Sonia Blota

Crise bancária, renúncia e impeachment: a crise política no Paraguai

Crise bancária que deixou quase três milhões de pessoas sem acesso ao próprio dinheiro provocou um terremoto político no Paraguai

3 min

06/11/2026 09:24 • Atualizado há 2 horas

Crise bancária, renúncia e impeachment: a crise política no Paraguai

Santiago Peña durante a reunião de líderes do G20, no Rio de Janeiro, em 2024

Ricardo Stuckert/PR

Uma crise bancária que deixou quase três milhões de pessoas, praticamente a metade da população do Paraguai, sem acesso ao próprio dinheiro provocou um terremoto político no Paraguai. O presidente Santiago Peña anunciou a renúncia nesta quinta-feira, pressionado por denúncias de irregularidades financeiras e pela ameaça de impeachment. Mas a tentativa de deixar o poder não foi suficiente para interromper a ofensiva do Congresso.

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No centro do escândalo está o banco digital Ueno, uma instituição que entrou em processo de liquidação depois que o Banco Central paraguaio identificou problemas graves nas contas da empresa. O banco não tinha recursos suficientes para honrar seus compromissos financeiros. Entre as suspeitas estão empréstimos concedidos a empresas ligadas ao próprio grupo controlador.

E o caso ganhou uma dimensão ainda mais grave porque o banco também administrava aproximadamente US$ 850 milhões em depósitos públicos, incluindo recursos da Previdência Social. Dinheiro que deveria estar protegido e que agora está no centro de uma investigação.

A ligação do presidente com a instituição financeira agravou a crise. Santiago Peña, que é economista, foi acionista do grupo responsável pelo banco até março do ano passado. A oposição acusa o presidente de conflito de interesses e suspeita que autoridades tenham facilitado ou encoberto irregularidades. O Banco Central também entrou na mira dos parlamentares.

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A crise financeira rapidamente se transformou numa crise de poder. O Partido Colorado, que governa o Paraguai há décadas e ao qual Peña pertence, começou a retirar o apoio ao presidente.

Diante da possibilidade de perder o cargo por impeachment, Peña anunciou a renúncia. Só que a decisão provocou outra disputa. Pela Constituição paraguaia, ex-presidentes podem ocupar uma cadeira vitalícia no Senado. E a oposição suspeita que Peña tenha tentado preservar essa prerrogativa ao deixar voluntariamente a Presidência, antes de uma eventual condenação política.

Os deputados, porém, decidiram dar continuidade ao processo de impeachment.

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Enquanto isso, a Justiça avança nas investigações sobre o banco. Oito dirigentes foram presos e vinte e sete pessoas ligadas à instituição foram formalmente acusadas pelo Ministério Público. Houve determinação de bloqueio de bens e contas para tentar preservar o patrimônio público.

O Paraguai também tem um sistema similar ao nosso FGC (Fundo Garantidor de Créditos); portanto, o Banco Central anunciou que iniciará o pagamento de todos os correntistas que tiverem até R$ 8,9 mil no banco (fazendo aqui a conversão da moeda) e que valores até R$ 203 mil terão restituição integral.

Reformas e crescimento do PIB

O Paraguai é um país que adotou reformas liberais. E nos últimos anos vem apresentando forte crescimento do PIB, só em 2025 foi 6,6 por cento de crescimento. É um país com a carga tributária relativamente baixa, tem excedente de energia e vem atraindo diversos investimentos de multinacionais para seu país, inclusive do Brasil.

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O país também tem atraído um fluxo cada vez maior de brasileiros que foram atrás de estabilidade econômica e de um futuro melhor. É a terceira maior comunidade de brasileiros no exterior. São mais de 260 mil, ficando atrás somente de Estados Unidos e Portugal.

Santiago Peña é um grande aliado do presidente americano Donald Trump na região, inclusive nas políticas de combate ao terrorismo e crime organizado com acordos de cooperação militar, financeira e de inteligência no Cone Sul e tríplice fronteira. O país também mantém boas relações com o governo brasileiro de Luiz Inácio Lula da Silva.

O que se espera agora é que os correntistas sejam ressarcidos e que essa crise bancária não desestabilize o Paraguai, um dos países que compõem o bloco do Mercosul.