Band Vale

Futebol também é coisa de mulher. E sempre foi.

Por Redação
REDAÇÃO

22/06/2026 • 15:37 • Atualizado em 22/06/2026 • 15:37

No ritmo delas
Futebol também é coisa de mulher. E sempre foi.

Futebol também é coisa de mulher. E sempre foi.

Arquivo pessoal

Por muitos anos, ouvir uma mulher falar de futebol era motivo para desconfiança. Bastava ela comentar uma escalação, dar opinião sobre um jogo ou demonstrar paixão por um time para surgir aquela velha pergunta: "Mas você entende mesmo de futebol?"

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Como se fosse preciso passar por uma prova para ter o direito de torcer. Felizmente, os tempos mudaram. Ainda existe preconceito, claro, mas hoje as mulheres ocupam espaços que antes pareciam inalcançáveis: estão nas arquibancadas, nas transmissões, nas mesas-redondas, nas coletivas, nos programas esportivos e, principalmente, nas casas, formando novas gerações de torcedores.

Eu cresci em uma família onde futebol sempre foi assunto sério. Meu avô materno era corinthiano e sócio número 03 dos Gaviões da Fiel. A família da minha avó, italianada da Barra Funda, era quase toda palestrina. As discussões eram intensas, mas carregadas de amor e pertencimento. E eu? Sou palmeirense! Palestrina... Daquelas apaixonadas mesmo. Acompanho meu time com emoção, cobrança, alegria e, às vezes, aquele sofrimento que todo torcedor conhece bem. Já chorei por derrota, comemorei título como se não houvesse amanhã, já fiquei 4 dias sem tomar banho numa caravana para o Chile e aprendi que amar um clube é aceitar viver numa eterna montanha-russa emocional.

Mas quando chega a Copa do Mundo, existe algo maior do que qualquer rivalidade clubística. O verde do Palmeiras dá espaço ao verde e amarelo da Seleção Brasileira.

É um sentimento difícil de explicar para quem não gosta de futebol. O país muda de humor. Os bares ficam cheios, as famílias se reúnem, os amigos organizam encontros e os tradicionais bolões viram tema de conversa em praticamente todos os lugares.

Aliás, falando em bolão, preciso registrar: neste momento estou e 3 bolões!!! E existe um detalhe importante nessa história: tenho um parceiro de peso nessa missão: meu filho Rafael, de 15 anos.

Apaixonado por futebol desde pequeno, ele cresceu acompanhando jogos por influência minha, do avô e dos amigos que fazem parte da nossa convivência. Morávamos em São Paulo, ao lado do estádio do Palmeiras. Fomos sócios do clube social, sócios-torcedores e construímos inúmeras memórias em torno do futebol. Rafa, quando estava com apenas 8 aninhos, jogava no Clube do Nacional e foi convidado para participar de uma peneira no Palmeiras... E passou!!! Mas não seguiu, justamente por saber que o futebol, em casa, era algo levado à sério... Imagina ele errar no time de coração dos pais??? Seria algo inimaginável! Rafael sempre foi muito inteligente e estratégico naquilo que ele quer... Hoje ele participa dos palpites comigo e, confesso, tem contribuído bastante para estarmos entre os primeiros colocados...

Mas nesta Copa, quem está descobrindo uma outra versão de mim é minha filha Giovana, de 8 anos. E ela está simplesmente horrorizada, porque, pela primeira vez, ela me viu torcer de verdade.

Ela não consegue acreditar que aquela mãe que pede educação, fala sobre respeito e cobra boas maneiras possa gritar para a televisão, reclamar do juiz, discutir com a tela e, vez ou outra, deixar escapar um palavrão.

No jogo do Brasil contra o Haiti, ela me olhou com os olhos arregalados e perguntou:

— Mãe, por que você está tão brava?

Eu tentei explicar que não era raiva. Era futebol.

Mas acho que ela ainda não entendeu. Para ela, é estranho ver uma mulher vibrando tanto. E, de certa forma, isso me fez pensar em quantas vezes nós, mulheres, fomos ensinadas a não demonstrar emoções intensas.

A sermos contidas, não gritarmos. Só que futebol é justamente o contrário disso.

É emoção pura, não acham??? É comemorar um gol abraçando desconhecidos, sofrer por antecipação, achar que o técnico sempre fez a escolha errada.

Claro que existem limites e respeito sempre vem em primeiro lugar.

Mas torcer também é se permitir sentir. E agora, na fase de grupos, a emoção está só começando. Cada partida parece decisiva. Cada gol muda o humor do dia. Cada vitória renova a esperança e cada tropeço faz a gente recalcular todos os cenários possíveis.

E é isso que torna a Copa tão especial, une pessoas que pensam diferente, cria memórias, aproxima pais e filhos. A copa transforma a sala de casa em arquibancada e faz o país inteiro falar a mesma língua.

Desde que Rafael e Giovana nasceram, eu enfeito a casa, preparo comidas diferentes para os jogos e transformo cada partida em um pequeno evento familiar. Eu sei que, no futuro, eles talvez não se lembrem do placar de todos os jogos, mas vão se lembrar da mãe vibrando, das apostas, dos gritos e quem sabe, até dos palavrões que tanto assustam a Giovana.

E se antes existia preconceito em relação à presença feminina nesse universo, hoje vemos uma transformação importante acontecendo. Cada vez mais mulheres ocupam espaços de destaque no jornalismo esportivo, nas transmissões, nos comentários e na análise dos jogos. Isso, na verdade, amplia perspectivas, humaniza os debates e fortalece a ideia de que o futebol pertence a todos.

Afinal, pouco importa se quem está comentando um jogo é homem ou mulher. O que importa é a paixão, o conhecimento, o amor pelo esporte.

O futebol nunca foi apenas coisa de homem. Futebol é coisa de quem vibra, de quem sofre, comemora e que acredita até o último minuto.

E eu espero que minha filha entenda isso logo. Mas, se demorar um pouco mais, tudo bem. Afinal, ainda temos muitos jogos pela frente.

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