Iniciadas em 2023, as obras da Ponte de Guaratuba, no litoral do Paraná, entram na reta final e revelam números de grande porte em concreto, aço, gelo e monitoramento ambiental na ligação sobre a baía de Guaratuba, esperada há mais de 30 anos pelos paranaenses.
Classificada como a ponte número 894 do Estado, a estrutura vai substituir o ferry boat que opera na baía desde a década de 1960. Hoje, a travessia entre as duas margens leva de 20 a 30 minutos. Com a nova ligação, o percurso sobre a ponte deverá ser feito em cerca de 2 minutos.
Até o momento, a construção consumiu 45 mil metros cúbicos de concreto, 5,5 mil toneladas de aço e cerca de 300 toneladas de gelo usadas no controle térmico das grandes concretagens. Segundo levantamento do Consórcio Supervisor Ponte de Guaratuba, o volume de gelo corresponde a quase um terço do utilizado durante o Carnaval de Salvador.
Obra encerra espera de três décadas
As torres da parte estaiada, que têm 12 cabos de aço cada e receberam o chamado “beijo” com o encontro das aduelas, têm 40 metros de altura. Elas superam monumentos como o Cristo Redentor, no Rio de Janeiro, com 38 metros, e o Buda de Ibiraçu, no Espírito Santo, com 35 metros. Para comparação, a Catedral de Maringá tem 124 metros e a Estátua da Liberdade, em Nova York, 93 metros.
Estrutura usa toneladas de aço, concreto e gelo
O volume de aço aplicado na ponte se aproxima do de grandes obras mundiais. As 5,5 mil toneladas utilizadas equivalem a quase três quartos da estrutura metálica da Torre Eiffel, em Paris, que soma 7,3 mil toneladas. Em concreto, a obra alcança 45 mil metros cúbicos, volume semelhante ao empregado na fundação do Burj Khalifa, em Dubai, mas ainda muito inferior aos 12,7 milhões de metros cúbicos usados em Itaipu Binacional.
De acordo com a equipe de engenharia, o uso de gelo nas concretagens é comum em grandes intervenções e serve para controlar a temperatura durante a hidratação do cimento. Em grandes blocos, o calor gerado pela reação química pode provocar fissuras térmicas. Ao reduzir a temperatura do concreto, a técnica diminui o risco de trincas e preserva a integridade da estrutura.
Trecho estaiado preserva navegação na baía
O trecho estaiado da ponte, com 320 metros de extensão, é um dos pontos mais marcantes do projeto. Ele vence um vão central de 160 metros e garante o gabarito de navegação exigido, de 19 metros de altura por 90 metros de largura, sem necessidade de pilares no canal de acesso. A solução mantém o tráfego de embarcações e reduz impactos sobre a Baía de Guaratuba.
Cada estai é composto por 61 cordoalhas, formadas por 7 fios de aço de alta resistência, com três camadas de proteção contra corrosão: galvanização, aplicação de cera e capa de polietileno de alta densidade. Segundo os responsáveis pela obra, um único cabo suporta cerca de 610 toneladas, peso equivalente ao de uma viga de concreto do novo viaduto do Tarumã, em Curitiba.
As cordoalhas foram tensionadas a aproximadamente 10 toneladas cada, seguindo critérios rígidos de segurança. A instalação ocorreu em sincronia com a concretagem das aduelas, executadas em balanços sucessivos a partir das torres, com içamento, fixação e posterior tensionamento dos cabos por equipamentos hidráulicos de alta precisão.
Fundação profunda e pista com ciclovia
A fundação da ponte conta com 64 estacas de concreto com profundidade de até 55 metros, sendo 15 metros escavados em rocha. Cada estaca tem entre 1,80 e 2,20 metros de diâmetro, comprimento de 20 a 50 metros e pode pesar 470 toneladas. Essa etapa foi uma das primeiras a ser executada no empreendimento.
A pista terá quatro faixas de rolamento de 3,60 metros cada, além de faixas de segurança de 0,60 metro. Em cada lado haverá passeios com ciclovia de 3 metros úteis, separados da pista por barreira rígida tipo New Jersey e guarda-corpo externo de 1,30 metro, o que oferece proteção a pedestres e ciclistas e permite a contemplação da baía.
O projeto prevê a execução de 50 mil metros quadrados de camadas de pavimentação e 70 mil metros quadrados de revestimento asfáltico, incluindo o tabuleiro da ponte e os acessos viários.
No pico das obras, em agosto de 2025, cerca de 950 trabalhadores atuaram no canteiro, somando 3 milhões de horas trabalhadas. Além de engenheiros, pedreiros e soldadores, o time inclui biólogos, marinheiros e oceanógrafos, entre outros profissionais. Para dar suporte às frentes em mar aberto, cinco embarcações operam 24 horas por dia com balsas e guindastes para fundações e transporte de concreto.
Monitoramento registra 25 mil animais
O monitoramento ambiental realizado na região registra, até agora, 25.419 animais distribuídos em 585 espécies ou grupos taxonômicos, incluindo macrofauna bentônica, peixes, insetos, aves, répteis, anfíbios e mamíferos. O trabalho atende exigências do licenciamento e gera dados científicos sobre ocorrência, abundância e distribuição das espécies na Baía de Guaratuba.
Entre os invertebrados, destacam-se espécies do filo Mollusca, como ostras, mexilhões e caramujos. Na ictiofauna, a diversidade também é elevada, com registros de sardinhas, bagres e linguados importantes para a pesca local, além de raias ameaçadas de extinção.
O levantamento de aves aponta grande variedade de espécies limícolas, marinhas e terrestres, com diferentes níveis de sensibilidade ambiental, o que funciona como termômetro da qualidade ecológica. Entre os registros mais relevantes estão a figuinha-do-mangue (Conirostrum bicolor), de ocorrência difícil, a saíra-sapucaia (Stilpnia peruviana) e o papagaio-de-cara-roxa (Amazona brasiliensis), ambos ameaçados.
Na mastofauna, os técnicos identificaram mamíferos como o macaco-prego (Sapajus nigritus) e o gato-maracajá (Leopardus wiedii), também ameaçados. Houve ainda o registro raro de uma cuíca (Marmosa paraguayana) com filhotes, considerado significativo para o conhecimento da fauna da região.
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