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Mulher relata perda trágica de dois filhos: "Nunca mais vou me recuperar"

Juscimara enfrentou tragédias irreparáveis, traições e abusos, mas encontrou forças para seguir

Da redação
DA REDAÇÃO

18/08/2025 • 11:22 • Atualizado em 18/08/2025 • 11:22

Juscimara e a filha, Anny

Juscimara e a filha, Anny

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Juscimara conheceu Valter na beira da estrada e, em um impulso, decidiu ir embora com ele para começar uma nova vida. O que parecia um recomeço logo se transformou em uma sucessão de tragédias inimagináveis, marcadas pela perda de seus dois filhos, Davi e Anny, e por traições que testaram todos os seus limites. Em meio à dor avassaladora do luto, ela precisou encontrar forças para sobreviver ao abandono e à mais chocante das revelações. Leia o relato completo no Quem Ama Não Esquece, da Band FM, desta segunda-feira, 18 de agosto.

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Eu conheci o Valter vendendo água na beira da estrada. Durante muito tempo, foi isso o que me sustentou. Eu acordava cedinho todos os dias, enchia minha sacola com garrafas e ia tentar garantir o mínimo para sobreviver. Era puxado, mas era o que eu tinha. E o Valter, que era caminhoneiro, um dia passou por ali.

— O que uma mulher tão linda tá fazendo aqui, debaixo desse Sol todo?

— Alguém tem que trabalhar, né?

— Não. Isso não tá certo. Um homem de verdade não deixaria uma mulher como você trabalhar aqui. Vem embora comigo... Eu te ajudo.

Foi assim, na loucura, mas eu aceitei ir embora com ele. Nós fomos morar em Minas Gerais e lá começamos nossa vida do zero em uma casinha simples. Algum tempo depois, eu descobri que estava grávida do Davi... Eu e o Valter éramos muito novos, imaturos, inconsequentes e, por mais que isso explique algumas atitudes, eu sei que não justifica a falta de responsabilidade que a gente teve, principalmente com o nosso filho. E eu digo isso porque até hoje eu carrego uma culpa que me sufoca. E eu sei que nunca vou conseguir me perdoar...

O último sorriso do meu filho

.Naquela noite em que tudo aconteceu, o Valter não voltou pra casa. Ele passou a madrugada inteira fora e só apareceu quando o dia já tava claro e ainda por cima bêbado. O meu filho, que sempre foi apaixonado por motos, correu até o pai assim que o viu chegar, e começou a insistir para dar uma volta com ele. Eu tentei impedir, pedi, implorei, disse que não era uma boa ideia, que o Valter não estava em condições. Mas ele não me ouviu e eu, com medo do que poderia acontecer, decidi ir junto. Nós subimos na moto, e meu filho ficou todo feliz, com um sorriso de orelha a orelha. Eu mal podia imaginar que aquele seria o último sorriso do meu filho.

A gente estava em uma avenida bem movimentada e, de repente, tudo aconteceu rápido demais… Ele perdeu o controle da moto e bateu. Na hora, tudo escureceu para mim. Eu não lembro de nada do acidente. Bati a cabeça, quebrei a perna e passei quatro dias em coma. O Valter, por incrível que pareça, saiu só com alguns arranhões. Fisicamente, ele tava bem, mas depois me contaram que ele entrou em desespero porque teve que lidar com tudo... chamar socorro, falar com a polícia, me acompanhar até o hospital… e, ao mesmo tempo, enfrentar a pior parte: A morte do nosso filho.

É... O Davi não resistiu a batida e assim que nós três caímos da moto, ele... ele se foi. Foi o Valter quem teve que reconhecer o corpo do nosso filho. Foi ele quem cuidou sozinho de fazer a liberação, velório, enterro… Tudo enquanto eu ainda tava em coma. E quando eu acordei, eu não sabia absolutamente nada do que tinha acontecido. O próprio Valter quem me contou que ele... ele tinha acabado de enterrar o nosso filho.

