
Patricia e Gabriel
Band
Patrícia acreditava que estava construindo a própria família com Rodrigo, mas viu o sonho desmoronar quando ele confessou ter engravidado a vizinha e a deixou sozinha com o bebê. Sem apoio do ex-marido, foi o pai quem acolheu mãe e filho, assumindo o papel de verdadeiro pai. Leia o relato completo no Quem Ama Não Esquece, da Band FM, desta segunda-feira (11).
Nem toda família começa do jeito certo. Mas o que importa mesmo é quem escolhe ficar porque nem sempre a vida dá o que a gente sonha, mas ela ensina a valorizar o que realmente importa.

Patricia e Gabriel (Foto: Band FM)
Tudo começou antes mesmo de eu nascer... A minha mãe se envolveu com um homem que, ao descobrir a gravidez, simplesmente sumiu. Desapareceu do mapa e fugiu da responsabilidade sem nem olhar pra trás. O mais assustador é que ela só descobriu que estava grávida quando já estava com sete meses. Sete meses… e ficou sozinha. Sem apoio, sem ter para onde correr, sem ter onde dormir e nem dinheiro para comer.
A minha mãe foi uma guerreira. Ela podia ter se fechado pro mundo, podia ter desistido de acreditar nas pessoas, no amor, na vida.
Mas não.
Mesmo com tudo o que ela passou, ela continuou e seguiu em frente. E foi assim que, num dia comum, andando pela rua, ela ouviu uma voz vinda de uma obra. Era um pedreiro que começou a mexer com ela, chamar de linda, essas coisas. Na hora, a minha mãe fechou a cara e disse: “Um homem todo sujo de cimento, feio desse jeito, quer alguma coisa comigo? Tô fora!”.
Mas, o que era pra ser um “tô fora”, acabou virando amor.
No dia seguinte, ela passou outra vez em frente àquela obra e aí, a mágica aconteceu.
A minha mãe nunca escondeu isso de mim... Ela me contava com um brilho nos olhos que, naquele instante, quando ela realmente olhou para ele, ela sentiu... Foi amor à primeira vista. Rolou uma conexão forte entre eles. Tão forte que ela nem sabia explicar direito.
Ele se apresentou, disse que se chamava Custódio e, a partir daí, mesmo sabendo que ela estava grávida de outro homem, ele se aproximou.
Antes mesmo de eu nascer, eles já estavam casados de papel passado e tudo.
Meu pai escolheu ser meu pai
A minha mãe passava por muitas dificuldades naquela época. Tantas, que eu acabei nascendo antes da hora. Prematura e bem fraquinha. Eu precisei ficar dois meses no hospital e, durante esse tempo todo, foi o Custódio quem cuidou da gente. Ele não era o meu pai biológico, mas foi ele quem me acolheu. Foi ele quem me deu o sobrenome, quem me assumiu, quem me protegeu.
O Custódio escolheu ser o meu pai antes mesmo de eu nascer.
E isso… isso marcou a minha vida pra sempre.
Depois que a gente saiu do hospital, a dificuldade ainda batia na nossa porta todos os dias.
A gente não tinha casa, não tinha conforto, não tinha nada. Nós morávamos de favor na casa de amigos da minha mãe. Era um quarto apertado, com tudo improvisado… um colchão no chão, umas coisas emprestadas, mas ali dentro tinha algo que nenhuma riqueza podia comprar: amor e união.
Até que um dia, no meio de uma chuva forte, meus pais estavam andando comigo no colo, sem rumo, quando minha mãe viu um barraco abandonado.
Era só um amontoado de madeira velha e umas telhas quebradas, quase nada protegia ali de verdade. Quando a gente entrou, tinha um homem usando droga lá dentro e a minha mãe, com toda coragem do mundo, perguntou se a gente podia ficar ali só até a chuva passar. O homem acabou indo embora e os meus pais aproveitaram que ele tinha saído e nós passamos a noite ali.
O início de um lar simples, mas cheio de amor
Pode parecer pouco pra muita gente… Mas pra quem não tinha onde cair morto, aquilo se tornou uma oportunidade. O meu pai viu ali uma possibilidade, uma chance, e decidiu que ia transformar aquele lugar em um lar para nossa família.
Ele nem quis perder tempo. Já no dia seguinte, começou a quebrar o que dava, reaproveitar o que podia. Ali mesmo, naquele barraco abandonado, ele encontrou pedaços de madeira, alguns tijolos, telhas soltas… E foi com aquilo que ele construiu os primeiros cômodos da nossa casa.
Foi nesse cantinho simples, mas cheio de amor, que eu cresci, ganhei duas irmãs e descobri o que era ter um pai de verdade. E, mesmo com tantas dificuldades, a gente era feliz. Muito feliz.
Aos 13 anos, a gente se mudou pra outra cidade. O meu pai tinha conseguido comprar um terreno, simples, mas que era nosso. E, pela primeira vez, moramos numa casa de verdade.
