito de falar, de me vestir... até o jeito de pensar.
A mulher que ele dizia amar começou a ser moldada em uma nova versão: mais silenciosa, mais comportada.
E mais mentirosa.


