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Natureza em movimento: São José ganha Clube de Observadores de Aves (COA)

Por Fabiano Porto (@fabiano.pporto)

Por Redação
REDAÇÃO

10/10/2025 • 10:56 • Atualizado em 10/10/2025 • 10:56

Sustentabilidade e Regeneração - com Fabiano Porto
Evento de lancamento do COA SJC

Evento de lancamento do COA SJC

Divulgação

Em meio ao concreto e ao ruído das cidades, há um outro mundo que quase sempre passa despercebido, um mundo de cantos, cores e asas. Enquanto seguimos apressados por nossas rotinas, centenas de espécies de aves dividem conosco o mesmo território urbano, pousam em praças, parques e até nos fios de energia, lembrando que a natureza ainda resiste, mesmo quando fingimos não vê-la.

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Nos últimos anos, cresce o reconhecimento de que a biodiversidade urbana tem um papel essencial na qualidade de vida das pessoas e na estabilidade dos ecossistemas locais. Estudos da Universidade de Exeter, no Reino Unido, indicam que moradores de cidades com maior presença de aves e áreas verdes relatam menores níveis de estresse e ansiedade. O contato com a natureza cotidiana, e não apenas com florestas distantes, é um fator de equilíbrio emocional e mental.

É justamente nesse contexto que surge o Clube de Observadores de Aves de São José dos Campos (COA-SJC), lançado no último dia 5 de outubro, no Parque Burle Marx. A iniciativa nasceu do desejo de um grupo de moradores e pesquisadores em valorizar a avifauna local e fortalecer o senso de pertencimento à natureza dentro da cidade.“A observação de aves é uma porta de entrada para a educação ambiental. Ela nos tira da rotina e nos faz perceber como tudo está conectado: a ave, a árvore, o rio, o inseto. Essa percepção transforma a forma como vemos o mundo”, explica Janaína Souza, cofundadora do COA-SJC.

O clube reúne observadores experientes e iniciantes movidos por um propósito comum, observar para compreender, e compreender para conservar. Mais do que um hobby, o birdwatching tem se consolidado como uma forma de educação ambiental e ciência cidadã. Por meio de plataformas como WikiAves e eBird, dados coletados pelos próprios observadores alimentam bancos de informações usados em pesquisas científicas sobre migração, reprodução e conservação de espécies.

No caso do COA-SJC, o objetivo é ampliar essa rede e aproximar a população da natureza que vive nos próprios bairros. O grupo escolheu como símbolo o arapaçu-de-cerrado (Lepidocolaptes angustirostris), uma ave que remete aos antigos campos de cerrado da região, bioma que hoje sobrevive apenas em fragmentos. “São José dos Campos possui uma biodiversidade incrível, mas muitas vezes despercebida. Queríamos mostrar às pessoas a beleza que está ao nosso redor e despertar um senso de responsabilidade coletiva. Quando alguém se encanta por uma ave, passa a se importar mais com o meio ambiente como um todo”, completa Janaína.

A ideia é simples, mas poderosa. Cada pessoa que aprende a reconhecer o canto de um sabiá-laranjeira ou o voo de um tucano-de-bico-verde passa a enxergar o entorno de maneira diferente. A cidade deixa de ser apenas um conjunto de ruas e prédios e se torna também um ecossistema vivo, que abriga e depende da fauna e da flora para manter seu equilíbrio.

A observação de aves, nesse sentido, reconecta o olhar urbano com o ritmo da natureza, oferecendo uma forma silenciosa de resistência em tempos de distanciamento ecológico. Em sua primeira atividade oficial, o clube reuniu mais de 70 pessoas no Parque da Cidade. Agora, prepara uma programação contínua de saídas de campo, cursos e palestras, aberta ao público em geral.

Iniciativas como essa também podem gerar impactos econômicos positivos. O turismo de observação de aves, segundo dados do World Travel & Tourism Council, movimenta bilhões de dólares por ano no mundo e tem crescido no Brasil, especialmente em regiões como o Vale do Paraíba e o Litoral Norte, onde eventos como o Avoando São Francisco Xavier já se tornaram tradição.

Mais do que números, o COA-SJC representa uma mudança de olhar sobre o lugar onde vivemos. Em tempos de aquecimento global e perda de biodiversidade, cuidar da natureza não é apenas preservar florestas distantes, mas reconhecer e proteger a vida que pulsa ao nosso redor, nos quintais, nos parques e até nas varandas das casas.

Talvez o primeiro passo para regenerar a relação entre sociedade e meio ambiente esteja justamente em reaprender a ouvir. Porque, como dizem os próprios observadores, “as aves estão por toda parte, esperando para serem descobertas.”