Foi ele quem construiu tudo do zero, com as próprias mãos e muito suor.
A minha infância foi assim: sem luxo, mas cheia de amor. Meus pais faziam de tudo pra nos dar o melhor que podiam. Eu cresci, estudei, me formei… E foi aos 18 anos que eu conheci o Rodrigo.
Quando o amor se tornou dor
Era um fim de tarde, eu tava subindo a ladeira de casa, quando a gente se viu pela primeira vez.
— Nossa, essa ladeira mata todo mundo, né?
— E eu subo todos os dias, acredita?
— Jura? Eu também! E eu nunca te vi por aqui. Onde você mora?
— Ali ó. Só terminar a subida e já é logo ali na frente.
— E eu posso te acompanhar até em casa?
O Rodrigo me encantou logo de cara. Ele era engraçado, brincalhão e gentil. A gente trocou telefone e, dali em diante, não se passou um dia sem que a gente se falasse ou se encontrasse.
Nós começamos a namorar e logo veio a vontade de morar junto. Mas eu tinha só 18 anos e, mesmo querendo muito aquilo, eu senti que precisava pedir a bênção dos meus pais.
Eu apresentei o Rodrigo, que eles nem conheciam ainda, expliquei onde a gente pretendia morar e, apesar da insegurança que eu vi no olhar deles, eles disseram que iam me apoiar no que eu escolhesse para a minha vida.
Eu achei que tava começando um novo capítulo da minha vida, que eu ia ter a minha casa e minha família, mas não foi isso o que aconteceu.
Logo no primeiro dia. Na primeira noite que era pra gente dormir junto, ele chegou em casa bêbado depois do trabalho, jogou a mochila no sofá e, quando eu tentei conversar com ele...
— Patricia, por favor... fica quietinha, vai. Eu tô super cansado. Outra hora a gente conversa.
— Mas, Rodrigo, era para ser o nosso primeiro dia juntos na nossa casinha e você chega nesse estado?
— Pelo amor de Deus, mulher. Não começa a me encher logo no primeiro dia. Tenha santa paciência.
Eu fiquei muda. Assustada. E, no fundo, eu queria tanto que a gente desse certo que, naquele momento, eu pensei que talvez eu tivesse que aguentar, que talvez pudesse ser normal, que talvez eu estivesse exagerando. Era isso que passava pela minha cabeça.
Mas, com o tempo, eu fui percebendo que esse "talvez" só me tava me cegando.
A cada dia, a cada mês, a nossa convivência só piorava. Ele já nem fazia questão de esconder. O Rodrigo começou a sumir nos finais de semana, dizia que ia sair com os amigos, mas não dava explicação nenhuma, voltava só no outro dia, com cheiro forte de cigarro, cachaça, sujo... E eu ali, esperando angustiada, sem saber se ele estava bem, onde estava, com quem estava.
Se eu reclamava, ele gritava. Se eu demonstrasse desconfiança, ele dizia que eu tava sendo louca, que eu criava coisa na minha cabeça.
Eu também não vou dizer que só tinham momentos ruins. Não... Nem sempre ele tava assim. Tinha dia bom... Era nesses dias bons que eu aproveitava o meu marido de verdade e eram nesses dias que eu ainda tinha esperança de que tudo ia ficar bem.
Mas a verdade é que foram 5 anos assim, vivendo de migalhas. E tudo só piorou quando aquele teste de farmácia deu positivo. Na hora, o meu coração congelou.
Eu sabia que a nossa relação já não era boa, sabia que eu vivia mais sozinha do que acompanhada, mas, lá no fundo, existia uma esperança boba de que, com a notícia de um filho, ele pudesse mudar.
Pelo menos, assumir a responsabilidade. Mas não foi isso o que aconteceu. Muito pelo contrário.
Quando eu contei, ele surtou. Surtou e perdeu completamente a cabeça.
Disse que eu tava armando aquilo, que eu tinha feito de propósito, que eu queria prender ele com um filho. E não parou por aí. Ele ainda me ameaçou e chegou a dizer que ia me bater.
A partir dali, qualquer resquício de amor, de cuidado, de consideração… desapareceu. Foi como se ele tivesse tirado a máscara. E eu enxerguei, pela primeira vez, quem realmente tava ao meu lado.
Abandono e recomeço com apoio do verdadeiro pai
Eu me sentia muito mal. Física e emocionalmente. Tinha dias em que eu não conseguia levantar da cama. Tontura, fraqueza, tristeza, tudo misturado.
A pessoa que mais me ajudou naquela época foi a dona da casa onde a gente morava. Ela até me dava comida porque o Rodrigo dizia que não era obrigação dele bancar mulher. Isso mesmo eu estando grávida de um filho dele. Olha, eu passei muita necessidade. Muita mesmo.
