A festa do tetra que não pudemos comemorar

Por Redação
REDAÇÃO

29/06/2026 • 17:36 • Atualizado em 29/06/2026 • 17:40

Valter Sena
A festa do tetra que não pudemos comemorar

A festa do tetra que não pudemos comemorar

Arte gerada por IA

O Brasil inteiro explodia nas ruas em 17 de julho de 1994, mas o meu mundo, naquele final de tarde de domingo, media poucos metros quadrados e falava dialetos italianos.

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Era a final da Copa do Mundo dos Estados Unidos e eu fui escalado pelo chefe de reportagem André Camarão, para acompanhar a decisão entre Brasil e Itália, imagine, na casa de imigrantes italianos.

A missão era complicada: a equipe de externa que na época tinha 5 pessoas, se comportar dentro da residência onde a família que nos acolhia, torcia fervorosamente contra a nossa seleção.

Mas, contrariando qualquer expectativa, todos se comportaram bem mantendo a neutralidade necessária durante toda a partida que terminou empatada em 0 X 0 no tempo normal e na prorrogação.

E fomos para os pênaltis...

A tensão dentro daquela casa era palpável, quase física. Lembro do patriarca da família, cuja altivez ruiu diante da loteria que se desenhava. "Eu não assisto!", decretou, dando as costas para a televisão antes do primeiro pênalti.

Foi aí que o filho dele, com os olhos fixos na tela e os braços erguidos, resumiu o sentimento que sufocava os adversários: "É a paúra!" o medo puro, paralisante, que precede o abismo.

O que se seguiu foi um espetáculo de gestos largos, gritos em italiano e mãos que cortavam o ar. No meio daquele furacão, nossa equipe operava em um milagre de concentração.

O cinegrafista Sérgio Mello suava frio, travando uma batalha hercúlea com a câmera nos ombros para conseguir enquadrar os italianos, que andavam de um lado para o outro, completamente inquietos. Enquanto isso, o "Bonitinho", nosso operador de VT, girava os potenciômetros freneticamente, tentando regular o áudio que insistia em estourar com os gritos incessantes e dramáticos da família.

O auxiliar técnico, encarregado da pesada iluminação da qual as câmeras da época tanto dependiam, e o nosso motorista não tiveram tanto trabalho prático naquele espaço confinado, mas dividiam conosco a mesma postura.

Embora o sangue brasileiro fervesse nas veias, todos ali se comportaram como verdadeiros lordes ingleses. Mantivemos o respeito absoluto, sem atrapalhar ou invadir o espaço da torcida italiana. Afinal de contas, estávamos na casa deles.

Atrás da lente, do fone de ouvido e do microfone, éramos cinco brasileiros proibidos de torcer. Sonegar o gol de Romário e a defesa de Taffarel foi o maior exercício de autocontrole das nossas carreiras.

Quando Roberto Baggio isolou a última bola no céu de Pasadena, o contraste foi brutal. Do lado de fora da janela, a maior festa da história recente do Brasil. Dentro daquela sala, um silêncio de funeral, quebrado apenas pelos lamentos baixos e pela nossa obrigação profissional de continuar gravando a dor da derrota.

Entregamos a matéria. O dever estava cumprido. Mas a mente prega peças. Ao sair para a rua, cercado por um mar de camisas amarelas e um barulho ensurdecedor, o choque de realidade me travou. Eu estava paralisado.

Enquanto o país se abraçava ao som das buzinas, eu e minha equipe de externa — cinco profissionais dividindo o peso de uma cobertura histórica — vivíamos o avesso da catarse nacional.

A energia gasta para conter a própria alegria por horas seguidas cobrou o seu preço: enquanto o povo cantava, eu e minha equipe flutuávamos em uma anestesia profissional, mudos, testemunhas silenciosas de que o jornalismo, às vezes, nos exige o sacrifício da nossa própria voz na hora da festa.

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