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Para cada dólar que protege a natureza, trinta financiam sua destruição

Fabiano Porto (@fabiano.pporto)

Por Redação
REDAÇÃO

16/07/2026 • 16:00 • Atualizado em 16/07/2026 • 16:00

Sustentabilidade e Regeneração - com Fabiano Porto
Para cada dólar que protege a natureza, trinta financiam sua destruição

Para cada dólar que protege a natureza, trinta financiam sua destruição

Divulgação

Imagine um grande incêndio florestal. De um lado, uma pessoa tenta apagar as chamas com um balde de água. Do outro, trinta pessoas continuam espalhando combustível pela floresta. Por mais dedicado que seja o trabalho do bombeiro, dificilmente o incêndio será controlado enquanto a destruição continuar recebendo muito mais força, recursos e incentivos.

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Essa imagem ajuda a compreender um dos dados mais preocupantes divulgados recentemente pelo Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente. Segundo o relatório State of Finance for Nature 2026, para cada dólar investido na proteção ou restauração da natureza, aproximadamente 30 dólares são direcionados a atividades que contribuem para sua degradação.

O relatório, publicado em janeiro de 2026 com dados referentes a 2023, estima que US$ 7,3 trilhões foram destinados a fluxos financeiros considerados negativos para a natureza. Desse total, US$ 4,9 trilhões vieram de investimentos privados concentrados principalmente nos setores de energia, serviços públicos, indústria e materiais básicos. Outros US$ 2,4 trilhões corresponderam a subsídios públicos ambientalmente prejudiciais destinados a setores como combustíveis fósseis, agricultura, transporte, água e construção.

Enquanto isso, apenas US$ 220 bilhões foram destinados às chamadas soluções baseadas na natureza, que incluem ações como restauração de florestas, recuperação de áreas degradadas, proteção de nascentes, agricultura regenerativa, ampliação de áreas verdes urbanas e conservação dos ecossistemas. Quase 90% desse investimento veio do poder público. A participação do setor privado ficou em apenas US$ 23,4 bilhões.

O problema, portanto, não parece ser exatamente a falta de dinheiro.

O dinheiro existe. Está apenas sendo direcionado para o lado errado.

Estamos financiando o problema que tentamos resolver

Nas últimas décadas, multiplicaram-se os projetos ambientais, fundos climáticos, programas de restauração, compromissos empresariais, conferências internacionais e metas de neutralização de carbono. Todos são importantes e necessários.

Porém, não basta criar pequenos projetos de proteção ambiental enquanto os grandes fluxos financeiros continuam estimulando atividades que destroem florestas, contaminam rios, degradam solos, ampliam a exploração de combustíveis fósseis e pressionam os ecossistemas.

É como tentar enxugar o chão sem fechar a torneira.

Governos anunciam metas climáticas, mas continuam oferecendo incentivos fiscais e subsídios para atividades altamente poluentes. Bancos divulgam compromissos de sustentabilidade, mas nem sempre demonstram com transparência quais atividades estão sendo financiadas. Empresas promovem campanhas ambientais enquanto mantêm cadeias de fornecedores sem controle adequado sobre desmatamento, poluição ou exploração predatória dos territórios.

O relatório das Nações Unidas demonstra que a crise ambiental não é causada apenas por comportamentos individuais inadequados ou pela falta de consciência da população. Ela também é consequência de decisões financeiras, políticas econômicas, subsídios, critérios de crédito e escolhas de investimentos.

Cada financiamento aprovado influencia o tipo de economia que será construído.

Cada subsídio público representa uma escolha política.

Cada investimento revela qual modelo de desenvolvimento estamos incentivando.

Os incentivos econômicos não são neutros

Quando um governo concede benefícios fiscais, crédito subsidiado ou apoio financeiro a determinado setor, está ajudando aquela atividade a crescer. Quando bancos oferecem melhores condições para determinados empreendimentos, também estão fortalecendo um modelo de produção.

Essas decisões não são neutras. Elas podem contribuir para a prosperidade econômica e socioambiental ou aprofundar a degradação dos sistemas naturais dos quais toda a economia depende.

Um estudo publicado pela Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico analisou o apoio público concedido a produtores agrícolas em 54 países. Entre 2021 e 2023, menos de 0,6% dos US$ 295 bilhões anuais de apoio orçamentário foi destinado diretamente a bens públicos ambientais, como a conservação da biodiversidade. Ao mesmo tempo, aproximadamente US$ 75 bilhões foram destinados a medidas que podem distorcer mercados e colocar o meio ambiente em risco, incluindo incentivos associados ao uso de fertilizantes, combustíveis e outros insumos.

Isso não significa que devemos simplesmente retirar, de forma abrupta, todo apoio econômico a setores essenciais. Agricultura, energia, transporte, construção e infraestrutura são fundamentais para o funcionamento da sociedade.

A questão é outra: quais modelos de agricultura, energia, transporte e construção estamos financiando?

Podemos estimular uma agricultura que recupera o solo, protege a água, diversifica a produção e remunera adequadamente os agricultores. Ou podemos continuar incentivando modelos que degradam a terra, contaminam rios e aumentam a dependência de insumos químicos.

