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O gás invisível que São José dos Campos começou a investigar

E que pode mudar a gestão climática das cidades

FABIANO PORTO (@FABIANO.PPORTO)

02/07/2026 • 11:55 • Atualizado em 02/07/2026 • 11:59

Sustentabilidade e Regeneração - com Fabiano Porto
O gás invisível que São José dos Campos começou a investigar

O gás invisível que São José dos Campos começou a investigar

Divulgação

São José dos Campos iniciou recentemente um estudo inédito no aterro sanitário municipal para monitorar, medir e compreender com alta precisão as emissões de metano liberadas na atmosfera. Embora o tema possa parecer extremamente técnico à primeira vista, ele toca diretamente uma das questões mais importantes da atualidade: como as cidades irão enfrentar as mudanças climáticas nas próximas décadas. Afinal, o gás metano é 80 vezes mais poluente e nocivo que o gás carbônico para a atmosfera e o agravamento do efeito estufa.

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O projeto utiliza tecnologias avançadas de monitoramento atmosférico, incluindo drones, sensores de alta precisão e modelagem climática para identificar emissões reais de gases de efeito estufa no aterro municipal. Mais do que uma iniciativa ambiental isolada, o estudo representa uma mudança de paradigma na forma como cidades e governos começam a lidar com suas emissões.

E talvez o principal ponto seja justamente este: pela primeira vez, deixa-se de olhar apenas para estimativas teóricas e passa-se a medir o que realmente está sendo lançado na atmosfera.

“O que não é medido não é gerenciado”, resume o engenheiro ambiental e pesquisador Lucas Gatti Domingues, especialista em gases de efeito estufa e um dos envolvidos na iniciativa.

Pode parecer um detalhe técnico, mas essa diferença muda completamente a forma de entender e combater o problema.

Historicamente, grande parte das emissões urbanas foi calculada por inventários climáticos baseados em médias estatísticas e projeções matemáticas. Esses modelos continuam sendo importantes, mas possuem limitações quando o objetivo é identificar vazamentos específicos, perdas energéticas ou áreas críticas de emissão.

“Os inventários tradicionais ajudam a entender cenários gerais, mas muitas vezes não conseguem mostrar exatamente onde estão os principais problemas ou qual é a magnitude real das emissões”, explica Lucas.

O foco do estudo em São José dos Campos está no metano, um dos gases mais perigosos para o equilíbrio climático do planeta. Embora o dióxido de carbono (CO₂) seja o mais conhecido pela sociedade, o metano possui um potencial de aquecimento muito superior no curto prazo. Considerando um prazo de cerca de 20 anos, ele pode aquecer a atmosfera aproximadamente 80 vezes mais que o CO₂.

E os aterros sanitários estão entre as principais fontes urbanas desse gás.

Quando resíduos orgânicos entram em decomposição sem oxigênio, ocorre a geração de biogás, composto principalmente por metano. Parte dele pode ser capturada e utilizada para geração de energia elétrica ou combustível. O problema é que, quando há falhas no sistema de drenagem e captação, esse gás escapa diretamente para a atmosfera.

E aqui surge um paradoxo importante: o mesmo gás que agrava as mudanças climáticas também possui valor energético.

“As emissões de metano representam simultaneamente um déficit ambiental e econômico”, afirma Lucas Gatti. “Quando esse gás escapa para a atmosfera, perdemos uma oportunidade energética e agravamos o problema climático.”

Ou seja, não se trata apenas de sustentabilidade. Trata-se também de eficiência, inovação e gestão estratégica de recursos.

O projeto desenvolvido em São José dos Campos identificou justamente oportunidades de melhoria na rede de coleta e aproveitamento do biogás do aterro. As medições permitiram compreender com mais precisão quais áreas possuem maior potencial de otimização da captura do gás e expansão do aproveitamento energético.

Segundo Lucas, uma das grandes diferenças dessa iniciativa é o uso de medições reais em campo, algo ainda pouco comum na gestão climática brasileira.

“O Brasil avançou muito na elaboração de inventários, mas ainda precisa desenvolver sistemas modernos de monitoramento direto, verificável e rastreável das emissões”, ressalta.

E essa discussão tende a ganhar enorme relevância nos próximos anos.

