
Mulheres no poder, homens nos bastidores
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A década de 2020 vem sendo celebrada como um marco histórico para a representação feminina, com mulheres chegando ao poder executivo em níveis sem precedentes. No entanto, por trás dessas manchetes existe uma tendência mais calculada e cínica conhecida como o Proxy Phenomenon. Em diferentes partes do mundo, mulheres estão sendo cada vez mais colocadas como o rosto público da liderança de homens poderosos — ou de instituições dominadas por homens — que, por razões legais, políticas ou diplomáticas, não podem ocupar diretamente o cargo.
Protagonismo feminino ou fachada?
Essa mudança raramente representa igualdade genuína. Na maioria das vezes, trata-se de uma adaptação sofisticada do poder patriarcal para garantir sua própria sobrevivência. Um dos principais mecanismos é o chamado Loyalty Advantage, em que esposas, filhas ou irmãs são escolhidas como sucessoras porque suas identidades políticas estão profundamente ligadas ao legado familiar. Dentro dessas estruturas, a mulher deixa de ser vista como uma agente política independente e passa a ser apresentada como uma guardiã fiel do patrimônio, da influência e das redes de poder de um patriarca masculino.
Outra estratégia recorrente é o chamado Glass Cliff, no qual mulheres são desproporcionalmente colocadas em posições de liderança durante períodos de crise aguda ou transições de alto risco. Ao elevar uma mulher em meio a colapsos econômicos ou tensões sociais, elites masculinas exploram estereótipos de cuidado e sensibilidade associados ao gênero feminino para reduzir a ansiedade pública. Se o regime fracassar, a líder mulher se transforma em um bode expiatório conveniente, permitindo que o establishment masculino retorne posteriormente enquanto as estruturas patriarcais permanecem intactas.
Além disso, regimes autoritários frequentemente recorrem ao Reputational Signaling, ou pinkwashing, utilizando nomeações femininas para projetar ao exterior uma falsa imagem de modernização, com o objetivo de obter legitimidade internacional, investimentos estrangeiros ou alívio diplomático.
O cenário de 2026: poder exercido dos bastidores
Em abril de 2026, o cenário político da Venezuela oferece um exemplo claro dessa lógica de poder. Após a captura de Nicolás Maduro em janeiro, a vice-presidente Delcy Rodríguez assumiu interinamente a presidência. Embora tenha negociado o chamado “Delcy Deal” com Washington para aliviar sanções, ela também atua como um escudo diplomático essencial para figuras masculinas do regime — muitas delas investigadas ou acusadas internacionalmente — que continuam controlando as Forças Armadas e os serviços de inteligência.
No México, a presidente Claudia Sheinbaum mantém um índice de aprovação de 78%, mas continua sendo a herdeira institucional da chamada “Fourth Transformation”, idealizada por seu antecessor, AMLO. Seu governo coloca à prova os limites da autonomia política, já que ela permanece estruturalmente comprometida com a execução de uma ampla reforma do Judiciário e com o financiamento de grandes projetos concebidos por seu mentor político.
Enquanto isso, nas Filipinas, a aliança entre as dinastias Marcos e Duterte se transformou em conflito aberto. Em 4 de março de 2026, o Comitê de Justiça da Câmara avançou com artigos de impeachment contra a vice-presidente Sara Duterte, demonstrando como a utilidade política de um proxy pode desaparecer rapidamente quando entram em choque lealdades patriarcais rivais.
Olhando para o horizonte
Nos próximos meses, observadores internacionais devem voltar sua atenção para Angola, onde a primeira-dama Ana Dias Lourenço vem sendo preparada como possível sucessora para as eleições de 2027. Economista e ex-diretora do Banco Mundial, sua candidatura representaria a expressão mais pura do Loyalty Advantage: garantir a segurança política do atual presidente enquanto projeta ao mercado internacional a imagem de um governo moderno, técnico e progressista.
Também começa a surgir uma mudança global na forma como o progresso é medido. Organizações internacionais e entidades democráticas estão deixando de priorizar apenas metas numéricas de representatividade feminina e passando a valorizar avaliações qualitativas. O novo foco está em analisar o controle real que uma líder exerce sobre o orçamento nacional, as forças de segurança e os principais centros de decisão do Estado — e não apenas sua presença simbólica no gabinete presidencial.
O verdadeiro empoderamento não é definido por receber um lugar à mesa. Ele é definido pelo poder autônomo de comandar toda a sala.
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