
Venda online de tirzepatida manipulada
Reprodução/BandNews FM
A venda de versões manipuladas da tirzepatida, princípio ativo do medicamento Mounjaro, tornou-se uma prática disseminada e perigosa no Brasil. Por meio de redes sociais e grupos de WhatsApp, o produto é oferecido e vendido sem a exigência de receita médica ou exames prévios, sendo entregue aos compradores via Sedex ou até por empresas de ônibus. Essa comercialização, que ocorre à margem de qualquer fiscalização, pode colocar em risco a saúde dos usuários, que consomem um produto de procedência desconhecida e sem garantia de segurança ou eficácia.
Relatos de pacientes ouvidos pela reportagem mostram a facilidade de acesso ao produto. A empresária Bruna Fernanda conta que, após gastar mais de R$ 5 mil com a medicação comprada de um médico, passou a adquiri-la de um contato na internet. Em outro caso, uma mulher, que prefere não se identificar, relata que uma colega de trabalho, sem ser médica, levou um isopor para vender a medicação manipulada no escritório por R$ 300 a dose.
Há registros de clínicas médicas e odnotológicas que permitem que o próprio paciente escolha a dose que deseja tomar, contrariando todos os protocolos de saúde
Produção em larga escala e sem controle
Embora a manipulação de um medicamento seja permitida em situações específicas — como a necessidade de uma dose ou formato não disponível comercialmente —, não é o que se observa com a tirzepatida. Em entrevista exclusiva à Rádio BandNews FM, a vice-presidente da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia (SBEM), Karen DeMarco, afirma que a produção assumiu uma característica industrial.
"O que a gente observou é que ele não estava sendo feito manipulado para determinados perfis de pacientes. Ele estava sendo produzido em larga escala. A quantidade de manipulados que estavam sendo feitos era de uma característica industrial. A gente não sabe a procedência desse insumo farmacêutico ativo", alerta a médica.
Segundo a especialista, a farmacêutica Lilly, que detém a patente do Mounjaro, não fornece o princípio ativo para farmácias de manipulação no Brasil, o que levanta sérias dúvidas sobre a origem e a qualidade da matéria-prima utilizada nesses produtos vendidos ilegalmente.
Riscos do uso indiscriminado e como se proteger
O uso de um medicamento como o Mounjaro sem avaliação e acompanhamento médico é extremamente perigoso. A Dra. Karen DeMarco explica que a indicação é restrita a pacientes com diabetes, obesidade ou sobrepeso associado a comorbidades, e apenas após uma análise clínica completa para descartar contraindicações. Começar o tratamento com doses altas, sem o escalonamento gradual, pode levar a emergências médicas.
"Essas pessoas acabam chegando na emergência com quadros de desidratação, dores abdominais, de vômitos de difícil controle", destaca. Para se proteger de fraudes e riscos, a recomendação é desconfiar sempre que:
- O médico ou profissional de saúde vender o medicamento diretamente no consultório;
- Houver a indicação de uma farmácia de manipulação específica para a compra;
- O produto for oferecido em embalagens diferentes da original (frascos, seringas soltas ou canetas sem o lacre da caixa);
- O valor for muito abaixo do praticado nas farmácias;
- Não houver exigência de receita, consulta prévia e exames.
A orientação da SBEM é que o medicamento seja comprado apenas em farmácias de varejo, com a caixa lacrada contendo quatro canetas, e que o paciente se certifique da procedência antes de iniciar o uso.
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