Eventk de lancamento reuniu.cerca de 70 pessoas no parque da cidade em sjc

Eventk de lancamento reuniu.cerca de 70 pessoas no parque da cidade em sjc

Serviço

O Clube de Observadores de Aves de São José dos Campos (COA-SJC) é formado por um grupo de entusiastas comprometidos com a educação ambiental e a conservação da avifauna:Márcio Augusto Pereira, Vagner Luis Camilotti, Janaina Anselmet de Souza, Alessandra Ferreira de Araújo Ribeiro, Mario Rodrigues Terra dos Santos, Gabriela Rodrigues França, Maiara Acorsi Tavares, Juliano Carvalho Zucareli, Rubelio de Souza, Gábor Imre Nagy e Luciana Elisa de Oliveira Pereira.

Contato: [email protected]Instagram: @coa.sjcampos

Entrevista completa – Clube de Observadores de Aves de São José dos Campos (COA-SJC)

Entrevistada: Janaína Souza, cofundadora do COA-SJC

1. Origem e Propósito

1. Como surgiu o Clube de Observadores de Aves de São José dos Campos (COA-SJC) e quem esteve envolvido na sua criação?R: O Clube de Observadores de Aves de São José dos Campos (COA-SJC) foi fundado por um grupo de entusiastas de observação de aves no município. A iniciativa partiu do desejo de institucionalizar a atividade na região, promovendo-a de forma organizada para fomentar a educação ambiental, a ciência cidadã e a conservação da avifauna local e, porque não, da natureza em geral. O COA-SJC surge, portanto, como um espaço de troca de conhecimento e mobilização, com o objetivo central de fortalecer a comunidade de observadores de aves em São José dos Campos e contribuir para a valorização do patrimônio natural da região.

Entre os fundadores envolvidos na criação e organização do COA-SJC estão: Márcio Augusto Pereira, Vagner Luis Camilotti, Janaina Anselmet de Souza, Alessandra Ferreira de Araujo Ribeiro, Mario Rodrigues Terra dos Santos, Gabriela Rodrigues França, Maiara Acorsi Tavares, Juliano Carvalho Zucareli, Rubelio de Souza, Gábor Imre Nagy e Luciana Elisa de Oliveira Pereira.

2. Qual é o principal propósito do COA-SJC — observação de aves, educação ambiental, ciência cidadã ou conservação da biodiversidade?R: Na verdade, nosso propósito é uma combinação de tudo isso. Não vemos como separar uma coisa da outra. Nossa base é a observação de aves, que nos conecta com a natureza. A partir daí, nosso trabalho se expande para educação ambiental, levando o conhecimento sobre aves a mais pessoas. Também incentivamos a ciência cidadã, permitindo que observadores de aves, entusiastas da natureza e outros cidadãos participem ativamente de projetos de pesquisa científica, contribuindo com informações valiosas. Plataformas online como eBird e WikiAves facilitam essa colaboração, permitindo que dados sobre aves sejam coletados e compartilhados globalmente. Tudo isso culmina na conservação da biodiversidade, nosso objetivo final, protegendo as aves e seus habitats.

3. O que motivou vocês a iniciarem esse movimento na cidade?R: A motivação veio da própria riqueza natural que temos aqui. São José dos Campos possui uma biodiversidade incrível, mas muitas vezes despercebida. Queríamos mostrar às pessoas a beleza que está ao nosso redor e despertar um senso de responsabilidade coletiva. Quando alguém se encanta por uma ave, passa a se importar mais com o meio ambiente como um todo.

Também percebemos que a observação de aves vem crescendo e que eventos de observação de aves estão se tornando maiores e mais frequentes, o que é maravilhoso. No Vale, por exemplo, temos o “Avoando São Francisco Xavier”, que virou lei em São José dos Campos (Lei 10.999/2024) e que ocorre na terceira semana de julho, e também o “Avistando”, evento que vem ocorrendo há dois anos em várias cidades do Vale e do Litoral Norte.

No entanto, sentimos falta de um espaço onde pudéssemos congregar os observadores do município (e mesmo da região do Vale) para além desses eventos, e que nos permitisse expandir a atividade, engajar novos participantes e também atuar localmente nas discussões acerca da gestão e da proteção da natureza da nossa região.

2. Atuação e Organização

4. Como o grupo funciona hoje? Há encontros, saídas de campo, atividades fixas?R: Sim. Nosso objetivo é estar sempre em movimento. No último dia 5 de outubro, em celebração ao Dia Mundial das Aves, realizamos a inauguração oficial do COA-SJC no Parque Burle Marx (Parque da Cidade), reunindo mais de 70 participantes. Foi emocionante sentir o entusiasmo da comunidade e de observadores de cidades vizinhas participando da nossa primeira atividade.

