Entre as campanhas do mês de maio, o Maio Laranja chama a atenção para o enfrentamento da violência sexual contra crianças e adolescentes no Brasil, onde, segundo o Anuário Brasileiro de Segurança Pública de 2025, quase 88 mil estupros foram registrados e 77% das vítimas tinham menos de 18 anos.
O levantamento mostra ainda que, em média, oito casos de abuso sexual ou estupro contra crianças e adolescentes são notificados a cada hora no país, número que não inclui a parcela que permanece em silêncio.
Para a diretora executiva da Childhood Brasil, Laís Peretto, o aumento das denúncias reflete maior conscientização, mas não reduz a gravidade do cenário. "A violência sexual provoca vergonha e medo nas vítimas, o que faz com que muitos casos nunca cheguem ao sistema de justiça", afirma. "Isso é uma preocupação muito grande."
Violência começa em casa e alcança o ambiente virtual
Os dados do Anuário indicam que, em sete de cada dez casos, o abuso acontece dentro da própria casa da vítima, em ambientes que deveriam ser de proteção e cuidado.
Na região de Curitiba, no Paraná, a família de uma menina de 12 anos descobriu que ela era estuprada pelo próprio tio após uma mensagem enviada pela vítima a uma ferramenta de inteligência artificial, na qual relatava a violência. O episódio evidencia a dificuldade que muitas crianças e adolescentes têm para pedir ajuda diretamente a adultos próximos.
A exposição ao ambiente digital amplia os riscos. Os dados do Anuário de Segurança Pública não contabilizam crimes praticados exclusivamente on-line, o que tende a subestimar o problema. Uma pesquisa da Unicef divulgada em 2025 apontou que uma em cada cinco crianças e adolescentes no Brasil sofreu, em um período de um ano, algum tipo de violência sexual facilitada pela tecnologia, o que corresponde a cerca de 3 milhões de vítimas.
Crimes digitais se aproveitam de jogos e redes sociais
Segundo o delegado Thiago Lima, que atua no combate a crimes cibernéticos no Paraná, muitas ocorrências têm ligação direta com jogos on-line e redes sociais acessados por menores. "Os criminosos usam jogos e chats para se aproximar, criam vínculos de confiança e, a partir daí, passam a pedir fotos, vídeos e outros conteúdos das crianças, muitas vezes com aliciamento ou por meio de ameaças", descreve.
Para o delegado, a principal frente de prevenção está em casa. "Pais e responsáveis podem usar ferramentas que limitam o acesso a aplicativos e conteúdo, mas, acima de tudo, precisam conversar, ouvir e criar um ambiente em que a criança não tenha medo de relatar uma abordagem estranha ou uma ameaça", orienta.
Prevenção passa por diálogo e educação sexual
Na avaliação de Laís Peretto, a proteção de crianças e adolescentes contra a violência sexual é uma responsabilidade compartilhada pela família, pela escola, pelo poder público e pela sociedade. "Não dá para tapar o sol com a peneira e ignorar essa realidade", afirma. "Precisamos falar sobre educação sexual para que meninos e meninas entendam o que é consentimento e saibam reconhecer situações de abuso."
Em casos de suspeita ou confirmação de violência, organizações de proteção à infância recomendam que a denúncia seja feita imediatamente aos Conselhos Tutelares, às delegacias especializadas, ao Disque 100 ou ao telefone 190, em situações de emergência. A orientação é garantir acolhimento à criança ou ao adolescente e buscar apoio das autoridades para interromper o ciclo de violência.
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