Band Paraná

Caso Cristiano Galego, o ''Rei das Loiras'': o que se sabe até agora

Em Curitiba, investigação apura suspeita de golpe em pacotes de mechas; defesa fala em falhas nos sistemas e cobra acesso à íntegra do inquérito

Da redação
DA REDAÇÃO

03/04/2026 • 14:34 • Atualizado em 03/04/2026 • 14:34

Cristiano Galego tem mais de 1 milhão de seguidores nas redes sociais

Cristiano Galego tem mais de 1 milhão de seguidores nas redes sociais

Foto: Reprodução @cristianogalego

A Polícia Civil do Paraná investiga o cabeleireiro e influenciador Cristiano do Nascimento Galego, conhecido como Rei das Loiras, por suspeita de estelionato na venda de serviços de beleza em Curitiba. Recentemente, a corporação passou a cumprir mandados de busca e apreensão ligados ao caso, que já reúne ao menos 26 vítimas formalmente identificadas e motivou manifestações da defesa e de clientes.

Compartilhar

Linha do tempo do caso

De acordo com boletins de ocorrência registrados por clientes, o nome do profissional passou a aparecer na Polícia Civil após relatos de pagamentos antecipados por pacotes de mechas que não teriam sido realizados. Os registros apontam suspeita de estelionato, quando alguém obtém vantagem financeira mediante fraude.

Em seguida, a Polícia Civil do Paraná informou que investiga Cristiano Galego por supostos crimes de estelionato contra diferentes vítimas em Curitiba, a partir de oferta de serviços de beleza divulgados principalmente nas redes sociais.

Para aprofundar as apurações, o 6º Distrito Policial da Capital representou à Justiça por medidas cautelares, como busca e apreensão, quebra de sigilo de dados e bloqueio de valores. Segundo a corporação, o objetivo é identificar outras possíveis vítimas, localizar o investigado e garantir eventual ressarcimento dos prejuízos.

No curso da investigação, a Polícia Civil passou a cumprir mandados de busca e apreensão em endereços vinculados a Galego. Equipes foram até os imóveis, que estavam desocupados, o que, para os investigadores, indica possível mudança de local ou tentativa de evasão.

Até o momento, a polícia já identificou ao menos 26 vítimas formalmente registradas, com prejuízo financeiro que supera R$ 15 mil, e trabalha com a hipótese de que mais pessoas possam ter sido lesadas. A orientação é para que quem tiver contratado os serviços e não tenha sido atendido procure a delegacia mais próxima para registrar boletim de ocorrência e colaborar com o inquérito.

O que diz a defesa de Cristiano Galego

Cristiano Galego chegou a gravar um vídeo

Cristiano Galego chegou a gravar um vídeo

Em nota anterior enviada ao Portal Band Paraná, a defesa de Cristiano Galego afirmou que os problemas relatados por clientes teriam ocorrido durante um período de instabilidade nos sistemas e nos canais de comunicação da empresa.

Após a deflagração da operação com mandados de busca, a defesa técnica, representada pelo advogado Leonardo Bueno Dechatnik, divulgou novo posicionamento. No texto, afirma que tomou conhecimento da ação policial apenas pela imprensa:

“A defesa técnica de Cristiano Galego, representada pelo Dr. Leonardo Bueno Dechatnik, informa que tomou conhecimento, na data de hoje, da deflagração de operação policial envolvendo seu constituinte, por meio das notícias veiculadas pela imprensa, inclusive com entrevistas concedidas pela autoridade policial responsável pela investigação.”

Segundo a defesa, após ter ciência das diligências, a equipe compareceu imediatamente ao 6º Distrito Policial de Curitiba para se habilitar no procedimento e pedir a oitiva do investigado:

“Após tomar ciência do cumprimento das diligências investigativas, a defesa compareceu imediatamente ao 6º Distrito Policial de Curitiba, ocasião em que requereu formalmente sua habilitação nos autos, bem como a designação de data para oitiva formal do constituinte, colocando-se, ainda, à disposição para colaborar com eventuais diligências complementares que se façam necessárias ao adequado esclarecimento dos fatos.”

Os advogados sustentam ainda que não tiveram acesso ao conteúdo do inquérito e, por isso, não podem comentar detalhes da investigação:

“Até o presente momento, a defesa ainda não teve acesso ao conteúdo dos autos do procedimento investigativo, embora já tenha formulado requerimento formal nesse sentido. Assim, neste momento, não é possível prestar esclarecimentos mais específicos acerca dos elementos constantes da investigação.”

A nota conclui que, quando o acesso aos autos for liberado, a defesa vai se manifestar novamente:

“Tão logo seja franqueado o acesso aos autos, a defesa técnica analisará o conteúdo do procedimento e prestará, oportunamente, os esclarecimentos pertinentes, sempre com observância ao devido processo legal, ao contraditório, à ampla defesa e às garantias constitucionais aplicáveis.”