O avanço do mercado de carbono, das regulações ambientais e das exigências internacionais deverá pressionar governos e empresas a desenvolverem mecanismos cada vez mais robustos de monitoramento climático. Em outras palavras: sustentabilidade baseada apenas em discurso tende a perder espaço para sustentabilidade baseada em dados concretos.

Isso porque a capacidade de medir emissões reais poderá impactar diretamente acesso a financiamentos, geração de créditos de carbono, reputação institucional e até competitividade econômica.

Satélites internacionais já conseguem identificar áreas consideradas “superemissoras” de metano ao redor do planeta. Países, empresas e cidades que não desenvolverem capacidade técnica para monitorar e reduzir suas emissões poderão enfrentar crescentes dificuldades econômicas e regulatórias.

Nesse contexto, São José dos Campos acaba se tornando um exemplo interessante de como inovação tecnológica e gestão pública podem começar a caminhar juntas na agenda climática.

Mais do que um estudo ambiental pontual, o que está acontecendo no aterro municipal simboliza algo maior, a entrada das cidades em uma nova era de gestão climática baseada em ciência, dados e monitoramento de alta precisão.

E talvez este seja um dos maiores desafios das próximas décadas.

Porque não bastará mais apenas dizer que se está reduzindo emissões. Será preciso provar.

O Brasil possui enorme potencial para liderar soluções climáticas globais. Temos biodiversidade, capacidade científica, matriz energética relativamente limpa e oportunidades gigantescas em setores como biogás, agropecuária regenerativa em expansão e mercado de carbono promissor. Mas essa liderança dependerá da nossa capacidade de integrar ciência, inovação tecnológica e gestão pública.

Talvez o futuro da agenda climática esteja justamente nisso: transformar gases invisíveis em informações concretas capazes de orientar decisões reais.

E São José dos Campos acaba de dar um passo importante nessa direção.

ENTREVISTA COMPLETA COM LUCAS GATTI

1. Como surgiu a parceria e a decisão de iniciar esse projeto em São José dos Campos?

A parceria surgiu inicialmente a partir da aproximação com o Sr. Jeferson Rocha, que nos apresentou ao secretário Marcelo Manara. A partir dessas conversas, identificamos em São José dos Campos um ambiente extremamente favorável para o desenvolvimento de uma iniciativa inovadora na área ambiental.

A cidade possui um papel estratégico no desenvolvimento tecnológico do Brasil e reúne características únicas para esse tipo de projeto, especialmente pela integração entre inovação, gestão pública e tecnologia. Além disso, o aterro municipal possui reconhecimento da CETESB com nota 10, o que demonstra um alto nível de gestão ambiental e cria uma oportunidade relevante para implementação de novas soluções voltadas ao monitoramento e mitigação de emissões.

2. O que esse projeto em São José dos Campos tem de diferente em relação a outras iniciativas ambientais no Brasil?

O projeto se diferencia por unir inovação tecnológica, medições reais em campo e uma estratégia pública estruturada dentro do programa Cidade Carbono Neutro. O objetivo é contribuir para que São José dos Campos se consolide como uma referência nacional em ações relacionadas ao entendimento, monitoramento e redução das emissões de gases de efeito estufa.

A principal diferença em relação a iniciativas tradicionais é que não trabalhamos apenas com estimativas teóricas ou inventários baseados em fatores médios de emissão. O projeto utiliza tecnologias avançadas capazes de realizar medições reais de metano com alta precisão, garantindo maior confiabilidade das informações.

3. Qual é o principal objetivo do projeto no aterro municipal?

O principal objetivo do projeto foi realizar uma prova de conceito utilizando novas tecnologias de monitoramento de emissões de metano aplicadas ao contexto de um aterro municipal público. Embora nossas tecnologias já tenham sido utilizadas em ambientes industriais e no setor privado, esta foi uma das primeiras iniciativas voltadas à aplicação prática em um aterro associado à gestão pública.

A proposta busca demonstrar o potencial dessas ferramentas para realizar medições reais e altamente precisas das emissões, permitindo compreender de forma mais clara a contribuição do aterro de São José dos Campos para a atmosfera.

Além disso, o projeto também busca avaliar o potencial de ampliação do aproveitamento energético do biogás.

