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Sem salário, 150 demitidos da Viação Mercês cobram resposta da URBS

Após rescisão do contrato da viação com a prefeitura de Curitiba, trabalhadores dizem que ficaram sem perspectivas e buscam apoio do sindicato

Da redação
DA REDAÇÃO

29/01/2026 • 10:22 • Atualizado em 29/01/2026 • 10:22

Impasse entre trabalhadores e funcionários da Viação Mercês

Impasse entre trabalhadores e funcionários da Viação Mercês

Foto: Divulgação

Cerca de 150 funcionários da empresa de transporte coletivo Viação Mercês, em Curitiba (PR), afirmam ter ficado desempregados e sem receber o salário do mês após a Urbanização de Curitiba (URBS), ligada à prefeitura, rescindir o contrato da viação e repassar 17 linhas de ônibus para outras companhias. A situação deve ser discutida em reunião convocada pelo Sindimoc nesta sexta-feira (30), na sede do sindicato.

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As informações foram relatadas à reportagem por um trabalhador da Viação Mercês que pediu para não ser identificado. Ele relata atrasos salariais, dúvidas sobre as vistorias da frota e dificuldade dos motoristas e cobradores para se recolocarem em outras empresas do sistema.

Contrato rompido e linhas repassadas

Segundo o funcionário ouvido pela reportagem, a URBS teria rescindido o contrato com a Mercês em meio a uma crise que, de acordo com ele, se arrastava há meses. Ele afirma que a empresa já vinha enfrentando problemas financeiros e atrasos de pagamento aos empregados.

Na visão desse trabalhador, o órgão gestor do transporte permitiu que a situação se agravasse antes de agir.

"A situação está se agravando há meses e a URBS deixou chegar a esse ponto. Esperou os funcionários fazerem um protesto por atrasos de salários e, no mesmo dia, passou 17 linhas de ônibus para outras empresas, deixando mais de 150 sem perspectiva alguma", relata.

Com a mudança de operador nas linhas, esses empregados dizem ter perdido a função de uma hora para outra. Ainda segundo o relato, muitos não receberam o salário do mês e aguardam informações sobre rescisão e direitos trabalhistas.

Vistorias regulares e dúvidas sobre critérios

O trabalhador afirma que a maior parte da frota da Mercês tinha selos de vistoria válidos e que os veículos passavam por inspeções periódicas da URBS. De acordo com ele, fiscais avaliavam de três a quatro ônibus todas as quartas-feiras e liberavam os veículos para operação.

Ele questiona os critérios usados para considerar a frota inapta em um curto intervalo de tempo.

"Até o dia 13 podia rodar normalmente. A partir do dia 14, nenhum dos ônibus teria condições, segundo disseram. Essa situação ficou mal explicada para a gente", afirma o funcionário.

No sistema de transporte de Curitiba, os ônibus precisam passar por vistorias regulares para receber selos que atestam condições mínimas de segurança e manutenção. Os trabalhadores alegam que não receberam detalhes técnicos sobre o motivo da interrupção total da operação da Mercês logo após as últimas inspeções.

Trabalhadores relatam demissão e falta de renda

Com o fim do contrato, o funcionário ouvido pela reportagem estima que cerca de 150 pessoas ficaram "na rua", sem emprego e sem o pagamento referente ao último mês trabalhado. Segundo ele, parte dos motoristas e cobradores ainda não sabe quando receberá verbas rescisórias.

"Agora são 150 na rua, sem o salário do mês e sem perspectiva", resume o trabalhador, que diz temer dificuldades para honrar compromissos financeiros e sustentar a família enquanto a situação não se resolve.

Ele relata também que, diante da incerteza, muitos profissionais passaram a procurar vagas em outras viações que operam o transporte coletivo da capital paranaense. No entanto, segundo o relato, a recolocação não tem sido simples.

Empresas relutam em contratar ex-funcionários

De acordo com o funcionário, outras empresas do sistema têm evitado contratar trabalhadores que ainda mantêm vínculo formal com a Mercês ou que acabaram de sair da companhia. Ele diz ter recebido, ou visto colegas receberem, mensagens de recusa em processos seletivos.

Em uma dessas comunicações, enviada por outra viação a um candidato e à qual a reportagem teve acesso, a empresa informa:

"Por questões éticas, não damos continuidade ao processo seletivo com candidatos que mantêm vínculo com outras viações. Agradecemos o interesse e ficamos à disposição."

Na avaliação do trabalhador, esse tipo de resposta aumenta a sensação de insegurança entre os demitidos. Ele afirma que muitos dos colegas têm anos de experiência no transporte coletivo de Curitiba e agora se veem sem renda e com barreiras adicionais para voltar ao mercado.

Tentamos contato com a empresa citada, mas não conseguimos resposta. O espaço fica aberto.

URBS diz que rescisão foi precedida por notificações, vistorias e plano emergencial

A Urbanização de Curitiba afirma que a retirada definitiva da Auto Viação Mercês do sistema de transporte coletivo foi resultado de um processo que se estendia desde 2024, marcado por notificações formais, atrasos salariais recorrentes e falhas operacionais. Segundo o órgão, a empresa foi notificada diversas vezes por problemas no atendimento, supressão de viagens, descumprimento de horários e dificuldades na manutenção da frota. Apenas entre outubro do ano passado e janeiro, foram mais de 500 notificações por atendimento inadequado e outras por atraso no pagamento de funcionários.

Após a paralisação de motoristas e cobradores em 14 de janeiro, motivada por salários atrasados, a URBS notificou a Mercês e o Consórcio Pontual para que apresentassem, em até cinco dias, comprovantes de pagamento das verbas trabalhistas e um plano que demonstrasse capacidade operacional e financeira para manter o serviço. Paralelamente, determinou que as empresas Glória e Santo Antônio assumissem as linhas, conforme previsto em contrato, para evitar prejuízo aos passageiros.

De acordo com a URBS, vistorias realizadas na frota apontaram que apenas uma pequena parcela dos ônibus tinha condições adequadas de circulação e que a empresa não comprovou capacidade financeira para arcar com salários, manutenção e abastecimento, nem regularidade fiscal e trabalhista. Diante desse cenário, o órgão decidiu pela transferência definitiva das 17 linhas, medida classificada como administrativa e prevista contratualmente, com o objetivo de garantir segurança, regularidade e continuidade do transporte coletivo.

A URBS também sustenta que não há pendências financeiras do município com as empresas do sistema e que, em situações anteriores, chegou a reter valores do consórcio para garantir o pagamento do 13º salário e tentar assegurar os direitos dos trabalhadores. Segundo o órgão, para os passageiros não houve impacto, já que o atendimento foi mantido integralmente durante todo o processo.

Sindicato marca reunião com demitidos

Para discutir o caso, o Sindicato dos Motoristas e Cobradores de Ônibus de Curitiba (Sindimoc) convocou uma reunião com funcionários da Mercês para esta sexta-feira (30), às 14h, na sede da entidade, na capital paranaense.

Segundo o trabalhador que falou com a reportagem, a expectativa é que o encontro trate de direitos trabalhistas, pagamento de salários em atraso e possíveis caminhos para garantir a recolocação dos profissionais no sistema de transporte coletivo.

Os funcionários alegam que ainda aguardam esclarecimentos formais sobre os motivos da rescisão do contrato, o futuro das linhas que eram operadas pela Mercês e o cronograma para acerto das pendências trabalhistas.