Como funcionaria o esquema, segundo a polícia

De acordo com a Polícia Civil, Cristiano Galego utilizava um perfil em rede social com mais de 1 milhão de seguidores para divulgar pacotes promocionais de mechas capilares. As clientes precisavam pagar antecipadamente, via PIX, para garantir o agendamento em um salão localizado no bairro Cristo Rei, em Curitiba.

Vítimas relatam que, após o pagamento, os serviços não eram realizados. Elas eram orientadas a comparecer a um espaço comercial na Avenida Presidente Affonso Camargo, onde não encontravam o profissional, e muitas afirmam ter sido bloqueadas em aplicativos de mensagens e nas redes sociais.

Relatos de clientes

Cliente veio da Região Metropolitana procurar o serviço

Cliente veio da Região Metropolitana procurar o serviço

Uma das clientes é Nathacha Romilda Pichecki, de 27 anos, moradora de Quitandinha, na Região Metropolitana de Curitiba. Ela conta que pagou R$ 499 por um pacote de mechas que, segundo anúncio patrocinado no Instagram, normalmente custaria R$ 1.500, mas não teve o serviço realizado.

Ao clicar na publicação, Nathacha foi direcionada para atendimento via WhatsApp, onde um assistente agendou a primeira visita ao salão para a realização de um teste de mechas. Na data marcada, porém, ela afirma que não encontrou o profissional.

“No dia que eu fui o Cristiano não estava, só estavam os assistentes. E nenhuma das meninas conseguiu fazer o cabelo”, relatou.

Em uma segunda tentativa de atendimento, a cliente diz que encontrou o estabelecimento fechado.

“Da segunda vez eu dei de cara na porta. Não tinha nem assistente, nem Cristiano. Só tinha meninas esperando para serem atendidas pela primeira, segunda ou terceira vez”, afirmou.

A partir desse episódio, ela passou a suspeitar de um golpe e buscou relatos de outras mulheres nas redes sociais.

“Foi quando percebi que era um golpe. Tentei de novo, ele não respondia mensagem. Aí comecei a pesquisar e vi no Instagram outras meninas falando que era golpe.”

Segundo Nathacha, um grupo de WhatsApp reúne mais de 20 mulheres que teriam pago pelo mesmo pacote promocional e não receberam o serviço.

“O prejuízo foi alto, R$ 499, e não só por mim, mas por outras 20 e poucas meninas”, declarou.

A jovem registrou boletim de ocorrência e diz esperar a devolução do valor pago.

“A gente só espera que tudo isso se resolva, que ele seja honesto em devolver o nosso dinheiro. Em outras reportagens, ele já falou que vai fazer a devolução para as meninas que não quiserem fazer o cabelo com ele”, afirmou.

Na avaliação de Nathacha, o cabeleireiro tenta se defender das acusações dialogando com as clientes.

“Ele é muito bom em persuadir, então vai fazer de tudo para que a gente pareça estar errada. Ele está por aqui desde o começo de janeiro e não vem atendendo, não aparece no salão”, disse.

Ela também relata prejuízos com deslocamento entre Quitandinha e Curitiba.

“É frustrante você se desgastar, ainda mais para quem mora longe, porque eu gastei com gasolina me deslocando até o local. Espero que outras mulheres não caiam nesse tipo de golpe”, concluiu.

Quem é Cristiano Galego

Cristiano do Nascimento Galego, conhecido nas redes sociais como Rei das Loiras, é cabeleireiro e influenciador digital especializado em técnicas de clareamento capilar. O profissional, que atua em Curitiba, soma mais de 1 milhão de seguidores e costuma compartilhar vídeos de transformações capilares e atendimentos realizados no salão, alguns com milhões de visualizações.

Ele afirma ter mais de duas décadas de atuação no setor de beleza e ficou conhecido por desenvolver técnicas de loiros personalizados. O trabalho divulgado nas redes sociais atrai clientes de diferentes cidades e estados, e, segundo materiais promocionais do próprio profissional, o salão chega a realizar centenas de atendimentos por mês com a equipe.

A visibilidade na internet levou Galego a investir também em cursos e treinamentos voltados para outros profissionais da área de beleza.

Além de cabeleireiro, ele atua como empresário no setor de estética. Entre os projetos divulgados está a SMART-ART, rede de franquias de salões de beleza voltada para serviços de química capilar e estética, que promete replicar técnicas e métodos de atendimento associados ao seu nome.

Galego também tentou carreira política e chegou a disputar uma vaga na Câmara Municipal de Curitiba pelo partido União Brasil. De acordo com dados da Justiça Eleitoral, ele recebeu 699 votos, teve a candidatura indeferida, tem 33 anos, nasceu em Campo Mourão, no Paraná, e declarou bens de cerca de R$ 860 mil.

As investigações da Polícia Civil do Paraná seguem em andamento para esclarecer os fatos e apurar se há eventuais coautores no esquema. Até a conclusão do inquérito, Cristiano Galego permanece como investigado.