Podemos financiar energias renováveis e sistemas descentralizados. Ou prolongar artificialmente a dependência de combustíveis fósseis.

Podemos construir cidades arborizadas, resilientes e adaptadas às mudanças climáticas. Ou continuar impermeabilizando o solo, ocupando áreas de risco e substituindo a vegetação por concreto.

A transição não exige apenas mais dinheiro para projetos ambientais. Exige uma revisão profunda dos critérios utilizados para distribuir os recursos que já existem.

O papel dos bancos, investidores e empresas

Grande parte dos impactos ambientais começa muito antes de uma árvore ser derrubada ou de um rio ser contaminado. Começa na reunião em que um financiamento é aprovado, na análise de risco de um banco, na decisão de um fundo de investimentos ou na contratação de um fornecedor.

O capital financeiro define quais projetos sairão do papel.

Por isso, bancos e investidores precisam ir além da análise tradicional de lucratividade e capacidade de pagamento. Também devem avaliar os impactos ambientais, climáticos e sociais dos empreendimentos financiados.

Não se trata apenas de responsabilidade ambiental. A degradação da natureza também representa risco econômico.

Uma empresa pode depender de água abundante, estabilidade climática, fertilidade do solo, disponibilidade de matérias-primas, polinização, proteção contra enchentes ou regularidade das chuvas, ainda que essas dependências não apareçam em seus balanços financeiros.

Quando os ecossistemas entram em colapso, os custos aparecem: redução da produção, escassez de insumos, interrupção de atividades, aumento dos seguros, perda de ativos, conflitos territoriais e insegurança jurídica.

O relatório da ONU aponta oportunidades concretas para essa transição, como agricultura regenerativa, manejo florestal sustentável, cadeias produtivas livres de desmatamento, restauração de ecossistemas, infraestrutura urbana verde, pagamentos por serviços ambientais e mecanismos financeiros vinculados à conservação da natureza.

As empresas precisam compreender que não estão separadas da natureza. Toda organização funciona dentro de um território, utiliza energia, água e materiais, gera resíduos e depende de uma complexa rede de relações humanas e ambientais.

Sustentabilidade não deve ser apenas um departamento, uma campanha ou um relatório anual. Precisa fazer parte das decisões sobre investimentos, produtos, fornecedores, processos produtivos e modelos de negócio.

E qual é o papel do consumidor?

Nós também participamos desse sistema por meio das nossas escolhas de consumo, dos bancos que utilizamos e dos produtos que compramos.

Entretanto, é preciso evitar o erro de transferir toda a responsabilidade para o indivíduo. O poder de decisão e a responsabilidade devem ser proporcionais à capacidade de gerar impactos.

Um consumidor escolhendo entre dois produtos possui uma parcela de responsabilidade. Uma empresa definindo uma cadeia global de fornecedores possui uma responsabilidade muito maior. Um banco decidindo onde investir bilhões possui ainda mais poder. E um governo definindo impostos, subsídios, regras e políticas de crédito pode alterar os rumos de setores inteiros da economia.

A transformação depende da participação de todos, mas não podemos tratar como equivalentes as escolhas de uma família e as decisões de grandes instituições financeiras, corporações e governos.

Da compensação para a regeneração

Durante muito tempo, a sustentabilidade foi apresentada como uma tentativa de reduzir danos. Produzir causando menos impacto, emitir menos carbono, gerar menos resíduos e consumir menos recursos.

Tudo isso continua sendo necessário. Mas já não é suficiente.

Em um planeta com florestas degradadas, rios contaminados, solos empobrecidos e cidades cada vez mais vulneráveis aos eventos climáticos extremos, precisamos avançar da redução de impactos para a regeneração.

Regenerar significa recuperar o que foi degradado, restabelecer relações ecológicas, fortalecer comunidades, ampliar a biodiversidade e devolver vitalidade aos territórios.

Segundo o Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente, os investimentos anuais em soluções baseadas na natureza precisam crescer para US$ 571 bilhões até 2030. Isso representa aproximadamente 0,5% do Produto Interno Bruto mundial. Redirecionar apenas uma pequena parcela dos trilhões atualmente destinados a atividades prejudiciais poderia preencher essa lacuna.

Portanto, o desafio não é apenas encontrar novos recursos. É interromper o financiamento da destruição e redirecionar o dinheiro para modelos capazes de produzir prosperidade econômica, social e ambiental.

Estamos tentando apagar um incêndio enquanto continuamos financiando quem distribui os fósforos.

A pergunta que governos, bancos, fundos de investimentos, empresas e consumidores precisam responder é simples: nosso dinheiro está financiando o futuro que desejamos ou o colapso que afirmamos querer evitar?

Não será possível regenerar o planeta enquanto destruir a natureza continuar sendo mais fácil, barato e lucrativo do que protegê-la.

O futuro será definido não apenas pelos nossos discursos ou compromissos ambientais, mas principalmente pelo lugar onde decidirmos colocar o nosso dinheiro.

Veja outras matérias da coluna SUSTENTABILIDADE E REGENERAÇÃO no link: http://www.band.com.br/band-vale/colunistas/sustentabilidade-regeneracao

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