Renovação automática da CNH vira lei, mas exames continuam obrigatórios

Motoristas ganham renovação automática da CNH, mas continuam sujeitos a exames e taxas

Thiago Ventura

Por Thiago Ventura

Renovação automática da CNH vira lei, mas exames continuam obrigatórios
Lei da CNH automática entra em vigor, mas exames seguem obrigatórios para renovação
Marcello Casal Jr/Agência Brasil

Motoristas brasileiros já podem contar com um novo modelo de renovação da Carteira Nacional de Habilitação (CNH). Entrou em vigor a Lei 15.428/2026, que autoriza a “renovação automática” do documento para condutores que atendam a determinados critérios, reduzindo etapas burocráticas do processo. No entanto, a mudança não vai alterar tanto a rotina do motorista quanto o nome da medida sugere.

A proposta original do governo federal, enviada por meio da Medida Provisória 1.327/2025, previa a dispensa dos exames médicos, mas o Congresso Nacional manteve a exigência.

Apesar da automatização de parte do procedimento, a nova legislação manteve a obrigatoriedade dos exames de aptidão física e mental, requisito que havia sido dispensado na proposta original encaminhada pelo governo federal.

O Congresso alterou o texto durante a tramitação e defendeu a manutenção das avaliações como forma de reforçar a segurança viária. A mudança foi feita pelo Congresso Nacional durante a tramitação da matéria. 

Parlamentares argumentaram que a avaliação periódica das condições de saúde do motorista continua sendo um elemento importante para a segurança viária, especialmente considerando o avanço da idade e possíveis alterações físicas ou cognitivas ao longo do tempo. O texto foi sancionado sem vetos pelo presidente da República.

Motoristas sem infrações nos últimos 12 meses poderão renovar a CNH sem comparecer aos Detrans para etapas administrativas. A nova regra permite que condutores sem infrações sujeitas à pontuação nos últimos 12 meses possam renovar a CNH sem a necessidade de comparecer aos Departamentos Estaduais de Trânsito (Detrans) para etapas administrativas. Apesar disso, os exames de aptidão física e mental continuam obrigatórios.

Mesmo com a promessa de “renovação automática”, o motorista seguirá realizando exames, pagando taxas e aguardando a validação dos resultados. Para Ricardo Silva, especialista em trânsito, a principal controvérsia está justamente na forma como a medida foi divulgada à população.

Na verdade o que existe é uma propaganda incorreta do Governo, que tem editado medidas provisórias no sentido de desburocratizar o acesso à CNH, porém tem se esquecido da segurança viária. Ricardo Silva

A principal crítica é que o termo “automática” não corresponde à prática, já que o processo ainda depende de etapas presenciais e avaliação médica.

A avaliação do especialista, que é coronel da reserva da Polícia Militar de Santa Catarina, reforça um debate que surgiu logo após a aprovação da proposta: se o motorista ainda precisa realizar exames médicos, pagar taxas e aguardar a validação dos resultados, até que ponto a renovação pode ser considerada automática?

“Cada pessoa ao longo do tempo acaba adquirindo algum problema. Um é problema de visão, outro é problema de coordenação motora, um é problema de comportamento depressivo por conta de alguma situação que tem ocorrido na vida pessoal dele, e isso tudo é avaliado”, explica.

Motoristas com menos de 50 anos podem ficar até dez anos sem renovar a CNH, segundo as regras atuais. O especialista lembra que os prazos de validade da CNH aumentaram nos últimos anos. Atualmente, motoristas com menos de 50 anos podem permanecer até dez anos sem renovar o documento. 

Para ele, eliminar completamente a avaliação médica poderia aumentar riscos nas vias. A avaliação médica é vista como mecanismo de segurança para identificar doenças físicas, cognitivas e psicológicas que afetam a direção.

“Imagina nesse período o que pode surgir de doenças numa pessoa ou de alguns problemas psicológicos. Se você faz uma renovação automática, você perde essa opção de verificar por meio de exame essas restrições e pode ser que esteja colocando um condutor em más condições para dirigir veículo”, afirma.

A nova legislação também cria um teto nacional para os valores cobrados nos exames médicos e psicológicos. A Secretaria Nacional de Trânsito (Senatran) deverá definir um limite para as taxas cobradas. A medida busca reduzir as disparidades entre os estados, onde os custos variam significativamente.

Hoje, os valores dos exames variam de estado para estado, o que deve ser padronizado com a nova regra. Embora reconheça a necessidade de modernizar processos, Ricardo Silva avalia que ainda não foi apresentada uma alternativa capaz de substituir a avaliação presencial sem comprometer a segurança viária.

“No caso da renovação, no momento não houve uma demonstração de um texto moderno que modificasse o modelo atual sem que houvesse riscos à segurança viária”, observa.

A renovação automática faz parte do programa CNH do Brasil, que inclui outras mudanças na formação e obtenção da habilitação. A “renovação automática” integra o programa CNH do Brasil, lançado pelo governo federal em 2025 com o objetivo de simplificar processos e reduzir custos relacionados à habilitação.

O pacote de mudanças também inclui curso teórico on-line, flexibilização das aulas práticas e novas regras para autoescolas. Nos últimos meses, outras mudanças também foram implementadas. 

Entre elas estão a possibilidade de realização do curso teórico pela internet, a flexibilização das exigências para aulas práticas e o fim da obrigatoriedade de vínculo entre instrutores e centros de formação de condutores.Também passou a valer o exame toxicológico para categorias A e B na primeira habilitação, ampliando regra antes restrita a motoristas profissionais.

Além disso, passou a valer a exigência de exame toxicológico para candidatos à primeira habilitação das categorias A e B, destinadas a motocicletas e automóveis, ampliando uma regra que anteriormente alcançava apenas motoristas profissionais.

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