
Mounjaro
Sandy Huffaker for The Washington Post via Getty Images
Azeite, salmão ou celulares não foram os itens que mais cresceram na importação brasileira no ano passado. O destaque ficou para as canetas emagrecedoras, que movimentaram R$ 9 bilhões em compras de medicamentos como Mounjaro e Ozempic em 2025, um crescimento de 88% em relação ao ano anterior. Esse fenômeno, que reflete a busca por uma perda de peso vista como rápida e simples, já causa um impacto direto em outros tratamentos de saúde consolidados.
A cirurgia bariátrica, por anos um dos principais métodos contra a obesidade, registrou uma queda de 20% na procura entre 2023 e 2024, segundo dados da Sociedade Brasileira de Cirurgia Bariátrica e Metabólica.
O reflexo da mudança de comportamento é sentido dentro dos consultórios. A médica Ana Karina Soares, especialista no aparelho digestivo e em cirurgia bariátrica, afirma que a queda no número de procedimentos foi nítida nos últimos dois anos, mas pondera que o cenário pode mudar. Para ela, a popularidade dos remédios ajudou a ampliar a discussão sobre a obesidade como doença, o que pode, a longo prazo, levar mais pessoas ao tratamento, incluindo o cirúrgico.
"O que a gente espera é que mais para frente volte a aumentar o número de cirurgias e, inclusive, talvez aumente até mais, já que a obesidade passa a ser vista como doença, coisa que não era. Era uma condição. Então acho que agora a gente vive um momento de baixa, mas que a médio-longo prazo isso deve reverter em uma procura maior."
O que dizem os especialistas?
O sucesso das canetas está diretamente ligado ao avanço da tecnologia farmacêutica. É o que explica o pesquisador da Unicamp e especialista em metabologia, Dr. Bruno Geloneze. Ele destaca que os medicamentos atuais são mais seguros e eficazes que tratamentos antigos, que muitas vezes envolviam derivados de anfetaminas com riscos de problemas cardíacos e psiquiátricos.
"Nós temos um quadro completamente diferente. Isso faz com que o espaço do tratamento clínico tenha se ampliado e feito com que a cirurgia passe a ter um novo posicionamento. Ela foi substituída para algumas situações, mas nas situações de obesidade extrema, continua sendo o principal tipo de tratamento."
Segundo os especialistas, a indicação de cada tratamento está se tornando mais clara. Pacientes com obesidade grau 1 (IMC acima de 30) ou grau 2 (IMC acima de 35) com outras doenças associadas, que antes eram fortes candidatos à cirurgia, hoje são o perfil ideal para o tratamento com os novos medicamentos. A cirurgia bariátrica, por sua vez, continua sendo a principal e mais eficaz alternativa para casos de obesidade extrema (IMC acima de 40) e, principalmente, superobesidade (IMC acima de 50).
Jornadas diferentes no tratamento
Os caminhos para controlar a doença podem ser distintos e, em alguns casos, complementares. A influenciadora Ana Alvarez (@anallogias), que convive com a obesidade desde a infância, perdeu mais de 40 quilos com a cirurgia bariátrica. No entanto, após um burnout, recuperou 10 quilos e recorreu às canetas para auxiliar na nova perda de peso e na manutenção.
"As canetinhas vieram com essa intenção no meu tratamento, de melhorar a minha sensibilidade à saciedade. E funcionou super bem. Eu já perdi os 10 quilos que eu tive de reganho. E agora eu continuo o tratamento com as canetas para fazer a manutenção de peso e perder gordura. Tudo isso, tanto quando eu fiz a bariátrica quanto utilizando as canetas, eu continuo fazendo dieta e exercício físico."
Já para o gerente comercial Aroldo Basílio, que por 10 anos lidou com o excesso de peso e tentou diferentes métodos sem sucesso, a cirurgia bariátrica foi a melhor solução. Após tratamentos com endocrinologistas, medicamentos que causavam "efeito sanfona" e o desenvolvimento de comorbidades como gastrite e apneia do sono, a cirurgia se tornou o caminho mais indicado.
"Eu já não aguentava mais tomar medicamentos que descontrolavam o meu humor, que me deixavam literalmente magro um, dois meses e me engordavam três vezes mais do que eu já estava no passado quando eu parava com o efeito rebote. Foi quando surgiram as canetas e eu fui conversar com uma especialista, mas ela mesma me indicou a cirurgia como a melhor opção para o meu caso."
Próximos passos e a visão de futuro
O Dr. Bruno Geloneze reforça que a obesidade é uma doença crônica, neuroquímica e recidivante:
Crônica quer dizer que ela vai ao longo do tempo. Neuroquímica porque não é falta de força de vontade; o sistema nervoso central que controla a fome e a saciedade está alterado de forma definitiva. E a palavra recidivante quer dizer: volta, volta sempre.Para um tratamento de doenças crônicas, precisa de tratamento crônico.
Interromper o uso do medicamento ou o acompanhamento pós-cirúrgico sem orientação médica levará, na maioria dos casos, à recuperação do peso.
Por isso, a recomendação é unânime: o tratamento deve ser feito com uma equipe multidisciplinar, envolvendo médicos, psicólogos e nutricionistas, como pontua a Dra. Ana Karina:
Existe já trabalho científico mostrando que, após um ano de interrupção do tratamento medicamentoso [com tirzepatida], só em torno de 18% dos pacientes mantiveram o peso. (...) O restante recuperou 50% do peso perdido naquele primeiro ano. Já é comprovado que, quando essas medicações são indicadas por equipes especializadas, há uma tendência de se ter uma resposta melhor a longo prazo do que quando essa medicação é orientada por qualquer outro médico não especialista.
O Sistema Único de Saúde (SUS) realizou 11,5 mil cirurgias bariátricas entre janeiro e outubro de 2025. O número de procedimentos feitos por planos de saúde no mesmo período ainda não foi consolidado.
A expectativa dos especialistas é que, com a chegada de medicamentos ainda mais potentes, incluindo versões orais, o tratamento clínico se fortaleça, enquanto os cirurgiões se especializem em casos cada vez mais complexos e graves, que seguem necessitando do procedimento para uma vida mais longa e saudável.
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