Eduardo Oinegue

Um mergulho na carta lisérgica de Flávio Bolsonaro

Para quem queria conhecer o roteiro do discurso de Flávio Bolsonaro (PL) para explicar sua fuga do Brasil, ele está todo contado na carta que ele divulgou ao

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28/10/2026 23:29 • Atualizado há 1 hora

Para quem queria conhecer o roteiro do discurso de Flávio Bolsonaro (PL) para explicar sua fuga do Brasil, ele está todo contado na carta que ele divulgou ao chegar aos Estados Unidos. Olha só o que ele quer vender como verdade dos fatos.

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Primeiro, que não foi Lula quem ganhou a eleição, foi ele. Basta ver como abre a carta: “Dirijo-me ao povo brasileiro e à comunidade internacional como o verdadeiro presidente eleito do Brasil”. Se é o verdadeiro presidente eleito, foi vítima de uma eleição roubada. Roubo que ele descreve poucas linhas depois: “Na noite de domingo”, diz Flávio, “vi estarrecido uma fraude eleitoral se concretizar diante dos meus olhos”.

E como foi essa fraude? Flávio aponta Cristiano Zanin, ministro do Supremo que estendeu a votação por mais duas horas, a pedido do PT e também do PL. Na carta, só vale o pedido do PT. E Flávio lembra que Zanin foi advogado de Lula.

O trecho é o seguinte: “A atuação ilegítima e ilegal do ex-advogado do Lula permitiu que uma impossibilidade matemática se concretizasse e Lula acrescentasse mais de 10 milhões de votos do primeiro para o segundo turno”.

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A impossibilidade matemática só ficaria configurada se os votos dados a Lula e a Flávio, mais votos brancos e nulos, somassem mais de 100% dos votos contabilizados. Mas isso é detalhe.

Depois, Flávio afirma que houve abuso de poder político e econômico na campanha. E trata da decisão de Alexandre de Moraes de reter seus passaportes. Diz que Moraes, a quem chama de juiz corrupto, montou uma operação de perseguição política contra ele. E anuncia que continuará mobilizando a oposição do exterior.

Flávio não está apenas justificando sua fuga. Está contestando a legitimidade da eleição, da Justiça e do governo que acaba de ser eleito. Eleição reconhecida inclusive pelo PL. Flávio faz acusações gravíssimas sem apresentar uma única prova. Nem menciona que é investigado num caso envolvendo um advogado enrolado.

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No Brasil, a gente nunca tinha visto um candidato perder a eleição presidencial e fugir. Há vários precedentes no mundo. Uganda, Belarus, Tanzânia, Moçambique, Camarões, Gâmbia e Venezuela. Países marcados pelo autoritarismo, pela fragilidade institucional e por eleições contestadas. Mas estamos falando do Brasil. Uma das maiores economias do mundo, com eleições livres.

Não há dúvida de que cabe discutir o papel das instituições no Brasil. Não é normal que suspeitas envolvendo integrantes da mais alta Corte deixem de ser investigadas. Também merece questionamento uma decisão monocrática que interfere no horário de uma eleição presidencial. Mas daí a aceitar as acusações de Flávio Bolsonaro e tratar o Brasil como uma republiqueta vai uma longa distância. Ainda assim, uma coisa está clara: essa guerra política está apenas começando.