O crescimento das apostas esportivas no Brasil trouxe um novo desafio para autoridades e entidades do futebol: combater a manipulação de resultados em partidas. Diante do aumento de suspeitas, órgãos estaduais e federais passaram a atuar de forma integrada para enfrentar esse tipo de crime.
No Rio de Janeiro, a Polícia Civil criou uma força-tarefa junto com a Federação de Futebol do Estado e o Ministério Público, por meio do Grupo de Atuação Especializada do Desporto e Defesa do Torcedor (GAEDEST) para investigar possíveis fraudes em competições esportivas. A iniciativa busca garantir a integridade das disputas e preservar a confiança do torcedor. Segundo o promotor de Justiça Márcio Almeida, coordenador do grupo, o objetivo é integrar as investigações.
No estado, os inquéritos são conduzidos pela Delegacia do Consumidor, a Decon, responsável por apurar crimes ligados à manipulação de resultados. De acordo com o delegado Wellington Vieira, hoje existem 15 investigações em andamento envolvendo suspeitas de fraudes em partidas de futebol.
"A Federação de Futebol aqui do Estado do Rio de Janeiro procurou a Polícia Civil, e a Delegacia do Consumidor foi designada para concentrar essas investigações. Atualmente nós temos 15 inquéritos que apuram manipulação de resultado de partidas de futebol em todas as séries (A, B, C e D). Se tiver algum tipo de suspeita de fraude, com a colaboração das casas de apostas, da Federação, do Ministério Público e da Justiça, nós investigamos".
Ainda segundo Wellington Vieira, as investigações revelam que por trás da manipulação existe um verdadeiro submundo do crime, que vai além da fraude esportiva. Casos que acabam até em homicídio, e a investigação precisa ser direcionada para a Delegacia de Homicídios.
"Já deu para perceber que os grupos que atuam nesse tipo de fraude formam organizações criminosas que manipulam resultados de partidas. E isso pode escalar para outros crimes, inclusive extorsões e até situações mais graves. O nosso objetivo é tirar essas pessoas de circulação".
A base legal para combater esse tipo de crime é relativamente recente. A Lei Geral do Esporte, de número 14.597, sancionada em 2023, tipificou a manipulação de resultados como crime. A lei prevê pena de dois a seis anos de prisão, além de multa, e pode atingir diferentes personagens envolvidos no esporte: jogadores, técnicos, árbitros, dirigentes e até apostadores.
O combate a esse tipo de fraude também envolve a colaboração das federações e das empresas que monitoram o mercado de apostas. No Rio de Janeiro, a Federação de Futebol do Estado passou a enviar relatórios de integridade às autoridades sempre que surgem indícios de manipulação, como explica o vice-presidente da FERJ, Sandro Trindade.
"No final de 2023, em função desses problemas, buscamos direcionar as investigações para uma delegacia especializada. A partir daí começamos a enviar relatórios de integridade que recebemos de empresas de monitoramento identificando hipóteses de manipulação de resultados".
Esses relatórios são produzidos por plataformas que acompanham o mercado global de apostas. Elas conseguem identificar movimentações financeiras consideradas suspeitas, por exemplo, apostas muito altas em eventos improváveis durante uma partida.
"Essas empresas monitoram as apostas feitas nas plataformas. Quando aparece um volume incomum de dinheiro em um lance específico, isso gera um alerta. A partir desse relatório, a federação encaminha as informações às autoridades para investigação".
Além da atuação das federações, a regulamentação recente do mercado de apostas também passou a exigir novas obrigações das empresas do setor. Hoje, operadoras autorizadas precisam monitorar apostas e comunicar qualquer indício de fraude à Secretaria de Prêmios e Apostas do Ministério da Fazenda.
O advogado Raphael Cvaigman, especialista na regulação de casas de apostas explica que alguns fatores facilitam a manipulação de partidas, principalmente em divisões inferiores do futebol brasileiro.
"Normalmente não estamos falando da Série A, mas de séries C e D, onde os atletas têm remuneração menor e contratos curtos. Além disso, muitas dessas partidas têm pouca visibilidade e nem sempre são transmitidas, o que pode facilitar tentativas de manipulação (...) muitas vezes o manipulador-chefe não está nem no país onde a fraude acontece. Ele utiliza agentes locais - árbitros, treinadores ou pessoas próximas aos atletas - para oferecer dinheiro e tentar influenciar o resultado".
Mesmo com os desafios, as autoridades afirmam que as investigações já avançam. Através de depoimentos colhidos pela Polícia Civil, jogadores de times de menor investimento da Série A do futebol carioca admitiram que já receberam proposta ou sondagem para manipular lances ou partidas.
Há, inclusive, um inquérito aberto no Tribunal de Justiça Desportiva do Rio de Janeiro é conduzido pela Polícia Civil para apurar um caso no Campeonato Carioca da Série A de 2026: uma partida do "quadrangular da morte", que define o rebaixamento na competição.
Em âmbito nacional, o tema ganhou ainda mais repercussão após o depoimento de William Rogatto, conhecido como "Rei do Rebaixamento", durante a CPI da Manipulação de Jogos no Senado.
Aos senadores, ele afirmou ter lucrado mais de 300 milhões de reais com manipulações no futebol, sem apresentar provas. Rogatto foi posteriormente preso em Dubai, apontado como chefe de um esquema internacional de fraude esportiva.
Ele também já foi alvo da Operação VAR, conduzida pela Polícia Civil do Rio, que investigou suspeitas de manipulação em partidas da Série B do Campeonato Carioca. Os clubes investigados no inquérito incluem Nova Cidade, Belford Roxo, São José, Brasileiro e Duquecaxiense.
A expectativa das autoridades é que, com essa força-tarefa, o futebol brasileiro consiga fechar o cerco contra as organizações criminosas que tentam lucrar com a fraude dentro de campo.
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