Resumo
O acidente com o Césio-137, ocorrido em setembro de 1987 em Goiânia, envolveu o abandono de um equipamento de radioterapia contendo material radioativo, resultando em contaminação após ser manipulado por catadores e distribuído entre moradores sem conhecimento dos riscos.
A tragédia causou monitoramento de mais de 112 mil pessoas, contaminação significativa em 249 indivíduos, quatro mortes imediatas por síndrome aguda da radiação e impactos duradouros na saúde, Justiça e memória coletiva, com destaque para o caso simbólico de Leide das Neves, criança que morreu após ingerir o pó azul radioativo.
A resposta ao acidente incluiu isolamento de áreas, demolição de casas, descarte de resíduos, armazenamento de toneladas de lixo radioativo, concessão de pensões e acompanhamento médico às vítimas, além de mudanças em protocolos de segurança e debates sobre reconhecimento de novos casos e consequências sociais e ambientais.
O acidente com o Césio-137, ocorrido em setembro de 1987 em Goiânia, permanece como o maior desastre radiológico do mundo fora de usinas nucleares. Classificado como nível 5 na Escala Internacional de Eventos Nucleares (INES), o episódio expôs falhas graves na gestão de materiais radioativos, além de revelar o impacto devastador da desinformação diante de um risco invisível.
Quase quatro décadas depois, o caso ainda repercute na saúde das vítimas, na Justiça e na memória coletiva do país. Agora, a história é novamente relembrada em 'Emergência Radioativa', nova série da Netflix.
O início da tragédia: um equipamento abandonado
Tudo começou nas instalações desativadas do Instituto Goiano de Radioterapia (IGR), onde um aparelho de radioterapia contendo Césio-137 foi deixado para trás sem a devida proteção.
No dia 13 de setembro de 1987, dois catadores de materiais recicláveis invadiram o local e retiraram o equipamento. Sem saber do perigo, levaram a peça para desmontagem, em busca de metais que pudessem ser vendidos.
Dentro da máquina estava uma cápsula com cloreto de césio-137 — um material altamente radioativo, que, ao ser violado dias depois, revelou um pó azul brilhante que chamou a atenção de quem o manipulava.
O “brilho azul” que encantou e contaminou
O material radioativo acabou sendo levado para um ferro-velho, onde foi aberto por Devair Alves Ferreira. Fascinado pelo brilho, ele passou a mostrar a substância para amigos e familiares.
Sem qualquer noção do risco, o pó foi distribuído entre vizinhos e parentes — muitos chegaram a passar o material no corpo, como se fosse algo inofensivo ou até decorativo.
Esse comportamento acelerou a contaminação.
Ao todo:
- Mais de 112 mil pessoas foram monitoradas
- 249 apresentaram contaminação significativa
- 4 morreram nas semanas seguintes por síndrome aguda da radiação
Leide das Neves
Entre as vítimas, a história de Leide das Neves Ferreira se tornou o símbolo mais marcante do desastre.
Uma criança e o contato fatal
Leide tinha apenas 6 anos quando entrou em contato com o Césio-137. O material chegou à sua casa levado por familiares que haviam tido contato com o ferro-velho.
Encantada com o pó azul, a menina o manipulou enquanto comia — ingerindo parte da substância. Esse tipo de contaminação interna é um dos mais graves, pois espalha a radiação rapidamente pelo organismo.
Poucas horas depois, surgiram os primeiros sintomas: náuseas, vômitos e diarreia. Inicialmente, a família acreditou se tratar de uma intoxicação comum.
O agravamento e a morte
Com a descoberta do acidente dias depois, Leide foi transferida para o Hospital Naval Marcílio Dias, referência no tratamento de radiação no país.
Ela desenvolveu a chamada Síndrome Aguda da Radiação (SAR), com sintomas severos:
- queimaduras internas e externas
- queda de cabelo
- infecções generalizadas
- hemorragias
Leide morreu em 23 de outubro de 1987, menos de um mês após a exposição. A dose de radiação que recebeu é considerada letal.
Um enterro marcado pelo medo
O sepultamento da menina revelou outro aspecto da tragédia: o pânico coletivo.
O corpo, altamente contaminado, foi colocado em um caixão de chumbo com centenas de quilos, vedado para impedir vazamento de radiação. Ainda assim, moradores temiam contaminação no cemitério.
O enterro foi marcado por revolta:
- o caixão foi alvo de pedradas
- houve confronto com a polícia
- parte da população tentou impedir o sepultamento
O túmulo foi isolado com concreto reforçado — e permanece seguro até hoje.
Com o tempo, porém, o local passou a ser visto de outra forma: Leide se tornou uma espécie de símbolo de inocência e vítima da negligência, sendo lembrada por muitos como uma figura quase “santificada”.
A descoberta do acidente e a corrida contra o tempo
O acidente só foi identificado oficialmente em 29 de setembro de 1987, após uma série de sintomas estranhos em pessoas que tiveram contato com o material.
A partir daí, teve início uma operação de emergência:
- áreas inteiras da cidade foram isoladas
- casas foram demolidas
- objetos pessoais foram descartados
O Estádio Olímpico de Goiânia foi transformado em centro de triagem, onde milhares de pessoas passaram por exames para detectar contaminação.
O impacto ambiental e o lixo radioativo
A descontaminação gerou uma enorme quantidade de rejeitos:
- cerca de 13,4 toneladas de material altamente radioativo
- aproximadamente 6 mil toneladas de resíduos contaminados
Hoje, esse material está armazenado em repositórios definitivos no município de Abadia de Goiás, em estruturas de concreto e chumbo projetadas para durar cerca de 300 anos — tempo necessário para que a radiação do Césio-137 decaia a níveis seguros.
As vítimas e a luta por reconhecimento
Atualmente, vítimas do acidente recebem pensões federais e estaduais, além de acompanhamento médico vitalício por meio de centros especializados.
No entanto, ainda há disputas judiciais envolvendo:
- reconhecimento de novas vítimas
- doenças que surgiram anos depois
- casos em descendentes
Associações de atingidos afirmam que o número real de pessoas afetadas pode ser muito maior do que o oficialmente reconhecido.
Um legado de dor, ciência e alerta
O acidente com o Césio-137 transformou protocolos de segurança no Brasil e no mundo. Ele é estudado internacionalmente como um exemplo de:
- falha institucional no controle de material radioativo
- impacto da desinformação em crises sanitárias
- consequências sociais do medo da radiação
Mais do que números, a tragédia deixou histórias — como a de Leide — que seguem como alerta permanente.
Quase 40 anos depois, Goiânia ainda convive com as marcas invisíveis daquele pó azul que, por alguns dias, pareceu inofensivo — mas revelou uma das maiores catástrofes radiológicas da história.

