Ciência e Tecnologia

Quantos dias para chegar à Lua? A resposta está no espaço agora

Com a Artemis II a caminho do satélite neste domingo, entenda como funciona a viagem e por que ela é muito mais do que uma questão de distância

Da redação
DA REDAÇÃO

05/04/2026 • 17:01 • Atualizado em 05/04/2026 • 17:01

Artemis 2

Artemis 2

Divulgação/Nasa

Neste domingo (05), uma pergunta ganhou destaque entre os brasileiros no Google — e não tem nada a ver com ovos de Páscoa. Com quatro astronautas cruzando o espaço profundo a bordo da cápsula Orion, no 5º dia da missão Artemis II, a curiosidade não poderia ser outra: quantos dias leva para chegar à Lua?

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No total, três dias. Mas a explicação por trás dessa resposta talvez mude a forma como você olha para o céu esta noite.

A distância

Feche os olhos por um segundo e tente visualizar 384 mil quilômetros. Não conseguiu? Normal. Nenhum ser humano consegue. Para ter uma referência: se você pudesse empilhar 30 planetas Terra lado a lado, ainda não chegaria à Lua.

A distância média entre a Terra e o satélite é de aproximadamente 384 mil quilômetros, mas não é fixa. A Lua orbita a Terra em uma trajetória elíptica, o que significa que ela se aproxima e se afasta ciclicamente. No ponto mais próximo, chamado perigeu, a distância cai para cerca de 356 mil quilômetros. No mais distante, o apogeu, chega a 406 mil quilômetros. É como tentar acertar um alvo em movimento enquanto você também está em movimento — exceto que ambos estão viajando a milhares de quilômetros por hora.

Para colocar em perspectiva humana: dirigindo a 100 km/h, sem parar, sem dormir, sem comer, levaria 160 dias para chegar à Lua. Um avião comercial (que te leva de São Paulo a Lisboa em dez horas, por exemplo) levaria 18 dias em linha reta. A cápsula Orion da Artemis II, impulsionada pelo foguete SLS com 8,8 milhões de libras de força no lançamento, faz o mesmo trajeto em três dias. A engenharia humana comprimiu 160 dias em 72 horas. Isso, por si só, já é extraordinário.

O que está acontecendo agora, em tempo real

A missão Artemis II já ultrapassou o ponto médio da viagem à Lua. A queima de injeção translunnar foi realizada no dia 2 de abril, acelerando a cápsula Orion para fora da órbita terrestre e colocando-a em trajetória direta ao satélite — o equivalente espacial de soltar o freio de mão e pisar fundo no acelerador, mas no vácuo absoluto, a 384 mil quilômetros de distância de qualquer socorro possível.

Neste domingo, a tripulação acordou a cerca de 65 mil milhas da Lua, aproximadamente um sexto da distância total da Terra, e iniciou o dia com uma demonstração dos trajes de sobrevivência. Mais tarde, realizará uma queima de correção de trajetória, receberá os alvos científicos lunares finais e entrará na esfera de influência gravitacional da Lua — o ponto invisível no espaço a partir do qual a atração gravitacional lunar supera a terrestre. É como cruzar uma fronteira que não existe no mapa, mas que a física sente com precisão absoluta.

O grande momento acontece nesta segunda-feira. O sobrevoo da Lua está programado para começar às 15h45 de 6 de abril (horário de Brasília), quando as janelas da Orion estarão apontadas para a superfície lunar. O ponto de maior aproximação ocorre às 20h02, a cerca de 6.500 quilômetros da superfície. Nesse instante, Reid Wiseman, Victor Glover, Christina Koch e o canadense Jeremy Hansen vão olhar pela janela e ver algo que nenhum ser humano vê desde dezembro de 1972: a Lua não como um ponto brilhante no céu, mas como um mundo, com crateras, montanhas, sombras e silêncio.

Da distância em que a Orion vai passar, os astronautas conseguirão ver o disco inteiro da Lua de uma vez, incluindo regiões próximas aos polos norte e sul que as missões Apollo nunca registraram com olhos humanos. Quando Orion passar pelo lado oculto, haverá um blackout de comunicações de cerca de 40 minutos — 40 minutos em que quatro humanos estarão completamente sozinhos, mais isolados do que qualquer pessoa já esteve na história da espécie. Sem sinal. Sem contato. Apenas eles, a nave e o lado da Lua que a Terra nunca vê.

Depois da Lua, Marte

Aqui está o detalhe que a maioria das pessoas não percebe: chegar à Lua é uma coisa. Chegar com segurança suficiente para depois pousar alguém lá é outra completamente diferente.

A Artemis II não vai pousar. Ela existe para que a Artemis III — que vai pousar — não mate ninguém. Cada sistema da cápsula Orion está sendo testado agora pela primeira vez com humanos a bordo: suporte à vida, comunicação em espaço profundo, resposta dos controles manuais, comportamento dos trajes de emergência. "Nenhum ser humano jamais voou nesta nave. Estamos realizando testes rigorosos para garantir que tudo esteja em ordem", declarou o administrador da NASA, Jared Isaacman, no dia do lançamento.

A missão completa dura dez dias. A amerissagem está prevista para 11 de abril, no Oceano Pacífico, encerrando uma jornada de 685 mil milhas (ida e volta) que vai abrir caminho para o retorno humano à superfície da Lua pela primeira vez em mais de meio século.

Desta vez, a ideia não é plantar uma bandeira e voltar. É ir para ficar, construir, entender. A Lua, na visão da NASA e das 61 nações que assinaram os Acordos Artemis, é o primeiro degrau de uma escada que termina em Marte. Três dias para chegar à Lua, cinquenta anos para ter coragem de tentar de novo. Amanhã, quando a Orion fizer seu sobrevoo, a humanidade vai estar um passo mais perto de descobrir o que há no próximo degrau.