Foi uma dor impossível de descrever. Saber que ele se foi enquanto eu tava inconsciente, que eu não pude segurar a mãozinha dele, não pude dizer nada, não pude nem me despedir… Foi como se tivessem arrancado um pedaço de mim, um pedaço que nunca mais vou recuperar.

Eu fiquei em choque e durante todo aquele processo de luto, o que eu mais precisava era de apoio, de um abraço, de alguém que estivesse ao meu lado, mas o Valter não foi esse alguém. Ele, na verdade, se afastou. Em vez de me acolher, ele simplesmente ignorou a dor que me consumia. Pelo contrário... Ele começou a chegar em casa diferente, alterado, e às vezes com marcas no pescoço. Eu fingia não ver, porque nem forças eu tinha para perguntar. Eu ainda tava sofrendo muito e tudo o que eu fiz, diante daquilo, foi ficar quieta.

Eu engoli tudo, tolerei tudo, aceitei tudo, porque, no fundo, eu também achava que não tava sendo a esposa que ele precisava. Eu estava destruída e me sentia insuficiente até para existir. Mas nos poucos dias em que eu tentava criar coragem para levantar da cama, O Valter dava um jeito de me por para baixo.

"A culpa pela morte do Davi é sua"

Depois de tanto tempo presa, vivendo no luto e trancada dentro de casa, eu descobri que estava grávida. Foi uma mistura estranha de medo e esperança. Como se, de repente, o mundo tivesse colocado uma nova chance na minha frente, mesmo quando eu achava que não tinha mais jeito. Foi um sopro de vida. E eu pensei que as coisas poderiam realmente melhorar. Mas um dia, eu tava em casa, preparando as coisinhas para a chegada da minha filha quando a campainha tocou. Quando eu abri a porta, vi uma mulher parada. Ela foi direta e disse que tava ali porque queria a pensão para o filho dela. E ainda disse que... disse que o pai era o meu marido. Eu fiquei sem reação e tudo o que consegui responder foi: "Tá bom. E vou falar para ele". Depois eu fiquei lá, esperando o Valter chegar, para que ele me desse, no mínimo, uma justificativa.

— Tá. E agora? Você quer que eu fale o quê?

— Como você teve coragem de me trair enquanto eu tava lutando para simplesmente continuar viva?

— Ah, Juscimara! Você sabe muito bem que eu fiz de tudo...

— ... Fez de tudo o quê? Até hoje eu tenho certeza que a culpa é sua pela morte do Davi.

— Para de falar isso! Foi um acidente. UM A-CI-DEN-TE.

Depois de tanto tempo sem coragem para falar, naquele dia eu finalmente disse para o Valter tudo o que estava entalado. Eu precisava colocar pra fora se não, eu ia explodir. Eu nem sei dizer se o que eu senti foi raiva, tristeza ou culpa... talvez tenha sido tudo ao mesmo tempo. E depois disso, a gente se distanciou de vez. Ainda assim, eu segui firme com a gravidez, agarrada à esperança que a Anny me dava. E quando minha princesinha nasceu, foi como se Deus me desse uma nova chance de viver.

Eu não vou mentir… no começo, o Valter até tentou. Brincou com a Anny, deu colo, fez umas gracinhas, como se quisesse mostrar que tava presente. Mas presença de verdade não é só estar no mesmo cômodo. É estar de corpo e alma. E ele não tava... Quando não vem de dentro, não é real.

Aos poucos, ele foi se afastando e, mesmo quando tava em casa, era como se não estivesse. Toda vez que eu tentava me aproximar, ele me recebia com palavras duras. Muitas vezes, ele me mandava sair de perto, como se só a minha presença já fosse um incômodo. E quando eu dizia que tava cansada daquilo e que queria me separar, ele jogava na minha cara que eu era sozinha no mundo e que se a gente se separasse, ninguém mais ia me querer, como se fosse um favor ele ainda estar ali. Como se eu devesse agradecer por ainda ter a companhia dele.