Estamos agora elaborando a agenda de 2026, que trará atividades mensais voltadas à observação de aves, educação ambiental e ciência cidadã, excelentes oportunidades para observar, aprender e compartilhar experiências. Nossa principal atuação envolverá saídas de campo para observação de aves, cursos e palestras e outras ações que ampliem o conhecimento sobre a avifauna e estimulem o engajamento com a natureza.

Uma atuação importante será o estabelecimento de parcerias com movimentos já existentes, fortalecendo e valorizando iniciativas consolidadas. Um exemplo é o Observatório de Aves do Parque Vicentina Aranha, conduzido há 11 anos pelo médico veterinário e ornitólogo Vagner Camilotti, atual vice-presidente do COA-SJC.

Todas as nossas atividades serão abertas ao público e divulgadas em nossos canais oficiais. Qualquer pessoa poderá participar, não é preciso ser especialista, basta ter curiosidade, amor pela natureza e vontade de aprender.

5. Quem pode participar e como as pessoas interessadas podem se envolver?R: As portas estão sempre abertas. Quem tiver interesse pode nos procurar nas redes sociais (@coa.sjcampos), participar de uma de nossas atividades e, se gostar, se tornar associado. O mais importante para nós é a participação e o envolvimento de cada um, sempre com respeito à natureza e aos princípios éticos do COA-SJC.

6. Que parcerias têm sido importantes para fortalecer o trabalho do COA-SJC?R: As parcerias são fundamentais. Embora ainda não tenhamos parceiros formais, estamos em busca de colaborações com órgãos públicos, como secretarias de meio ambiente, além de ONGs, escolas e instituições de pesquisa. Essas conexões são essenciais para ampliar nosso alcance e aumentar o impacto das ações de conservação. Estamos abertos e entusiasmados para construir novas parcerias com pessoas, grupos e instituições que compartilhem nosso propósito.

3. Aves e Biodiversidade

7. Quais são as espécies mais comuns ou emblemáticas que vocês encontram na região?R: As aves mais comuns são o arapaçu-de-cerrado (Lepidocolaptes angustirostris), que, inclusive, é a ave-símbolo do COA-SJC, escolhida por sugestão do nosso vice-presidente, Vagner Camilotti, em referência aos antigos campos de cerrado que caracterizavam a região. Apesar de hoje existirem poucos remanescentes desse bioma, trata-se de uma espécie ainda bastante comum em nossa região.

Coruja Caburé (Glaucidium brasilianum), registrada no dia do evento de lancamento do COA

Coruja Caburé (Glaucidium brasilianum), registrada no dia do evento de lancamento do COA

Também são frequentes o bem-te-vi (Pitangus sulphuratus), sabiá-laranjeira (Turdus rufiventris) e joão-de-Barro (Furnarius rufus). Entre as espécies emblemáticas, se destacam o tucano-de-bico-verde (Ramphastos dicolorus) e o jacuguaçu (Penelope obscura) ou mesmo os pica-paus, como o pica-pau-de-cabeça-amarela (Celeus flavescens), fácil de encontrar nos parques do município. Encontrá-las é sempre uma alegria e nos mostra muito sobre a qualidade dos nossos ambientes naturais.

8. Há registros de aves raras, migratórias ou ameaçadas de extinção?R: Anualmente, recebemos o falcão-peregrino (Falco peregrinus), que migra da América do Norte para o Brasil entre outubro e abril. Também registramos aves migratórias nacionais, como o bem-te-vi-rajado (Myiodynastes maculatus), o suiriri (Tyrannus melancholicus) e a tesourinha (Tyrannus savana), que se deslocam conforme o clima e a disponibilidade de alimento, além de várias espécies de andorinhas.

Entre as espécies ameaçadas, estão a jacutinga (Aburria jacutinga), endêmica da Mata Atlântica e que está sendo reintroduzida em São Francisco Xavier, e o bicudinho-do-brejo-paulista (Formicivora paludicola), que depende de brejos cada vez mais degradados no Vale.

9. Que locais de São José dos Campos e arredores são os melhores para observação?R: Vai depender do nível de conhecimento do observador. Para um observador iniciante, o ideal é começar pelos parques do município, como Parque Burle Marx (Parque da Cidade) ou pelo Parque Vicentina Aranha, Parque dos Pássaros (SFX). Até da janela de casa ou do apartamento pode se tornar um ponto de observação cheio de descobertas.

