
Até as figurinhas da Copa escancaram a nossa insustentabilidade
DIVULGAÇÃO
A Copa do Mundo tem uma capacidade rara de mobilizar afetos, memórias e encontros. É o momento em que famílias se reúnem, crianças descobrem ídolos, amigos trocam figurinhas e o futebol, com toda sua força simbólica, ocupa novamente o centro das conversas. O álbum da Copa faz parte deste imaginário. Para muitos, é uma brincadeira inocente, uma experiência de lazer, memória e convivência.
Mas até mesmo nos momentos mais simples de alegria coletiva conseguimos revelar a profundidade da nossa insustentabilidade como sociedade.
Por trás da febre das figurinhas existe um resíduo quase invisível para a maioria das pessoas, o verso que sobra depois que a figurinha é colada no álbum. Esse material, chamado liner, possui uma camada de silicone, usada para proteger a cola. O problema é que, justamente por ser uma folha siliconada, a maioria das cooperativas de reciclagem não consegue reciclá-la. Quando descartado no lixo comum, esse resíduo pode ir para aterros sanitários ou lixões irregulares e levar até 100 anos para se decompor.
Ou seja, um gesto de poucos segundos, abrir o pacotinho, descolar a figurinha e jogar fora o verso, pode deixar uma marca ambiental por décadas.
O álbum da Copa de 2026 tem 980 figurinhas, sem contar as repetidas. Em 2022, uma campanha de recolhimento conseguiu coletar 230 quilos de liner, o equivalente a mais de um milhão de figurinhas. Para a Copa atual, a estimativa é muito maior, cerca de 10 toneladas, ainda pouco diante da quantidade real gerada no país. Existe reciclagem possível, felizmente, mas ela depende de uma cadeia muito específica, informação, pontos de coleta, mobilização de escolas, empresas parceiras e consumidores conscientes.
A pergunta que fica é simples, mas profundamente incômoda, como uma sociedade permite que um produto seja colocado no mercado sem que sua destinação final esteja plenamente resolvida?
Não se trata de demonizar a brincadeira, o futebol, os álbuns ou os colecionadores. O ponto é muito mais estrutural. O problema está em um modelo de produção que ainda trata o descarte como detalhe, como se o ciclo de vida de um produto terminasse no momento da venda. Na prática, para a empresa, o produto acabou quando foi vendido. Para o consumidor, acabou quando foi usado. Para a natureza, muitas vezes, ele está apenas começando sua longa permanência como resíduo.
Isso é um erro grotesco de design, de responsabilidade socioambiental e de visão econômica.
Em um mundo em emergência climática, não faz mais sentido produzir qualquer coisa sem pensar, desde o início, no seu descarte, reaproveitamento, reciclagem ou reinserção em novos ciclos produtivos. O descarte não pode ser uma etapa improvisada depois que o produto já gerou lucro. Ele precisa ser parte do próprio projeto. Produto sem destinação deveria ser considerado produto incompleto.
O Brasil já possui a Política Nacional de Resíduos Sólidos, que trouxe conceitos importantes como responsabilidade compartilhada pelo ciclo de vida dos produtos e logística reversa. Este foi um avanço relevante. Mas a realidade mostra que ainda existe uma grande distância entre o princípio legal e a prática cotidiana. Se uma embalagem, um material promocional, um item de consumo ou qualquer produto depende da boa vontade de escolas, condomínios, consumidores engajados ou campanhas pontuais para não virar lixo, então o sistema ainda está falhando.
A responsabilidade não pode recair apenas sobre o consumidor final. Claro que todos nós devemos fazer nossa parte. Separar resíduos, buscar pontos de coleta, consumir com mais consciência e educar nossas crianças são atitudes importantes. Mas é preciso reconhecer que as empresas e indústrias possuem o peso mais relevante nessa transformação, porque são elas que desenham os produtos, escolhem os materiais, organizam as cadeias de fornecimento, definem a comunicação, influenciam o consumo e colocam milhões de unidades no mercado.

Quem produz precisa responder pelo que produz.
Se deixarmos empresas e indústrias serem guiadas apenas pelo lucro imediato, seremos sempre reféns das decisões mais baratas, e não necessariamente das mais éticas, inteligentes ou sustentáveis. O material mais barato pode ser o mais caro para a sociedade. A embalagem mais prática pode ser a mais danosa para o meio ambiente. O produto mais lucrativo pode carregar um custo invisível que será pago por cooperativas, municípios, rios, solos, oceanos e futuras gerações.
Este é um dos grandes equívocos do modelo econômico atual, ele ainda permite que parte dos custos reais da produção seja empurrada para fora da contabilidade das empresas. A empresa lucra com a venda, mas quem paga pelo resíduo é a sociedade. A marca se beneficia da emoção do consumo, mas a conta ambiental aparece depois, dispersa, silenciosa e difícil de rastrear.
No caso das figurinhas, o resíduo é pequeno. Cabe na ponta dos dedos. Talvez exatamente por isso seja tão simbólico. Ele mostra que a insustentabilidade não está apenas nas grandes tragédias ambientais, nas queimadas, nos derramamentos de óleo ou nas emissões industriais. Ela também está nos pequenos hábitos, nos produtos banais, nas escolhas de design e nas cadeias de consumo que naturalizamos sem questionar.
Se nem o lazer consegue escapar da lógica do descarte irresponsável, precisamos reconhecer que o problema não é apenas individual, é sistêmico.
A boa notícia é que existem caminhos. A própria campanha de recolhimento dos liners mostra que soluções podem ser construídas quando há informação, mobilização e articulação entre empresas, escolas e sociedade. Mas isso não pode ser exceção. Precisa se tornar regra. Todo produto deveria nascer com um plano claro de pós-consumo. Toda empresa deveria demonstrar, antes de colocar algo no mercado, como aquele material será coletado, reaproveitado, reciclado ou destinado corretamente. E o poder público precisa avançar em regulações mais rígidas, capazes de transformar responsabilidade socioambiental em obrigação concreta, não apenas em discurso de marketing.

A pergunta que devemos fazer não é apenas “quanto custa produzir?”, mas “quanto custa para o planeta aquilo que estamos produzindo?”.
Porque no final, não existirá mercado saudável em uma sociedade em colapso. Não existirá consumo em um planeta desequilibrado. Não existirá prosperidade econômica se destruirmos as condições naturais que sustentam a vida, a produção de alimentos, a saúde pública, a água, o clima e a estabilidade social.
Insistir em um modelo que acelera a produção, amplia o consumo e ignora o descarte é como dirigir um carro em alta velocidade diante de um penhasco e discutir apenas como aumentar a potência do motor. A questão não é acelerar mais. A questão é desviar o caminho.
As figurinhas da Copa nos lembram que a sustentabilidade não está distante da vida cotidiana. Ela está no que compramos, no que jogamos fora, no que ensinamos às crianças e no que aceitamos como normal. Se queremos um futuro sustentável e regenerativo, precisamos começar pelo básico, nada deveria ser produzido sem que sua volta ao ciclo da vida, da economia ou da natureza estivesse garantida.
O planeta não pode mais ser o destino final da irresponsabilidade humana.
Veja outras matérias da coluna SUSTENTABILIDADE E REGENERAÇÃO no link: http://www.band.com.br/band-vale/colunistas/sustentabilidade-regeneracao
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