A traição com nosso amigo

Eu só queria dar uma vida boa para a minha filha e hoje... Hoje eu vejo que Deus foi bom comigo. Ele, mais uma vez, colocou a verdade bem na minha frente... Foi um dia em que eu percebi que o Valter tinha esquecido a marmita e resolvi levar para ele no trabalho. Mas assim que eu cheguei no galpão, e dei de cara com o Valter.. o Valter me traindo com um amigo nosso. O Valter, me traindo com outro homem.

— O que você tá fazendo aqui, Juscimara? Não era para você estar em casa?

— Você tá me traindo com... com o João?

— Sai daqui, Juscimara.

— E você, João... é outro que não tem vergonha na cara né? Até comer na minha casa, você já comeu.

— Juscimara, não se mete nisso. Vai embora daqui. Sai daqui. Agora.

Decepcionada e com raiva. Foi exatamente assim que me senti. O sangue ferveu e eu comecei a discutir, a gritar, sem acreditar no que eu tinha visto. E, no meio de tudo, o Valter ainda teve a coragem de vir pra cima de mim, enquanto eu tava com a nossa filha nos braços. Aquilo foi o limite. A gota d’água. Eu sabia que não tinha mais volta e ali mesmo decidi: eu não queria, e não ia, ver a cara do Valter nunca mais. Era hora de sair daquela situação. Por mim e pela minha filha. Eu voltei para casa, peguei minhas coisas e separei as roupinhas da minha filha com o coração apertado porque ela não merecia ter um pai como ele.

Com a Anny no colo, eu subi no primeiro ônibus e fui para São Paulo. Quando eu cheguei, uma prima me acolheu e eu comecei a reconstruir minha vida. Eu consegui um trabalho como auxiliar de limpeza e aos poucos as coisas foram se organizando. Mas, quando a Anny tinha 1 ano e 8 meses, a nossa vida virou de cabeça para baixo quando, do nada, ela começou a passar muito mal.

Eu entrei em desespero e corri com ela para o pronto-socorro e depois de alguns exames, me disseram que a minha filha tinha uma cardiopatia... um problema no coração. A partir daquele dia, nossa rotina se transformou em uma sequência de idas e vindas ao médico, exames, internações e uma esperança que eu me agarrava todos os dias para não desmoronar.

Os dias foram passando e, com muita luta, eu consegui o tratamento pra ela. A Anny precisou ficar internada e eu via nos olhos dela que aquela menina alegre estava murchando. Aquilo me destruía! Eu estive ao lado da minha filha dia e noite, só que, no meio disso, acabei perdendo o emprego porque era impossível conciliar o trabalho com as idas ao hospital.

Depois de 56 longos dias, finalmente veio a alta tão esperada. O médico disse para continuar o tratamento em casa e tomar um remédio que eu não tinha condições de comprar. Eu tinha acabado de ficar desempregada e a única saída que me restou foi engolir o orgulho e ligar para o Valter. Eu liguei inúmeras vezes, mandei mensagens contando a situação, depois de tanto tempo sem a gente se falar. Eu ainda enviei as fotos dos exames, receitas, laudos médicos…e a resposta que recebi foi simplesmente: “Se vira.”. Eu nunca mais procurei nenhuma ajuda dele.

A única saída que encontrei foi trabalhar por conta própria, para poder cuidar da minha filha de perto. Eu fazia serviços como manicure, cabeleireira, maquiadora…e, assim, fui sobrevivendo, um dia de cada vez. Aos poucos, fui me reerguendo e a Anny cresceu saudável, cheia de vida e se tornou uma menina inteligente, estudiosa e criativa. Ela amava desenhar, pintar, dançar, inventar coreografias. Quando ela completou 7 anos, ganhou uma festinha simples, mas naquele dia, eu prometi que no aniversário de 8 anos, ela teria uma super festa. E foi justamente nessa fase, quando tudo parecia, enfim, entrar nos eixos, que o Danilo apareceu.

