
Memórias da Vila Sahy: três anos da tragédia de São Sebastião
Prefeitura de São Sebastião
Há três anos, São Sebastião, no Litoral Norte de São Paulo, passou por uma grande tragédia climática. Na madrugada de 18 para 19 de fevereiro de 2023, em pleno Carnaval, a cidade registrou um volume recorde de chuva, que provocou dezenas de deslizamentos, destruiu comunidades e deixou 64 mortos.
Hoje, com a data voltando a coincidir com o Carnaval, a dor ainda é presente — ao mesmo tempo em que avanços em prevenção convivem com traumas que permanecem.
Naquela madrugada, São Sebastião recebeu cerca de 680 milímetros de chuva em apenas 24 horas — o maior volume já registrado no país nesse intervalo de tempo. Em poucas horas, encostas cederam, casas desapareceram e vidas foram interrompidas.
A Vila Sahy se tornou o epicentro de uma das maiores tragédias climáticas do Brasil. Entre as vítimas estava Michele, de apenas 22 anos. O pai, Antônio Muniz, morador da Vila Sahy, relembra daquela madrugada.

“Naquele dia eu estava dormindo e eu me assustei, era umas quatro horas da manhã e a gente saiu aqui na área da nossa casa e estava todo mundo desesperado. A minha filha, ela morava umas umas três rua depois da minha e falaram que lá não ficou nada. Aí a gente entrou em desespero. Ela tinha acabado de casar e alugou uma casa justamente nesse lugar que não ficou nada. Fomos lá, aqui no bairro tava aquela cena de de terror, todo mundo desesperado, corpos no meio da rua e ai quando chegamos lá na na rua da minha filha, não tinha mais casa lá. A gente ainda mora aqui ainda no bairro ainda, né, que aconteceu essa tragédia aí. Quando aconteceu isso aí, Deus me deu força, Deus me ajudou a eu tá procurando também o corpo da minha filha, né, que a gente encontrou com uns cinco dias." - disse Antônio Muniz, morador da Vila Sahy e pai de Michele.
Especialistas afirmam que o desastre não foi causado apenas pela força da chuva. Segundo Fernanda Carbonelli, Cofundadora do Instituto Conservação Costeira e Conselheira Estadual de Mudanças Climáticas, a tragédia foi resultado de uma combinação de fatores antigos e conhecidos.
“Não foi apenas uma tragédia causada por uma chuva extrema. Foi a combinação de um evento climático severo com vulnerabilidades históricas do território. Nós já vinhamos alertando sobre as áreas de riscos, ocupações em encostas e ausência de planejamento urbano adequado. E quando choveu mais de 680 mm em poucas horas, o desastre encontrou um território já fragilizado." - disse Fernanda.
Três anos depois, Antônio continua morando no mesmo bairro onde tudo aconteceu. Além da dor, ele carrega um sentimento de que muitas mortes poderiam ter sido evitadas.
E não orientou nada aqui no bairro. Eu mesmo estava dormindo. A quantidade de chuva era muito, né? Se prefeitura pelo menos tivesse avisado, evitaria muitas mortes, que nem minha filha que morava em um lugar meio perigoso, né? S tivesse orientado sobre essa chuva, eu tinha com certeza eu tinha chamado ela, meu genro, para ficar todo mundo junto, né? E não foi passado nenhuma aviso aqui para gente aqui. O que era para ela ter feito antes da tragédia, ela acabou fazendo depois que aconteceu a tragédia. Hoje em dia tem tudo, tem tudo que era para ter feito antes, né?

Na época, a ausência de sistemas de alerta foi uma das principais críticas feitas ao poder público. Segundo o Tenente Maxwell, da Defesa Civil do Estado, esse cenário começou a mudar após a tragédia.
"A gente não tinha isso lá em 2023. Foi uma crítica dura que a gente recebeu, com razão, não tínhamos esse sistema. Trabalhamos pesado durante a nossa gestão e trouxemos para o estado de São Paulo um sistema de alerta moderno, que permite avisar o morador ali no celular, e agora tem sirene que avisa o morador também direto ali no alto-falante"
Apesar dos avanços, especialistas alertam que os riscos continuam. As mudanças climáticas tornam eventos extremos mais frequentes e intensos, e atingem de forma mais dura populações que vivem em áreas vulneráveis.
“E o que a gente vê hoje é um aumento da frequência e da intensidade dos eventos extremos. E isso exige uma mudança profunda na forma como a gente planeja as cidades, na forma como a gente protege as nossas encostas, cuidados com a drenagem” - concluiu Fernanda Carbonelli.
Relembre o caso
Na madrugada do dia 19 de fevereiro de 2023, São Sebastião foi assolada por uma intensa tempestade que resultou em um índice pluviométrico histórico, superando os 600 milímetros, A região da Costa Sul do município foi a mais afetada.
Segundo o Centro Nacional de Previsão de Monitoramento de Desastres (Cemaden), o acumulado foi o maior já registrado no país. O grande volume de água devastou parte das cidades da região, causou mortes, deslizamentos de encostas, alagamentos, destruiu casas e estradas.
A remoção e identificação dos corpos estendeu-se por vários dias. A tragédia ganhou repercussão em âmbito nacional e internacional.
Os efeitos desastrosos desencadeados pela tempestade resultaram na perda de 64 vidas. Cerca de 3 mil pessoas ficaram desabrigadas.

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