A capacidade de estar só

Por Redação
REDAÇÃO

11/05/2023 • 08:58 • Atualizado em 11/05/2023 • 08:58

Os Nós da Mente
A capacidade de estar só

A capacidade de estar só

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Márcia Uehara, psicanalista e empreendedora em tecnologia - @marcia.uehara

*Os nomes e casos aqui são fictícios, não se referem a nenhuma pessoa específica. A palavra “mãe” refere-se à “função materna”, que pode ser exercida por qualquer cuidador, independente de gênero ou grau de parentesco.

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João chega do trabalho, senta-se no sofá, tira os sapatos, liga a TV em volume alto e passa horas rolando os stories e checando o WhatsApp. Ele não suporta a casa em silêncio e a ideia de não fazer nada, ficar sozinho consigo mesmo.

Maria enviou uma mensagem ao namorado e ele está demorando para responder. Ela sempre reclama com ele sobre isso, mas ele alega que está trabalhando e não pode ficar respondendo quando ela quer. Seus pensamentos ficam girando em torno de fantasias sobre uma possível traição.

José precisa tirar férias porque a empresa não o deixa mais postergá-las. Está angustiado pois não tem companhia para o lazer. Não consegue pensar na hipótese de ir ao cinema sozinho, quanto mais viajar sem companhia. Além disso, como vai monitorar os seus funcionários? Sofre muito só de pensar em ficar de fora dos acontecimentos no escritório.

João, Maria e José podem ser seus vizinhos, primos, colegas de trabalho, irmãos. Em todos os lugares do mundo, cenas similares a estas estão se repetindo neste exato momento.

Em 1958, Donald Winnicott , pediatra e psicanalista inglês escreveu que a capacidade para estar só é um dos sinais mais importantes do amadurecimento emocional de uma criança. É quando ela conseguiu superar a fase de necessitar da mãe como se fosse parte dela (dependência absoluta) e passa a conseguir ficar só, na presença dela, (dependência relativa). Quando ela confia no ambiente, na sustentação das pessoas à volta, consegue brincar tranquila, relaxada e vez ou outra olha em direção à mãe para se certificar de que ela permanece lá. Passos estruturantes rumo à independência futura.

Trata-se de um processo: a mãe apresenta o filho ao mundo em doses homeopáticas. Para se chegar nesse ponto de suportar uma ausência, é preciso que antes tenha havido uma presença. É possível ficar só porque é como se a mãe vivesse dentro dele, os cuidados dela estão marcados nele.

Winnicott teorizou sensivelmente os termos Holding e Handling, quando todo um ambiente segura e sustenta o bebê, integrando-o ao espaço/tempo, psíquica e fisicamente, num manejo acolhedor e que dá contorno à criança. São cuidados referentes à maternagem essencial juntamente com a importância do “brincar” na vida das crianças. Tudo, absolutamente tudo, contribui para um amadurecimento psíquico saudável, estruturante e falhas ambientais nesta fase podem incorrer em diversos sintomas na vida adulta.

O que acontece nos primeiros três anos de vida vão impactar seriamente dos quatro aos 100, caso se chegue lá, tamanha a importância dessa fase para o ser humano.

Na vida adulta, a capacidade de estar só se mostra quando conseguimos ler um livro na presença de outra pessoa , ficar cada um na sua solidão contemplativa depois da relação sexual, ficar sozinho relaxado em silêncio, sem fazer nada por vários minutos ou horas, suportar a ausência de notícias de cônjuges, amantes, filhos, chefes, colegas, professores, gente relevante naquele momento da vida. Essa ausência só é possível porque já houve alguma presença.

João, Maria e José podem estar numa semana ou mês difícil. Porém, caso esses sentimentos e comportamentos sejam comuns na vida diária deles, podem significar que eles operam com sofrimento psíquico contínuo, demonstrando sintomas em maior ou menor grau.

Em psicanálise eles serão primeiramente acolhidos num ambiente propício para que haja o estabelecimento de uma relação de confiança sobre a qual o trabalho possa ser desenvolvido. Mais do que interpretar uma situação de imediato, o analista fará o papel ambiental que porventura lhes faltou ou falhou na infância primitiva, será presença, continuidade, um lugar de repouso psíquico para eles.

Diante desse ambiente, a análise proporcionará elementos necessários para o restabelecimento gradual de suas potencialidades individuais , um processo de integração e recuperação da experiência de continuidade do ser, que viabilizará mais saúde psíquica aos nossos personagens.

A psicanálise não é sobre mágica. É sobre trabalho, constância, dedicação e amor.

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