Foi tudo muito rápido. A gente se conheceu, começou a a namorar e, 2 meses depois, eu descobri que estava grávida. Na hora foi uma alegria pra todo mundo, inclusive para a Anny, que ficou feliz de ganhar um irmãozinho. Nós fomos morar juntos na casa dos pais dele, que sempre nos trataram muito bem e, ainda grávida, nós noivamos e casamos.

O mundo parou com o coração dela

Tudo parecia perfeito… até chegar o dia 10 de dezembro. Esse foi o dia em que minha vida virou, mais uma vez, do avesso. A gente tava em casa, e a Anny começou a passar muito mal. Eu não entendia o que estava acontecendo, só via que ela tentava respirar e não conseguia.

Eu peguei minha filha no colo e saí correndo para a UPA, pedindo a Deus que não fosse nada grave. Quando nós chegamos, os médicos me disseram que ela tinha tido uma parada cardiorrespiratória e naquele instante, tudo ao meu redor ficou em silêncio, como se o mundo tivesse parado junto com o coração da minha filha. Eu não conseguia entender direito o que tava acontecendo. Eles entubaram a Anny na mesma hora e a transferiram para a UTI, mas foi tudo tão rápido, tão desesperador…

No hospital, ela teve 7 paradas cardíacas. 7 vezes o coraçãozinho dela parou. E, na última, às 19h42, ele... ele não voltou mais. Eu tava ali, de pé, vendo minha filha partir diante dos meus olhos. Não existe dor que se compare... Em poucos segundos, eu perdi o amor da minha vida. A Anny era minha luz. Minha força. Era ela quem me dava motivos para continuar, mesmo quando tudo parecia desabar. Com ela, eu construí sonhos, vivi momentos de alegria, enfrentei batalhas e superei dificuldades que pareciam impossíveis. E, de repente… ela se foi.

Depois que minha filha morreu, eu afundei numa depressão profunda. E a vida, como se não tivesse me tirado o suficiente, arrancou mais um pedaço de mim. Cerca de um mês depois da partida da Anny, eu sofri um aborto. Eu já tava com cinco meses de gestação. Foi como reviver a perda, como sentir a mesma ferida sendo aberta de novo. Depois, eu ainda precisei retirar o útero por conta de hemorragia. Ali, eu entendi que nunca mais poderia ser mãe… e, no fundo, senti que era o meu próprio corpo desistindo também.

Já se passaram cinco anos, mas a dor nunca foi embora de verdade. São cinco anos tentando reaprender a viver, um dia de cada vez. As lembranças dela estão em todos os cantos: nos brinquedos guardados, nas músicas que ela cantava, nas comidas que amava. Às vezes, eu ainda escuto a voz dela em pensamento, como se estivesse bem aqui, me chamando. A Anny Beatriz era uma criança cheia de personalidade, gostava de enfeitar o cabelo com laços coloridos, cantar as músicas da Maiara e Maraísa, era criativa, inteligente, alegre e sonhava em ser policial e bailarina ao mesmo tempo e, conhecendo minha filha, eu sei que ela teria conseguido ser o que ela quisesse.

As lembranças ficaram e hoje eu sigo tentando viver. Mas viver sem ela é como respirar pela metade, é carregar um vazio que nada nesse mundo consegue preencher.

Só que eu prometi para a Anny, quando segurei as mãozinhas dela pela última vez, que eu tentaria seguir em frente. E eu tento… todos os dias porque a verdade é que ela continua vivendo em mim. E sempre vai viver. Meu anjinho, minha eterna filha... Anny.

Texto gerado artificialmente e revisado por Band.com.br.

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