O Horto Florestal Augusto Ruschi é um dos melhores locais para observação, mas exige mais conhecimento do observador pelas dificuldades de se observar as aves dentro da mata. São Francisco Xavier está se tornando um lugar bastante procurado por observadores em função de aves que se encontram nos locais mais altos do município e também pelo incentivo ao turismo ecológico no distrito.

Os arrozais de São José dos Campos e do Vale oferecem oportunidades únicas na região para se observar aves que gostam de ambientes aquáticos, principalmente quando os campos de arroz estão alagados. Oportunidade e locais não faltam na região.

4. Educação, Conscientização e Impacto

10. Como a observação de aves pode contribuir para a educação ambiental e a mudança de percepção sobre a natureza?R: A observação de aves é uma porta de entrada para a educação ambiental. Ela nos tira da rotina e nos faz perceber os detalhes da natureza. Ao observar as aves, começamos a entender como tudo está conectado: a ave, a árvore, o rio, o inseto. Essa percepção transforma a forma como vemos o mundo e nos torna mais conscientes da responsabilidade de protegê-lo.

Além disso, incentiva respeito e cuidado pelo meio ambiente. Ao perceber a riqueza e a fragilidade da vida selvagem, torna-se mais natural valorizar e proteger os habitats, apoiar ações de conservação e adotar atitudes sustentáveis no dia a dia.

11. Vocês já observaram um aumento no interesse da comunidade pela avifauna local desde o início do projeto?R: Como o projeto ainda está no seu início, não temos como avaliar ainda a sua magnitude. Porém, na primeira atividade de inauguração, mais de 70 pessoas participaram, demonstrando curiosidade e vontade de aprender sobre observação de aves (o que é um bom sinal).

O aumento do interesse pela observação de aves é um fato já bem documentado e é uma das razões também da criação do COA. É notável a participação de crianças, que acabam incentivando os pais a participar também. É muito gratificante ver essa curiosidade despertar, e acreditamos que estamos plantando a sementinha do amor pelas aves e pela natureza na comunidade.

12. Que tipo de transformação pessoal ou social a prática do birdwatching pode gerar nas pessoas?R: O birdwatching é transformador. Em nível pessoal, funciona como uma terapia: reduz o estresse, exercita o corpo, a paciência e a memória, e nos conecta com o presente. Socialmente, fortalece laços, cria comunidades e incentiva a defesa do meio ambiente.

Além de ser importante para o ecossistema, o birdwatching pode impulsionar a economia local, já que pessoas de todo o mundo sonham em conhecer o Brasil por sua rica biodiversidade e avifauna. Ao promover o turismo sustentável, todos saem ganhando, tanto a natureza quanto as comunidades locais, com mais consciência ambiental.

5. Desafios e Futuro

13. Quais os maiores desafios para manter e expandir o trabalho de vocês?R: Nossos principais desafios em um primeiro momento são o estabelecimento de parcerias e também o de encontrarmos uma base física (uma sede) para desenvolver nossas atividades de estudo das aves e educação ambiental. Precisamos de recursos para produzir materiais e organizar passeios educativos, além do engajamento da comunidade, que é nossa principal parceira. Estamos totalmente comprometidos em tornar isso possível e abertos a parcerias com quem compartilhe nossa visão e queira ajudar a expandir este projeto.

14. Quais são os próximos passos ou sonhos para o Clube de Observadores de Aves SJC?R: Sonhamos grande. Queremos ampliar projetos de educação, realizar pesquisas, criar um grande banco de dados sobre as aves da região e, quem sabe, transformar São José dos Campos em uma referência em observação de aves e conservação. Acima de tudo, queremos nos tornar uma voz ativa na defesa do nosso patrimônio natural, inspirando mais pessoas a se conectarem com a natureza.

15. Que mensagem vocês deixariam para quem quer começar a observar aves e se conectar mais com a natureza?R: A nossa mensagem é: comece. Não precisa de equipamento caro nem de muito conhecimento. Basta um olhar curioso e a vontade de se conectar com a natureza. Olhe pela sua janela, vá a um parque, preste atenção aos sons. As aves estão por toda parte, esperando para serem descobertas. Nos projetos já ocorrendo na cidade, como o Observatório de Pássaros do Vicentina Aranha e o Vem Passarinhar em São Francisco Xavier, há binóculos disponíveis para quem quer começar, experimentar e, depois, gostando, investir na atividade, além desses projetos contarem com profissionais super atenciosos para que a pessoa dê os primeiros passos na observação de aves.

E se quiser companhia nessa jornada, junte-se

Veja outras matérias da coluna SUSTENTABILIDADE E REGENERAÇÃO no link: http://www.band.com.br/band-vale/colunistas/sustentabilidade-regeneracao

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