4. Como funciona a tecnologia utilizada para identificar emissões de metano com alta precisão?

Não existem soluções simples para problemas complexos, especialmente quando falamos de emissões atmosféricas. Por isso, utilizamos uma combinação de tecnologias, metodologias e ferramentas estatísticas desenvolvidas e adaptadas a partir de experiências da indústria de óleo e gás.

Grande parte dessa estrutura foi desenvolvida junto à ANP por meio do programa de empreendedorismo NAVE, no qual desenvolvemos o Sistema de Gerenciamento de Emissões Scink (SGEM).

A metodologia integra diferentes abordagens complementares, incluindo medições com drones, medições diretas próximas às fontes emissoras e análises atmosféricas avançadas.

5. Quais problemas ou oportunidades já foram identificados no aterro?

O projeto permitiu identificar oportunidades importantes de otimização na rede de coleta e aproveitamento do biogás já existente no aterro. Atualmente, o sistema já realiza captação de biogás e geração de energia para o município, mas as medições permitiram compreender com maior precisão quais áreas possuem maior potencial de melhoria e expansão.

Um dos principais pontos observados foi a possibilidade de aprimorar a eficiência da rede de drenagem e canalização do biogás, permitindo priorizar investimentos nos locais com maior potencial de captura e recuperação energética.

6. Como a melhoria na captura de metano pode gerar ganhos ambientais e econômicos para a cidade?

As emissões de metano em aterros sanitários representam, ao mesmo tempo, um déficit ambiental e econômico. Do ponto de vista ambiental, o metano é um gás de efeito estufa com potencial de aquecimento cerca de 28 vezes superior ao CO₂.

Ao mesmo tempo, existe também um déficit econômico, porque esse gás pode ser aproveitado como biocombustível para geração de energia e outras aplicações energéticas.

7. Qual a importância de medir emissões reais e não apenas trabalhar com estimativas e inventários tradicionais?

Os inventários e estimativas tradicionais são ferramentas importantes e devem continuar sendo utilizados. Eles são fundamentais para identificar os principais setores emissores e orientar estratégias iniciais de gestão climática.

No entanto, quando avançamos para fontes emissoras específicas e buscamos ações mais precisas de mitigação, as medições diretas passam a ser essenciais. Em muitos casos, os inventários tradicionais não conseguem identificar com precisão onde estão os principais vazamentos ou qual é a magnitude real das emissões em determinados pontos.

8. Esse modelo pode futuramente ser aplicado em outras cidades brasileiras?

Sem dúvida. Não apenas pode, como entendemos que esse modelo deve ser expandido para outras cidades brasileiras.

O Brasil ainda possui desafios importantes relacionados à gestão de resíduos sólidos, incluindo áreas com lixões ativos ou em processo de regularização, mas também conta com cerca de 500 aterros sanitários que possuem participação significativa nas emissões nacionais de metano.

Além do impacto ambiental, existe também um importante déficit econômico associado a essas emissões, já que parte desse metano poderia estar sendo recuperada e utilizada para geração de energia e produção de biocombustíveis.

9. O que essa iniciativa representa para a gestão climática e ambiental no Brasil?

Nós, da SCINK, há dois anos defendemos que o Brasil precisa dar um passo além das metodologias tradicionais baseadas apenas em estimativas e inventários. Essas ferramentas continuam sendo importantes, mas entendemos que o próximo avanço necessário é aumentar nossa capacidade de realizar medições reais, diretas, verificáveis e rastreáveis das emissões.

Existe uma frase muito utilizada em gestão que resume bem esse conceito: “o que não é medido não é gerenciado”. Para que possamos implementar políticas climáticas realmente assertivas, é fundamental compreender com maior precisão como, onde e em qual magnitude as emissões estão ocorrendo.

Isso ganha ainda mais relevância em um cenário de regulamentação climática crescente e de expansão do mercado de carbono. Ferramentas como créditos de carbono só conseguirão ganhar escala e credibilidade se estiverem apoiadas em dados robustos, transparentes e tecnicamente verificáveis.

Nesse sentido, entendemos que iniciativas como essa representam um avanço importante para o Brasil, tanto do ponto de vista ambiental quanto tecnológico.

Veja outras matérias da coluna SUSTENTABILIDADE E REGENERAÇÃO no link: http://www.band.com.br/band-vale/colunistas/sustentabilidade-regeneracao

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