O governo federal decidiu elevar de 30% para 32% o percentual obrigatório de etanol anidro misturado à gasolina, em medida que, segundo o Ministério de Minas e Energia, pode reduzir em cerca de 500 milhões de litros por mês a necessidade de importação do combustível.
De acordo com a pasta, esta é a segunda alteração recente na mistura. No ano passado, o índice passou de 27,5% para 30%. Agora, com o novo aumento, o governo afirma que busca atenuar os efeitos da volatilidade do preço do petróleo no mercado internacional.
A decisão integra um conjunto de ações para diminuir a exposição do país às oscilações externas e, ao mesmo tempo, fortalecer a cadeia do etanol, importante para o agronegócio e para a matriz energética brasileira.
Objetivo é reduzir dependência externa
Segundo o economista Luís Gustavo Budziak, a elevação da mistura contribui para “reduzir a dependência da gasolina importada” e ajuda a enfrentar “os impactos da alta do petróleo no mercado internacional”. Na avaliação dele, usar mais etanol na composição é uma forma de aproveitar a produção doméstica e aliviar a pressão sobre os preços internos.
Ele destaca que a medida também pode trazer previsibilidade maior ao setor de combustíveis no curto prazo, ao diminuir a necessidade de compras externas de gasolina em um momento de incertezas no cenário internacional.
Impactos no desempenho dos veículos
Enquanto o governo enfatiza os benefícios macroeconômicos, especialistas em engenharia automotiva chamam atenção para os efeitos práticos da mudança nos veículos. Carros com motores flex, projetados para operar com diferentes proporções de etanol e gasolina, devem se adaptar bem à nova mistura.
Entretanto, conforme alerta o professor Carlos Itsuo Yamamoto, da Universidade Federal do Paraná (UFPR), motores que funcionam exclusivamente com gasolina podem apresentar alterações de comportamento. Ele aponta que pode haver aumento de consumo e eventuais dificuldades na hora de dar a partida, especialmente em dias mais frios.
Na visão do docente, esses efeitos não comprometem a segurança, mas exigem atenção dos proprietários de veículos mais antigos ou que não foram concebidos para altas proporções de etanol na gasolina.
Medida é temporária e abre debate sobre etanol
A nova regra terá validade inicial de 180 dias, com possibilidade de prorrogação por mais 180, caso o governo julgue necessário. O período de teste deve servir para avaliar o comportamento do mercado, o impacto nos preços e os reflexos sobre a frota em circulação.
Para o professor Carlos Itsuo Yamamoto, porém, uma estratégia mais consistente para tornar o Brasil autossuficiente no abastecimento de combustíveis passa por políticas de incentivo à compra de veículos movidos a etanol. Ele argumenta que ampliar a participação desses motores na frota nacional reduziria, de forma estrutural, a dependência da gasolina e tornaria o país menos vulnerável às oscilações do petróleo.
O debate sobre a nova mistura deve mobilizar governo, setor automotivo, produtores de etanol e consumidores nos próximos meses, enquanto se medem os efeitos econômicos e técnicos da decisão.
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