
Especialista explica como impor limites à autocobrança e resgatar o equilíbrio entre as exigências do trabalho e a necessidade de descanso
Foto: Rafaela Oliveira
No mundo atual, a linha que separa o trabalho do lazer tornou-se quase invisível. Para o produtor de podcast e fotógrafo Guilherme Gandolfi, de 31 anos, e a funcionária pública Ana Clara Santos, de 26, o fim do expediente não traz necessariamente sossego. Ele confessa que a fronteira desapareceu: “mesmo no tempo livre, costumo me sentir culpado”. Ela compartilha da mesma angústia: em casa, ela planeja como resolver pendências do trabalho no tempo em que está "parada".
Essa sensação não é um erro individual, mas o sintoma de uma mudança estrutural. A psicóloga Carolina Filigoi explica que migramos da "sociedade disciplinar", de ordens externas, para a “sociedade do desempenho”. Baseada na filosofia de Byung-Chul Han, ela detalha que o antigo imperativo do "não pode" deu lugar ao sedutor "você pode mais".
Ninguém precisa me vigiar porque eu me vigio sozinho, o tempo todo. O descanso vira suspeita de baixa produtividade.
— Carolina Filigoi, psicóloga

Carolina Filigoi, psicóloga que faz atendimentos voltados à saúde mental e redução de danos
Crédito: Arquivo pessoal
A armadilha da eficiência tecnológica
Nesse cenário, muitos acreditam que a Inteligência Artificial (IA) traria o alívio de horas extras, mas a realidade mostra o contrário. Guilherme Gandolfi utiliza a tecnologia para transcrever áudios e editar fotos, tarefas que antes consumiam horas de trabalho manual. Ana também incorporou a IA em sua rotina de forma estratégica: ela aponta a câmera do celular para documentos impressos para convertê-los em texto editável, eliminando o tempo que gastaria digitando, e utiliza ferramentas para elaborar comunicados e e-mails personalizados para diferentes públicos, como pais, professores e alunos.
No entanto, em vez de gerar descanso, essa agilidade cria um vácuo produtivo que é rapidamente preenchido.
Ferramentas como a IA não entregam tempo livre porque não foram feitas para isso. Toda economia de tempo é imediatamente reinvestida em mais produção. A eficiência não abre a possibilidade de ócio, ela só sobe a régua.
— Carolina Filigoi, psicóloga
Segundo a especialista, a tecnologia acaba aumentando a expectativa sobre o que um indivíduo é capaz de entregar. No tempo que "sobra", o trabalhador sente que sempre cabe "mais um projeto" ou um trabalho freelance, transformando o que deveria ser um alívio tecnológico em uma nova e sofisticada forma de cobrança.
O peso do sucesso e a vida "editada"
A pressão é aprofundada pelo mito do self-made man, onde o sucesso é vendido como conquista individual e o cansaço como falha pessoal. Ana relata a cobrança pelo sucesso precoce — ter casa e carro antes dos 30 — alimentada por vidas "editadas" em redes sociais. Para ela, isso gera um "prazo de validade", uma ansiedade constante de estar ficando para trás.
Trabalho para 'não ver a cor do dinheiro'. Fica o sentimento de que estou trabalhando, mas não estou vivendo.
— Ana, 26 anos
Essa exaustão reflete o que o professor João Batista Ferreira chama de “necroliberalismo”: um sistema onde a vida humana é submetida a uma lógica de cálculo e descarte.
Até o alívio virou mercado. O Brasil movimenta bilhões no setor de bem-estar, mas Guilherme Gandolfi critica a superficialidade: “há mais preocupação com a aparência da saúde do que com as pessoas estarem bem”. Carolina Filigoi alerta que o lema "cuide-se para render mais" transforma o autocuidado em mais uma cobrança produtiva.
Para suportar o ritmo, a medicalização vira regra. Enquanto Guilherme já recorreu a suplementos, Ana faz tratamento para ansiedade e depressão, utilizando estimulantes para conseguir focar no trabalho.
O maior problema é vender como solução individual um sofrimento que é coletivo. O mercado oferece o remédio, mas mantém a causa.
— Carolina Filigoi, psicóloga
Como não ser engolido pelo sistema?
A saída para o esgotamento não reside em uma recusa heroica de romper com o mundo, o que quase sempre exaure quem tenta, mas sim na construção estratégica de “pequenas brechas” no cotidiano, defende Carolina Filigoi. Essas brechas são entendidas como espaços "miúdos" por onde a vida escapa à lógica da produtividade, permitindo que se “abram buracos” no sistema para respirar por conta própria e reivindicar um tempo que não precisa render lucro.
Na prática, Guilherme Gandolfi materializa essa resistência ao buscar refúgio na fotografia como expressão artística, utilizando-a para desacelerar e estar genuinamente presente no momento. Ele também investe na redução do tempo de tela, priorizando encontros presenciais e o consumo de audiobooks para desvincular o lazer da vigilância digital. Em uma dessas “fugas”, ele se aventurou em um campo de girassóis:
Já a servidora pública Ana Clara Santos, conta que utiliza aplicativos de organização para não esquecer tarefas, tenta focar em fazer coisas que lhe animam e estar perto de pessoas que a fazem bem e se lembram que a vida é boa. Além disso, ela se esforça para não se comparar com o "palco" alheio das redes:
A terapia me ajuda a lembrar que eu não preciso ser perfeita e que não posso comparar o meu processo com o do outro.

Parcelado em mais vezes do que gostaria, Ana relata que uma conquista importante é ir novamente ao show do Luan Santana
Crédito: Arquivo pessoal
Para Carolina Filigoi, a resistência está em reivindicar um tempo que não precisa render e cultivar vínculos que não servem para nada além de serem vivos. Como diz Ana, é estar perto de pessoas que a lembram de que "ninguém está competindo".


