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Reflexões sobre a maior interrupção no abastecimento de água de São José

Por Fabiano Porto (@fabiano.ppporto)

Por Redação
REDAÇÃO

24/07/2026 • 12:02 • Atualizado em 24/07/2026 • 12:02

Sustentabilidade e Regeneração - com Fabiano Porto
Reflexões sobre a maior interrupção no abastecimento de água de São José

Reflexões sobre a maior interrupção no abastecimento de água de São José

Divulgação

Bastaram poucos dias sem água para que São José dos Campos percebesse a fragilidade de toda a estrutura que sustenta o funcionamento de uma cidade.

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A interrupção no abastecimento começou após uma falha em equipamentos antigos durante testes realizados pela Sabesp, obrigando a empresa a antecipar a substituição de três grandes válvulas do principal sistema de captação de água do município. A operação, inicialmente programada para ocorrer entre os dias 21 e 22 de julho, começou emergencialmente no dia 20.

O resultado foi sentido rapidamente: cerca de 70% da população, aproximadamente 450 mil pessoas, foram afetadas. Casas, condomínios, escolas, comércios, restaurantes, academias, empresas e serviços públicos tiveram suas rotinas alteradas. Caminhões-pipa foram mobilizados para atender hospitais, unidades de saúde, instituições para idosos e outros serviços essenciais. Somente depois de três dias a Sabesp informou que o abastecimento havia sido restabelecido em 94,4% dos imóveis.

Certamente deverão ser apuradas as responsabilidades pela falha, pela antecipação do serviço e, principalmente, pela comunicação insuficiente com a população. Mas o episódio também nos convida a uma reflexão que vai muito além da atuação da concessionária.

A falta de água revelou o quanto a sociedade moderna depende de estruturas que quase nunca percebemos enquanto estão funcionando.

Abrimos a torneira e a água simplesmente aparece. Tomamos banho, lavamos roupas, preparamos alimentos, limpamos as casas, damos descarga, produzimos medicamentos, resfriamos máquinas, higienizamos hospitais e mantemos restaurantes, escolas e indústrias funcionando. A água está presente em praticamente todas as atividades humanas, mas raramente paramos para pensar de onde ela vem.

Quando a água deixa de chegar, a cidade começa a parar.

Sem água, rapidamente são comprometidas a higiene pessoal, a preparação dos alimentos e a limpeza dos ambientes. Hospitais precisam reorganizar procedimentos. Restaurantes não conseguem cozinhar ou higienizar utensílios. Escolas enfrentam dificuldades para manter banheiros e cozinhas. Empresas interrompem processos produtivos. Famílias começam a disputar galões nos supermercados e condomínios precisam contratar caminhões-pipa.

Em poucos dias, uma crise no abastecimento pode se transformar em crise sanitária, econômica e social.

E de onde vem a água que abastece São José dos Campos?

O município possui três sistemas de produção: o sistema central, o sistema de São Francisco Xavier e a produção subterrânea por meio de poços. Mas é o sistema que capta água do Rio Paraíba do Sul que sustenta a maior parte da área urbana. A própria dimensão da crise demonstrou essa dependência: quando a captação do principal sistema foi interrompida, cerca de 70% da população foi afetada.

Todos os dias, milhões de litros são retirados do Rio Paraíba do Sul, tratados e conduzidos por tubulações até nossas casas. A água que sai das torneiras joseenses estava, pouco tempo antes, correndo pelo rio que atravessa a cidade.

Esse talvez seja um dos fatos mais impressionantes e, ao mesmo tempo, menos percebidos pela população.

Milhares de pessoas cruzam diariamente as pontes sobre o Paraíba do Sul. Passam de carro, ônibus ou bicicleta, olham rapidamente para suas águas e seguem suas rotinas. Para muitos, o rio é apenas parte da paisagem. Para outros, tornou-se quase invisível.

Mas aquele rio é parte fundamental da infraestrutura da cidade.

São José dos Campos cresceu às margens do Paraíba do Sul, porém, como ocorreu em grande parte das cidades brasileiras, virou as costas para o seu principal curso d’água. O rio passou a ser visto como limite urbano, canal de drenagem, local de descarte ou obstáculo a ser atravessado — e não como o sistema vivo responsável pela nossa própria sobrevivência.

