
fome
Moisés Pimentel (SGCOM)
Resumo
O estudo Cenário da Infância e Adolescência no Brasil 2026, divulgado pela Fundação Abrinq, mostra estagnação nos avanços de proteção à infância, com destaque para mortalidade infantil, desnutrição, obesidade e pobreza entre crianças.
Os dados revelam estabilidade da mortalidade infantil em 12,6 óbitos por mil nascidos vivos, aumento do baixo peso ao nascer, déficit de altura, avanço da obesidade em crianças, e queda na gravidez na adolescência, mas com persistência de desigualdades regionais e sociais.
A pobreza afeta 40% das crianças brasileiras, sendo apontada como principal causa de violações de direitos, com impacto direto em saúde, aprendizagem e oportunidades, segundo Victor Graça, superintendente da Fundação Abrinq.
O Brasil ainda convive com a desnutrição infantil ao mesmo tempo em que registra avanço da obesidade e interrupção na queda da mortalidade entre crianças. Os dados fazem parte da edição 2026 do Cenário da Infância e Adolescência no Brasil, estudo divulgado pela Fundação Abrinq que reúne indicadores sociais sobre as condições de vida de crianças e adolescentes no país.
Produzido desde 2014, o levantamento sistematiza dados oficiais e permite acompanhar a evolução de diferentes indicadores ao longo do tempo. A edição mais recente aponta um momento de estagnação em áreas consideradas centrais para a proteção da infância.
Após décadas de avanços consistentes, especialmente na redução da mortalidade infantil, o país passou a registrar pouca evolução em indicadores importantes, além de sinais de agravamento da vulnerabilidade social. Entre os poucos avanços recentes está a continuidade da queda na gravidez na adolescência.
Mortalidade
A estagnação da mortalidade infantil é um dos dados mais sensíveis do estudo. Na média da última década, a taxa permaneceu em 12,6 óbitos por mil nascidos vivos, repetindo o patamar registrado em 2022 e 2023.
Após atingir 11,5 em 2020, o menor nível da série recente, o indicador voltou a subir e retornou a níveis semelhantes aos observados nos primeiros anos do período analisado.
Mesmo sem novo crescimento recente, a estabilidade por três anos consecutivos já acende um sinal de alerta. A mortalidade infantil é um indicador diretamente associado às condições de vida, ao acesso à atenção primária e à qualidade do pré-natal.
Baixo peso e obesidade
Outro dado que preocupa é o aumento do baixo peso ao nascer. Em 2024, 9,5% dos bebês nasceram com menos de 2,5 quilos, o maior percentual da série histórica e o terceiro ano consecutivo em patamar elevado.
Entre crianças de até 5 anos, 3,6% estavam com baixo peso para a idade em 2024. Já o déficit de altura atingia 11,7% dessa população, o que representa mais de uma em cada dez crianças com comprometimento no crescimento.
Ao mesmo tempo, o excesso de peso permanece elevado. Entre crianças de até 5 anos, 5,8% estavam acima do peso recomendado, cerca de 451 mil crianças.
Na faixa de 5 a 10 anos, a obesidade atingia 9% em 2024. O índice chegou a 10,4% em 2021 e, embora tenha recuado, ainda permanece acima dos níveis observados no início da série histórica. Em números absolutos, mais de 588 mil crianças de 5 a 10 anos estavam em situação de obesidade no país.
Segundo o estudo, o quadro revela um paradoxo alimentar: a insegurança alimentar não significa apenas falta de comida. Muitas vezes envolve acesso restrito a alimentos frescos e nutritivos e maior consumo de produtos ultraprocessados, mais baratos e menos saudáveis.
Gravidez na adolescência
A proporção de nascidos vivos de mães com até 19 anos manteve trajetória de queda e chegou a 11,4% em 2024, ante 14,7% em 2019, segundo o estudo.
Em números absolutos, o Brasil registrou 273.213 nascidos vivos de mães adolescentes em 2024. Desse total, 261.206 foram de jovens entre 15 e 19 anos e 12.004 de meninas entre 10 e 14 anos. Houve ainda três registros de nascimentos de mães com menos de 10 anos.
A redução foi observada em todas as regiões do país, ainda que em ritmos diferentes. No Norte, o percentual caiu de 22,1% para 18,5% entre 2019 e 2024. No Nordeste, passou de 17,8% para 13,7%. Sudeste e Sul registraram os menores índices em 2024, com 8,8% e 8,3%, respectivamente.
Apesar da tendência de queda, o indicador ainda reflete desigualdades regionais e sociais e segue concentrado em áreas mais vulneráveis.
Pobreza
A pobreza segue afetando crianças de forma desproporcional no Brasil. Em 2024, 24,5% da população brasileira, cerca de 53,1 milhões de pessoas, viviam com renda mensal domiciliar per capita de até meio salário mínimo.
Entre crianças, o impacto é maior. Segundo o estudo, 40,9% das crianças de até 6 anos e 40,8% das crianças de até 12 anos vivem em situação de pobreza.
A extrema pobreza atinge 14,4% das crianças na primeira infância e 14,7% das crianças com até 12 anos.
Na prática, quatro em cada dez crianças brasileiras crescem em domicílios com renda insuficiente para garantir condições adequadas de desenvolvimento.
“A pobreza continua sendo uma das principais causas das violações de direitos na infância. Quando quatro em cada dez crianças vivem com renda insuficiente, isso se reflete na saúde, na aprendizagem e nas oportunidades ao longo da vida”, afirma Victor Graça, superintendente da Fundação Abrinq.
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