Band Paraná

Nevasca histórica deixa até 3 mil caminhões parados rumo ao Chile

Brasileiros enfrentam frio de até -10°C, falta de estrutura e prejuízos que já superam R$ 100 milhões

Rodrigo Leite
RODRIGO LEITE

11/08/2026 • 19:39 • Atualizado em 11/08/2026 • 19:40

Uma nevasca histórica na região da Patagônia argentina bloqueia há semanas as principais rodovias de acesso ao Chile e mantém milhares de caminhões de carga parados, muitos deles conduzidos por brasileiros. Alguns motoristas estão na estrada há quase um mês, em temperaturas que variam entre -2°C e -10°C, sem previsão para a liberação das vias.

Compartilhar

Estimativas de transportadoras indicam que entre 2.500 e 3 mil caminhões aguardam a reabertura das rodovias. A nevasca é considerada a mais intensa dos últimos 30 anos pelas autoridades locais. Em vários trechos, a altura da neve dificulta o trabalho das equipes de limpeza e aumenta o risco para quem permanece na área.

Entre os motoristas afetados está o caminhoneiro brasileiro Marcos Andrade da Costa, que relata estar parado há 14 dias com uma carga de 25 toneladas de ração para peixe. Ele está retido na Patagônia argentina, em um ponto de bloqueio nas proximidades da Cordilheira dos Andes.

Marcos descreve a rotina de quem tenta resistir ao frio e à falta de estrutura básica. Segundo ele, até o acesso a banheiro se tornou um desafio diário, amenizado em parte pela ajuda de voluntários que distribuem alimentos e bebidas quentes.

"Aqui as condições de banho são muito difíceis. Não tem banheiro perto, é mil metros para ir e mil para voltar. Tem que pagar cinco pesos e, às vezes, algum voluntário aparece com água, um salgadinho, uma sopa. Mas vou ter que sair daqui, porque se a nevasca continuar é impossível ficar aqui", afirmou o caminhoneiro.

Caminhoneiros aguardam liberação das estradas

O governo argentino informou que monitora a situação e que, por enquanto, as rodovias vão continuar fechadas de forma preventiva, para evitar acidentes. A medida atinge rotas estratégicas para o transporte de cargas entre Argentina e Chile, incluindo trechos que levam ao Túnel Libertadores, na fronteira entre os dois países.

Transportadoras brasileiras estimam que o prejuízo causado pelos bloqueios nas rodovias argentinas e chilenas já ultrapassa os R$ 100 milhões. Entidades ligadas ao setor de transportes acompanham o cenário com apreensão, já que não há prazo definido para a liberação das estradas.

Setor de transportes pede coordenação entre países

Para Danilo Guedes, vice-presidente de Relações Internacionais da Associação Nacional do Transporte de Cargas e Logística (NTC&Logística), a dimensão da nevasca exige uma ação coordenada entre os dois países para garantir a segurança dos motoristas e acelerar a liberação das vias.

"A neve chegou a quase seis metros de altura, então as máquinas trabalham tanto do lado argentino quanto do lado chileno. O lado chileno já terminou a limpeza da pista, já chegaram até o Túnel Libertadores. Os argentinos ainda não terminaram essa limpeza. É nesse sentido que a gente vem trabalhando, como entidade NTC, para que haja uma coordenação entre a Argentina e o Chile, para que essa limpeza seja completa e que a gente possa minimamente ter segurança para que os motoristas saiam desse ponto", explicou Guedes.

Conforme aponta o representante da entidade, a preocupação principal hoje é garantir que os caminhoneiros tenham condições de deixar as áreas de risco assim que houver uma brecha segura nas rodovias.

Morte de brasileiro acende alerta para riscos do frio extremo

Na última semana, um caminhoneiro brasileiro que estava em uma rodovia bloqueada, a cerca de 4 mil metros de altitude, morreu. A causa ainda é investigada pelas autoridades locais, mas a suspeita é de que ele tenha sofrido hipotermia, em razão do frio intenso registrado na região.

O Ministério das Relações Exteriores informou que está em contato com a família da vítima. Enquanto aguardam uma solução, motoristas como Marcos seguem na estrada, em meio ao gelo e à incerteza sobre quando poderão retomar viagem.