Band Paraná

Cinco meses após tornado, Rio Bonito do Iguaçu ainda se ergue

Orçamento municipal dobrou, mas cidade enfrenta filas por moradia e explosão de casos de ansiedade

Da redação
DA REDAÇÃO

21/04/2026 • 14:31 • Atualizado em 21/04/2026 • 14:31

Cinco meses depois do tornado que devastou Rio Bonito do Iguaçu, no sudoeste do Paraná, a cidade ainda tenta se reerguer em meio a casas inacabadas, escolas improvisadas e um salto de problemas de saúde mental entre os moradores.

Compartilhar

Rio Bonito do Iguaçu precisou, na prática, nascer de novo. O orçamento municipal saltou de cerca de R$ 100 milhões para R$ 200 milhões, não por crescimento econômico, mas pela urgência de reconstruir o que o vento levou em poucos minutos.

Segundo o prefeito Sézar Bovino, administrar o volume inédito de recursos e cumprir as exigências legais representa um teste para a estrutura da prefeitura. "Administrar esse volume de recursos e a burocracia da prestação de contas é o maior desafio técnico da nossa história", afirma.

No Ministério Público, a preocupação é com a transparência no uso do dinheiro e das doações. O promotor de Justiça Igor Rabel Corso relata que o órgão abriu uma ação civil pública para cobrar mais clareza no portal oficial do município e rigor no controle de tudo o que chegou de ajuda. "Abrimos ação civil pública cobrando transparência no portal e rigor no controle das doações", diz.

Em um barracão da cidade, milhares de itens – tênis, móveis, produtos de higiene e cestas básicas – ainda aguardam destino. O estoque de alimentos deve acabar até 4 de julho, data em que a legislação eleitoral passa a proibir a distribuição gratuita. O que sobrar depois disso, seja comida ou material, vira responsabilidade direta do município.

O impacto ambiental também permanece. Toneladas de entulho seguem acumuladas enquanto a administração busca uma solução definitiva para o descarte adequado dos resíduos deixados pelo tornado.

Reconstrução nas escolas e saúde mental abalada

A reconstrução passa pelas salas de aula. Com colégios destruídos, muitos estudantes precisam enfrentar viagens mais longas e estruturas improvisadas para continuar estudando.

Uma estudante lembra que o trauma ainda está presente no cotidiano. "Quando o tempo fecha e escurece, a gente ainda sente o medo daquele dia", relata.

Na rede de saúde, o reflexo da tragédia é menos visível que os destroços, mas não menos sério. Moradores e profissionais relatam aumento de casos de ansiedade e depressão, principalmente entre crianças, e a demanda por atendimento psicológico cresceu, somando-se aos desafios da recuperação física da cidade.

Comércio fragilizado e impasse na moradia

No comércio local, a ferida é financeira. Pequenos empresários que perderam documentos durante o temporal têm dificuldade para comprovar renda e acessar linhas de crédito, o que atrasa a reabertura de lojas e indústrias e mantém galpões vazios.

A situação da moradia é hoje o ponto mais sensível da reconstrução. Das centenas de casas anunciadas para as famílias atingidas, apenas uma parte saiu do papel. Um impasse sobre os terrenos levou o governo estadual a erguer unidades em lotes já pertencentes às próprias famílias.

O presidente da Cohapar, Jorge Lange, afirma que o processo seguiu critérios técnicos e que o número de casas construídas diminuiu porque muitas famílias preferiram aderir ao cartão reforma, que permite recuperar a própria residência em vez de receber uma unidade nova. "O processo seguiu critérios técnicos, mas o número foi reduzido porque famílias optaram pelo cartão reforma", explica.

Histórias de recomeço em meio aos escombros

Para quem conseguiu um novo teto, cada chave entregue representa um capítulo de recomeço. Dona Marilda, que perdeu o marido na tragédia, recebeu uma das moradias e tenta reorganizar a vida em meio à lembrança do dia em que o vento levou a casa e mudou a família.

Já o chapeador Élcio Glüber passou noites dormindo debaixo de um caminhão até ter o nome incluído na lista de beneficiados. Ao entrar na casa simples, ele resumiu o sentimento: "Nem vou dormir na primeira noite de alegria. É o meu recomeço".

Cinco meses depois, Rio Bonito do Iguaçu ainda convive com escombros, traumas e promessas em andamento. Entre a cobrança por transparência, os prazos da lei eleitoral e a espera por moradia digna, a cidade tenta encontrar espaço para curar as marcas invisíveis deixadas pelo tornado.