Mesmo assim, eu achava que tava sendo forte e que ia aguentar tudo sozinha.
Mas um dia, eu comecei a ter um mal-estar muito forte. Eu fui para o banheiro e vi que... que eu tava sangrando. Sangrando muito. Eu entrei em desespero e fui correndo para o hospital e lá o médico disse que era uma ameaça de aborto. Ele me medicou e me mandou fazer repouso para não perder o bebê.
Eu nunca vou esquecer do quanto eu tremia naquele dia. Eu voltei pra casa com o coração na mão e expliquei para o Rodrigo o que o médico tinha me dito e o remédio que tinha que comprar.
Ele me olhou com uma cara de desprezo e a única coisa que conseguiu falar foi: “Você sabe quanto esse remédio custa? Daqui a pouco vai querer ter seu filho em um hotel cinco estrelas…”.
Eu fiquei muda e, por muitos dias, chorei escondida no banheiro. Mas eu engolia tudo e me forçava a ser forte porque eu tinha o meu filho na minha barriga e, por ele, eu aguentaria tudo.
Até que chegou o grande dia... o nascimento do meu filho.
Graças a Deus, eu consegui levar a gestação até o fim e deu tudo certo no parto. O Gabriel nasceu forte, lindo, cheio de vida. Para mim, pegar o meu filho nos braços foi o melhor dia da minha vida!
Mas, ao mesmo tempo, doía porque, enquanto eu chorava de emoção, o Rodrigo nem sequer estava ali. E, por mais que eu tentasse ser forte, pesava demais saber que o meu filho tinha um pai tão ausente, tão frio.
Depois do nascimento do Gabriel, o Rodrigo ficou ainda mais distante. Ele sumia por dias, voltava calado, dormia fora cada vez com mais frequência.
Até que um dia, ele chegou, me chamou pra conversar. O Gabriel tinha 4 meses na época.
— Sabe a Roseline?
— A vizinha?
— É... tá grávida.
— E por que essa cara, Rodrigo?
— A filha é minha...
— Você engravidou a vizinha enquanto eu tava de resguardo? Enquanto eu cuidava do nosso filho?
— Eu tô indo morar com ela, Patrícia.
E ele simplesmente foi embora. Assim, sem olhar pra trás.
Eu fiquei ali parada, com o Gabriel no colo, sem conseguir entender o que tinha acabado de acontecer. Eu não tive forças nem pra gritar, pra pedir pra ele ficar, pra questionar… nada.
Eu só chorei. Chorei como uma criança assustada.
Naquela noite, eu entendi a dor da minha mãe e me vi exatamente onde ela esteve. Sozinha, com um bebê nos braços, abandonada por quem prometeu ficar. O Rodrigo foi embora e deixou um vazio tão grande que até hoje eu tenho dificuldade de descrever.
Depois de alguns dias, eu criei coragem e contei tudo o que tinha acontecido para os meus pais.
O meu pai, mais uma vez, me pegou no colo e me acolheu.
Eu voltei para a casa deles com o Gabriel no colo e, quando eu cheguei, eles já tinham preparado a parte de cima da casa para mim. Eles me deram teto, colo, comida, mas, acima de tudo, me deram força.
Quem me ajudou a criar o meu filho foi o meu pai e, até hoje, o Gabriel tem por ele um respeito que dá gosto de ver.
Hoje em dia, depois de tanto tempo, quando eu olho para trás, eu entendo que foi melhor assim porque o meu filho cresceu vendo de perto o que é ser um pai de verdade.
O Rodrigo, por outro lado, desde o dia em que me deixou, ele nunca mais procurou a gente. Nunca ligou pra saber como o filho dele estava, nunca perguntou se precisava de alguma coisa. Nada.
É como dizem: pai é quem cria. E eu acredito demais nisso. Quem realmente esteve do nosso lado foi o meu pai. Ele me criou com amor e foi ele também quem criou o meu filho. Deu colo, deu sustento, deu exemplo. Ser pai vai muito além de colocar um filho no mundo. Ser pai é amar, proteger, cuidar. É estar presente nos momentos bons e ruins.
Hoje, estou com 43 anos e o meu filho já está com 22 anos, casado e seguiu o caminho dele.
Eu tenho muito orgulho da pessoa que ele se tornou.
Eu ainda continuo solteira e confesso que tenho muito medo de viver tudo que eu sofri de novo. Às vezes, eu penso que não exista alguém que irá me amar de verdade.
Mas quem sabe um dia Deus coloque um homem no meu caminho, com um coração bom?
Enquanto isso, sigo cuidando de mim… porque depois de tanta coisa, a gente nunca volta a ser quem era, mas pode escolher quem quer ser a partir da dor.
E eu escolhi ser forte.

Patricia e Gabriel (Foto: Band FM)
Texto gerado artificialmente e revisado por Band.com.br.


