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Especialista analisa atuação de criminosos na extorsão de moradores no estado do Rio

Taxa da farinha, denunciada pela BandNews FM em abril, é alvo de investigação da Polícia Civil

Guilherme Faria
GUILHERME FARIA

19/05/2025 • 14:46 • Atualizado em 19/05/2025 • 14:46

A Polícia Civil investiga os relatos feitos por moradores

A Polícia Civil investiga os relatos feitos por moradores

Reprodução / PCERJ

O combate à extorsão de moradores e comerciantes praticada por criminosos em diversos bairros do Rio de Janeiro é complexo e vai além do debate sobre segurança pública. A análise é do professor do Instituto de Estudos Comparados em Administração de Conflitos, da Universidade Federal Fluminense, Daniel Misse.Em Belford Roxo, na Baixada Fluminense, por exemplo, moradores de um condomínio são obrigados a pagar uma taxa de internet no valor de cem reais aos criminosos, que impedem a entrada de empresas no endereço. Além disso, também há oferta de gatos de energia elétrica a quem vive no prédio.Já em Queimados, na mesma região, os moradores de um condomínio denunciam que criminosos chegaram a criar uma empresa de fachada para obrigar o pagamento de taxas por parte de quem vive no local, que já foi alvo de uma ação da Polícia Civil no ano passado, para combater a extorsão de moradores por parte de milicianos. Em maio, os valores pagos pelos condôminos à empresa ultrapassaram os R$ 43 mil.Um ouvinte da BandNews FM que teve a voz distorcida e a identidade preservada conta que muitas pessoas já deixaram o prédio com medo dos criminosos.

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Só que os moradores são constrangidos, são coagidos, né? É um clima muito ruim. Ninguém reclama mais, porque fica com medo, né? De sofrer retaliação deles. Tem muita gente que foi embora por conta disso Os imóveis estão desvalorizados. Ninguém quer comprar apartamento mais lá.

O professor Daniel Misse explica que práticas como essa são antigas, mas se expandiram nos últimos anos.

A grande diferença que aconteceu nos últimos dez anos é que as regiões que, antes, recebiam esse serviço em boa parte eram as regiões de maior informalidade, na relação com o poder público e com o espaço urbano, falta de cepeamento, etc, é que nos últimos dez anos a gente viu que esses serviços começaram a ser ocupados, também, em regiões formais da cidade, algumas vezes até em bairros de classe média.

Nas últimas semanas, a BandNews FM denunciou diversos casos de taxas cobradas por traficantes e milicianos a moradores de diferentes localidades na capital e na Baixada Fluminense. Entre elas, há, inclusive, a obrigatoriedade de compra de farinha de trigo determinada por criminosos da Vila Sapê, em Curicica, na Zona Oeste do Rio, a padarias da região.Além da chamada "taxa da farinha", outras cobranças indevidas são feitas em bairros das Zonas Norte e Oeste da capital fluminense.Em fevereiro, moradores do Anil e do Rio das Pedras denunciaram que milicianos estavam exigindo as chamadas "taxas de calçadas", valores para o estacionamento de carros nas ruas, que podiam chegar a R$ 200 por mês. No Anil, quem se mudava para fugir da violência tinha que pagar R$ 300.Já em Madureira, na Zona Norte, condôminos de um prédio comercial foram convocados para uma assembleia para debater a cobrança de uma taxa mensal de R$1800 por traficantes da região, dominada pela facção Terceiro Comando Puro. Também há relatos de cobranças a moradores e comerciantes em Acari, Fazenda Botafogo e no Complexo da Maré, na Zona Norte.Em entrevista à BandNews FM, o secretário de Segurança Pública do Rio, Victor Santos, afirmou que traficantes que atuam no estado aprenderam com milicianos a lucrar a partir do domínio de territórios.

O traficante aprendeu com a milícia que o território é muito mais lucrativo. Por quê? Com o território, ele tem uma gama de serviços e produtos a explorar, porque ele domina o território, subjuga aquela população que mora em comunidade e, com isso, tem lucro. Você imagina, eu sempre peço para as pessoas fazerem uma reflexão, você olha a Rocinha, 80 mil habitantes, quantas usam drogas? Tem um percentual. Agora, quantas usam farinha, açúcar, água, luz, telefone celular, internet, transporte alternativo, construção civil? Hoje é taxa para tudo.

Na análise do professor Daniel Misse, o combate a este tipo de crime depende de uma articulação entre instituições para buscar quebrar a rede do crime organizado.

Você tem um problema muito mais amplo com relação à capilaridade dos serviços públicos, por um lado, e, por outro, a capacidade de você reaver esses serviços públicos por parte das empresas concessionárias. Ou seja, você tem vários problemas acumulados que, para a resolução, ou para tentar buscar uma solução que minore esse problema, torna o problema muito mais complexo, porque trata-se de uma articulação grande entre os serviços públicos privatizados ou cedidos e também as instituições estatais e outras empresas privadas.

A Polícia Civil investiga os relatos feitos por moradores. A instituição reforçou a importância das denúncias para combater a ação dos criminosos no estado.

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