
Do anime ao realismo: a trajetória do tatuador mineiro David Magnum
Arquivo pessoal
A pele como tela. Um cavaleiro de armadura reluzente saído de um anime, um querubim esculpido em preto e cinza, o olhar de um tigre que parece respirar sob a luz: o repertório de David Magnum se move entre dois mundos que, à primeira vista, pareceriam difíceis de conciliar. De um lado, a explosão de cor e humor da cultura pop; do outro, o rigor silencioso do realismo. Em ambos, a mesma exigência.
“Um bom trabalho, antes de tudo, respeita o cliente: traço bem estruturado, pigmentação sólida e, acima de tudo, respeito pela ideia de quem vai usá-la”, resume o tatuador, de 32 anos, radicado em Belo Horizonte (MG). Para ele, criatividade e técnica não competem — caminham juntas.
De ajudante de bairro a 14 anos de ofício
A história de Magnum com a tatuagem começou de forma simples, ajudando um amigo no próprio bairro. Como esse amigo fazia de tudo, ele acabou aprendendo um pouco de cada estilo. O incentivo veio sobretudo do irmão, que o empurrou nessa direção. Desse início despretensioso nasceram 14 anos de carreira e uma passagem por diferentes estúdios da cidade, entre eles nomes como o Skin Art Tattoo, o Aylton Tattoo e o Inkonik.
Hoje, ele trabalha como tatuador independente, sem estúdio próprio — uma escolha consciente. “Tocar um estúdio dá muito trabalho”, observa. Sua energia, prefere, vai para a agulha.
Dois estilos, uma mesma exigência
O carro-chefe de Magnum é a cor. Personagens de quadrinhos, animes e desenhos animados ganham vida em sua pele com tons saturados e composições cheias de movimento — caso de um de seus trabalhos mais marcantes, uma releitura que cruzava um personagem de videogame com ícones da animação, peça que ele descreve como um ponto de virada na carreira.
Mas o artista não se limita ao colorido. No preto e cinza, dedica-se ao realismo: rostos, animais e retratos religiosos construídos com gradientes precisos. Para as transições suaves, recorre a um recurso próprio de movimento de mão que chama de “pêndulo”, técnica que ajuda a fundir os tons sem rupturas.
Diante do cliente, sua fórmula é o equilíbrio. “Pego a ideia do cliente e acrescento algo meu para deixar o resultado ainda melhor”, explica. Antebraços e a lateral das pernas estão entre suas áreas preferidas para trabalhar.
O ofício por trás da imagem
Boa parte do que sustenta um bom realista não aparece na foto. Magnum trabalha com marcas reconhecidas no mercado — pigmentos como Eternal e Intenze, máquinas Critical e FK Irons, cartuchos Kwadron — e ajusta a profundidade da agulha cliente a cliente, atento à vibração do equipamento. Sobre o temido borrão de pigmento, o chamado blowout, é direto: tudo começa na profundidade correta. “Ir fundo demais causa problemas.”
O cuidado também é higiene. Ele adota material descartável, cobre e isola cada superfície e segue procedimentos assépticos rigorosos. Em peles com cicatrizes, é cauteloso: costuma recomendar pelo menos seis meses de cicatrização antes de qualquer intervenção, avaliando caso a caso se a pele está pronta.
Reconhecimento e novos horizontes
Ao longo da carreira, Magnum acumulou cerca de uma dúzia de premiações — reconhecimento de um trabalho construído com constância.
Atento à profissão, comemora o amadurecimento do setor. Vê com bons olhos a evolução do mercado de tatuagem, hoje com mais materiais, mais investimento e crescimento constante. E quando o assunto é orientar quem está começando, seu conselho dispensa fórmulas mágicas: “Entenda suas ferramentas, estude e pratique muito.”
Entre todas as tatuagens que carrega no corpo, a mais simbólica é também a mais discreta: uma máquina de tatuar na mão, feita por um amigo. Um lembrete cravado na própria pele de onde tudo começou — e de um ofício que, a cada peça, ele insiste em levar mais longe.
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