Band Vale

Construção civil no Brasil entra em fase crítica

Gestão deficiente ameaça avanço tecnológico

BANDFY

23/02/2026 • 16:52 • Atualizado em 23/02/2026 • 16:52

Construção civil no Brasil entra em fase crítica

Construção civil no Brasil entra em fase crítica

Divulgação

A construção civil brasileira chegou a um ponto de inflexão. Embora o país siga formando engenheiros altamente capacitados e reconhecidos pela precisão técnica, o setor convive com um entrave que compromete produtividade, orçamento e competitividade: a ausência de uma cultura sólida de gestão. A avaliação é do engenheiro João Rafael da Silva Casas, especialista em materiais, projetos e desenvolvimento imobiliário.

Compartilhar

Casas, que acumula experiência em obras no Brasil e no exterior, resume o momento de forma direta: “Temos excelência técnica, mas ainda falhamos em transformar conhecimento em estratégia.”

Tecnologia existe — falta preparo para utilizá-la

Enquanto o mercado global acelera a digitalização de processos, a construção civil brasileira avança em ritmos distintos. Ferramentas como BIM, automação, simulação avançada, sensores de rastreamento, análise preditiva e monitoramento em tempo real já estão disponíveis e acessíveis. O problema, segundo o engenheiro, é que a estrutura gerencial da maioria das empresas não acompanha essa evolução.

Com isso, obras continuam operando com métodos tradicionais, decisões intuitivas e pouca integração entre planejamento, execução e controle. “A tecnologia só faz diferença quando existe gestão capaz de dar sentido a ela”, afirma Casas.

Da técnica impecável ao canteiro caótico

De acordo com o especialista, os profissionais brasileiros dominam cálculos estruturais complexos, comportamento de materiais e processos produtivos de alto nível. O gargalo aparece no campo da liderança: falta alinhamento entre equipes, previsibilidade financeira, controle de riscos e gestão integrada de informações.

Essa desconexão gera um efeito direto nos resultados: atrasos, custos crescentes, desperdício e baixa eficiência operacional. “A maior parte dos problemas de obra não nasce da matemática, mas da falta de organização”, explica.

Dois Brasis dentro do mesmo setor

Casas observa que o país abriga simultaneamente canteiros altamente industrializados e obras conduzidas de forma quase artesanal. De um lado, empresas que operam com dados, processos rígidos e integração digital. De outro, empreendimentos dependentes de decisões manuais, sem métricas ou parâmetros claros.

Para ele, manter essas duas realidades em paralelo já não é sustentável — e tende a aprofundar desigualdades internas no setor. “Quem investir em gestão vai avançar. Quem não investir, ficará para trás”, afirma.

Liderança híbrida é o caminho

A nova geração de gestores, segundo Casas, precisará unir visão técnica e capacidade estratégica. Isso inclui compreender simultaneamente cronograma, orçamento, logística, impacto ambiental, durabilidade de materiais e integração tecnológica.

Essa combinação será determinante para que o país entre em um ciclo de produtividade semelhante ao observado em mercados mais maduros. “A engenharia brasileira já tem base para acelerar. Falta transformar competência técnica em gestão eficiente.”

Uma década decisiva

O especialista alerta que os próximos anos definirão quem liderará a construção civil no Brasil. Empresas que adotarem processos, cultura de dados e planejamento integrado devem ganhar competitividade. As que insistirem em modelos ultrapassados poderão perder espaço em um mercado que exige previsibilidade, controle e inovação.

Fonte:

João Rafael da Silva Casas é engenheiro metalurgista (FEI) com MBA em Gestão de Negócios Imobiliários e Construção Civil (FGV). Atua há mais de 18 anos em engenharia industrial, análise de materiais, manutenção complexa, eficiência energética e desenvolvimento imobiliário, com passagem por Sandvik/Alleima, CSN, Eleva In-Haus e Rioman. É CEO da GRB Construtora em São Paulo e membro da AMA