O Paraíba do Sul não abastece apenas nossa cidade. Segundo a Agência Nacional de Águas e Saneamento Básico, suas águas participam do abastecimento de aproximadamente 14,2 milhões de pessoas. A bacia também é utilizada para irrigação, produção industrial, geração de energia e diluição de esgotos. A própria ANA alerta que os despejos de esgoto estão entre as principais fontes de poluição do rio, especialmente nos trechos que atravessam regiões urbanizadas.

Eis uma das maiores contradições de nossa sociedade: utilizamos o mesmo sistema hídrico como fonte de água e destino de nossos resíduos.

Captamos água para beber, utilizamos em nossas casas, contaminamos com matéria orgânica, produtos químicos, medicamentos, óleos, detergentes e microplásticos e, depois, devolvemos tudo ao ciclo natural. Mesmo quando existe tratamento, nem todas as substâncias são completamente removidas. E onde a coleta ainda não foi universalizada, o esgoto pode chegar diretamente aos córregos e rios.

São José dos Campos possui bons indicadores de saneamento e apareceu, em 2025, entre as cidades de grande porte mais bem posicionadas no ranking nacional. Isso deve ser reconhecido. Porém, um rio não respeita os limites administrativos entre municípios. Toda poluição lançada em um afluente ou em uma cidade da bacia pode seguir seu caminho para outras regiões.

A água que passa hoje diante de nós pode ser captada amanhã por outra cidade.

Por isso, cuidar do Paraíba do Sul não é apenas uma questão ambiental. É uma questão de saúde pública, segurança hídrica, desenvolvimento econômico e sobrevivência coletiva.

A interrupção desta semana ocorreu por uma falha em equipamentos. Mas a próxima grande crise poderá ser provocada pela seca, pela contaminação, pelo desmatamento das nascentes, pela ocupação das margens, pelo desperdício ou pelas mudanças climáticas.

Já tivemos sinais claros dessa vulnerabilidade. Entre 2014 e 2016, a bacia enfrentou condições severas de escassez. Em fevereiro de 2015, o conjunto de reservatórios que regula o sistema do Paraíba do Sul chegou a apenas 0,33% de seu volume útil, o menor nível registrado até então.

Imagine agora uma interrupção que não dure dois ou três dias, mas semanas.

Nenhuma cidade moderna está preparada para continuar funcionando normalmente por muito tempo sem água. Não existe tecnologia capaz de substituir um rio saudável, uma nascente preservada ou uma bacia hidrográfica equilibrada.

Precisamos utilizar este episódio como um alerta.

É fundamental fortalecer a proteção das nascentes e das matas ciliares, universalizar a coleta e o tratamento de esgoto em toda a bacia, controlar rigorosamente os efluentes industriais, combater ocupações irregulares nas margens, reduzir perdas nas redes de distribuição e ampliar a segurança e a redundância dos sistemas de abastecimento.

Também precisamos aproximar novamente a população do rio.

Uma sociedade que desconhece a origem da própria água dificilmente lutará para protegê-la. Precisamos de educação ambiental nas escolas, visitas às estações de tratamento, projetos de recuperação das margens, parques fluviais, monitoramento comunitário e informações públicas acessíveis sobre a qualidade das águas.

Mais do que economizar água durante uma emergência, devemos aprender a valorizar o sistema que a produz todos os dias.

Quando o abastecimento for completamente normalizado e a água voltar a correr pelas torneiras, existe o risco de esquecermos rapidamente o que aconteceu. Voltaremos aos banhos longos, à lavagem das calçadas, ao desperdício e à indiferença diante do rio.

Talvez a principal lição desta crise seja justamente não permitir que isso aconteça.

Da próxima vez que você atravessar uma ponte sobre o Rio Paraíba do Sul, olhe para ele com atenção. A água que corre ali não é apenas parte da paisagem. Ela está no café que tomamos, no alimento que preparamos, no banho dos nossos filhos, na limpeza dos hospitais e em praticamente tudo o que sustenta nossa vida na cidade.

O Paraíba do Sul não passa apenas por São José dos Campos.

Ele passa por dentro de nossas casas e de nossos corpos.

A pergunta que fica é: vamos começar a cuidar verdadeiramente do rio enquanto ainda temos água ou continuaremos a valorizá-lo apenas quando nossas torneiras secarem?

Veja outras matérias da coluna SUSTENTABILIDADE E REGENERAÇÃO no link: http://www.band.com.br/band-vale/colunistas/sustentabilidade-regeneracao

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