Ciência e Tecnologia

O tempo diante das telas já preocupa psiquiatras no mundo todo

Ansiedade, insônia, depressão e dependência digital aparecem com frequência crescente em estudos que investigam o impacto do uso excessivo de dispositivos eletrônicos em diferentes faixas etárias

Lucas Machado
LUCAS MACHADO

11/08/2026 • 06:00 • Atualizado em 11/08/2026 • 06:00

Psiquiatras destacam que o uso prolongado de telas aumenta ansiedade e outros transtornos mentais

Psiquiatras destacam que o uso prolongado de telas aumenta ansiedade e outros transtornos mentais

Pexel

Poucos hábitos cresceram tão rapidamente quanto o tempo dedicado às telas. O celular acompanha o café da manhã, o computador domina o expediente, a televisão ocupa parte da noite e as redes sociais preenchem praticamente todos os intervalos do dia. Essa transformação deixou de ser apenas uma mudança de comportamento. Em diferentes países, ela passou a despertar atenção dentro dos consultórios de psiquiatria, onde profissionais observam um aumento de pacientes com sintomas relacionados à ansiedade, alterações do sono, dificuldade de concentração e sinais de dependência digital.

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A preocupação não está restrita aos adolescentes, grupo que costuma receber mais atenção quando o assunto é tecnologia. Crianças permanecem conectadas por períodos superiores aos recomendados por entidades médicas. Adultos passam boa parte do dia alternando entre trabalho, aplicativos de mensagens e redes sociais.Entre idosos, o crescimento também chama atenção, impulsionado pelo uso de smartphones, plataformas de vídeo e serviços digitais. O resultado é um aumento contínuo da exposição diária a estímulos que competem pela atenção do cérebro praticamente sem interrupções.

Levantamentos internacionais apontam que adultos permanecem, em média, mais de seis horas por dia diante de telas, enquanto adolescentes ultrapassam oito horas diárias. Em muitos casos, crianças também excedem os limites sugeridos por organizações pediátricas, principalmente nas faixas entre dois e doze anos. Paralelamente, estudos realizados nos Estados Unidos, Reino Unido, Brasil e outros países registraram crescimento na procura por atendimento em saúde mental, especialmente entre jovens, embora os próprios pesquisadores ressaltem que essa associação não significa, por si só, uma relação direta de causa e efeito. Fatores como pandemia, mudanças sociais e condições econômicas também fazem parte desse cenário.

Entre todos os comportamentos avaliados, um dos que mais despertam interesse é o chamado doomscrolling, hábito de consumir continuamente notícias negativas ou conteúdos preocupantes nas redes sociais. Revisões recentes associam essa prática a níveis mais elevados de ansiedade, pior qualidade do sono e maior sensação de esgotamento emocional.

O mecanismo ainda é investigado, mas a exposição repetitiva a informações estressantes parece manter o cérebro em estado constante de alerta, dificultando momentos de descanso e recuperação mental.

As notificações também passaram a ocupar espaço importante nas pesquisas. Cada alerta sonoro, vibração ou mensagem interrompe a atividade em andamento e exige que a atenção seja redirecionada. Estudos indicam que essas interrupções frequentes reduzem a capacidade de concentração, aumentam a sensação de ansiedade e prejudicam a produtividade. Mesmo quando o telefone permanece sobre a mesa sem ser utilizado, sua presença pode influenciar o desempenho em tarefas que exigem foco prolongado.

O impacto não se limita ao comportamento. Trabalhos publicados em revistas científicas descrevem alterações em circuitos cerebrais ligados ao sistema de recompensa, ao controle dos impulsos e aos processos de atenção.

Parte dessas pesquisas compara a resposta provocada por curtidas, notificações e recompensas digitais ao funcionamento de mecanismos já conhecidos da neurociência relacionados à liberação de dopamina. Os autores destacam, porém, que essas semelhanças não significam que o uso de redes sociais produza efeitos idênticos aos observados na dependência de substâncias químicas.

O sono aparece entre os aspectos mais afetados. A combinação entre luz emitida pelas telas, estímulo cognitivo e uso de dispositivos antes de dormir está associada à redução da produção de melatonina, ao atraso do início do sono e à pior qualidade do descanso. Como o sono participa da consolidação da memória, da regulação emocional e da recuperação do organismo, seus efeitos acabam repercutindo em diversas áreas da saúde física e mental.

As evidências reunidas até agora apontam para uma mensagem equilibrada. Nenhum estudo sugere que celulares, computadores ou redes sociais sejam, isoladamente, responsáveis pelo crescimento dos transtornos mentais observado em vários países.

Ao mesmo tempo, o conjunto das pesquisas indica que a exposição excessiva, especialmente quando associada à privação de sono, isolamento social, uso compulsivo e consumo contínuo de conteúdos negativos, representa um fator de risco que merece atenção. A discussão deixou de ser apenas tecnológica. Ela passou a integrar um debate cada vez mais presente sobre hábitos, qualidade de vida e saúde mental no século XXI.

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