Band Multi
Campinas e Região

Mensagem Não Lida

Por Redação
REDAÇÃO

29/06/2026 • 10:42 • Atualizado em 29/06/2026 • 10:42

Alê Migliari
Imagem de famílias

Imagem de famílias

Reprodução/Internet

No último dia 25 de maio, comemoramos no Brasil o Dia Nacional da Adoção, um assunto que, para mim, tem uma profundidade visceral, porque foi por meio da adoção que tive o privilégio de me tornar pai.

Compartilhar

A adoção não é um conto de fadas instantâneo. Não mesmo.

Vivemos uma época curiosa. As pessoas sabem exatamente quando um famoso terminou um namoro, qual restaurante virou moda e quantas curtidas recebeu uma fotografia qualquer. Mas já não sabem olhar demoradamente para certas dores humanas.

Talvez porque sentir exige tempo. Exige que você se abandone por alguns momentos para sentar no lugar do outro. E nós desaprendemos o tempo.

O Dia Nacional da Adoção quase passa despercebido entre notificações, promoções e vídeos curtos. Mas, por trás dessa data, existem crianças esperando. E muitas. Existe também algo sobre o qual pouca gente fala: a adoção real não se parece com os comerciais emocionantes de televisão.

Ela não acontece em câmera lenta ao som de um piano. Porque adoção não é mágica instantânea. É construção. É uma tela em branco recebendo o primeiro esboço.

crianças que chegam trazendo medo. Outras chegam trazendo silêncio. Algumas testam limites, não por maldade, mas porque aprenderam cedo demais que o amor, às vezes, vai embora.

E há adultos também assustados. Pessoas que imaginavam que amar seria automático e descobrem, com culpa e espanto, que o amor verdadeiro nem sempre nasce pronto. Às vezes, ele começa pequeno. Quase tímido. Como uma luz acesa no corredor durante a madrugada.

E talvez esteja tudo bem admitir isso.

Vivemos num mundo que romantiza demais os sentimentos e conversa de menos sobre os processos. Criou-se a ideia de que famílias deveriam nascer completas. Mas quase nenhuma nasce.

Família é obra em andamento. É gente aprendendo a linguagem emocional uns dos outros. É convivência. É insistência. É permanência. É descobrir, aos poucos, que amar alguém também significa permanecer sentado ao lado dele ou dela nos dias difíceis.

A adoção talvez seja uma das formas mais profundas de coragem humana. Porque ela obriga duas histórias feridas a tentarem escrever um novo começo juntas.

E isso nem sempre vem acompanhado de finais perfeitos, fotografias emocionantes ou frases prontas para redes sociais. Às vezes, vem acompanhado apenas de pequenos sinais:

Um "boa noite" dito pela primeira vez sem desconfiança.

Uma criança que começa a dormir em paz.

Um abraço espontâneo na cozinha.

Alguém que finalmente entende que não será devolvido.

Talvez o amor verdadeiro seja menos explosão e mais permanência. Menos encanto imediato e mais escolha diária.

No fundo, adoção é isso: duas solidões aprendendo, lentamente, a chamar uma à outra de lar.

Alexsandro Migliari

Newsletter Notícias

Inscreva-se na nossa newsletter e receba as notícias mais importantes do dia direto no seu e-mail.

Selecione os seus temas favoritos:

Tópicos relacionados